Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 1

Se você ainda não leu o início de tudo, clique aqui

“Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira…” (Marcos 8:35)

Era minha primeira vez em uma boate e ninguém precisou me ensinar como dançar ou agir. Foi algo natural. A música era Don’t look down, de Martin Garrix, e a cada movimento meu corpo se sentia no céu.

Depois de um tempo eu já estava cansada, mas não queria sai da pista, tinha medo daquela euforia ir embora e por isso fiquei irritada quando a Clara me puxou e disse para irmos beber alguma coisa. Aproveitei para passar no banheiro e no caminho vi pessoas fumando maconha, conversando ou ficando — tinha um cara com duas garotas ao mesmo tempo, intercalando as bocas e elas pareciam não ligar, tive vontade de vomitar.

Quando íamos entrar no banheiro ouvi um grito vindo do masculino e fiquei curiosa.

– O que você está fazendo? – A Clara quis saber.

– Ouvi um barulho estranho, quero saber o que é.

– Você tá maluca, Priscila? Deve ser alguém se pegando. – Ela puxou meu braço e eu me mantive firme. Estava começando a viver a vida, mas sabia diferenciar quando um grito era de prazer ou dor.

Espiei da porta, com cuidado pra ninguém me vê, não ouvi nenhum barulho além de risadas e conversas, então novamente o grito, só que dessa vez foi abafado. Me enganei, era no banheiro feminino.

—Priscila, vamos sair daqui.

Minha curiosidade era maior.

—Não, vamos ao menos vê o que está acontecendo.

Mesmo contra sua vontade, ela obedeceu.

Coloquei metade do meu corpo pra dentro e desejei nunca ter feito aquilo. Um garoto engarguelava outro na parede. Não era uma briga justa. O selvagem devia ter uns 18 anos e era forte, seus braços pareciam duas bolas de futebol, e a presa não devia ter mais do que 15 anos, e mais parecia aqueles bonecos de palito que desenhamos quando temos seis anos. 

Os murros no estômago do boneco se intensificaram e ele alternava entre gritos e sussurros de misericórdia. Eu não consegui me mexer, nunca tinha visto ninguém apanhar ao vivo, e tudo piorou, quando o garoto chamou pela mãe.

Ele só queria ficar vivo, era um adolescente que, provavelmente, como todos os outros, chama pela mãe quando as coisas ficam feias. Mas o selvagem não via assim. Ele continuava batendo e quando os murmúrios e socorro começaram a lhe incomodar transferiu os socos para o rosto do garoto.

Aquilo foi demais pra mim, parte do meu cérebro dizia que eu tinha que fazer alguma coisa, mas o meu corpo inteiro não conseguia obedecer.

– O que está acontecendo, Priscila? – A voz da Clara me despertou da dormência.

– Um homicídio, precisamos chamar a policia. – Minha intenção era sussurrar, mas não consegui e, então, eles nos viram.

Eu sabia que tinha que sair dali, e, dessa vez, não pra salvar o garoto, mas pra mim salvar.

– Priscila, vamos! Ele vai nos matar! – A Clara estava desesperada, mas nenhuma das duas conseguiu se mexer quando o selvagem nos olhou.

Seu olhar era profundo e sombrio. A esclera estava da cor de um vermelho tão vivo que a primeira impressão que tive foi que era sangue.

Ele nos avaliou e quando percebeu que tinha plateia para o seu show, soltou o garoto, que caiu esparramado no chão parecendo purê de batata, e começou a andar em nossa direção, lentamente.

Até então, não tínhamos conseguido nos mexer, mas foi sua voz grave, arrastada e ameaçadora que nos fez entender que ou corríamos ou morríamos.

– Pega elas, Fumaça. – Não sabíamos quem era Fumaça, nem tínhamos visto uma terceira pessoa no banheiro, mas não quisemos esperar pra vê.

Só fizemos uma coisa: correr.

Chamávamos a atenção de todos que passavam por nós. Atônitas, as pessoas iam abrindo caminho pra duas malucas desorientadas passarem. É claro que todos saibam que estávamos correndo de alguém, que algo tinha dado muito errado, mas ninguém nos parou para perguntar o que tinha acontecido.

De repente ali pareceu o pior lugar do mundo para está. A música, a festa, tudo ficou insuportável.

Corremos tão rápido que eu podia quase sentir meu coração perfurando minha pele e minha respiração pedindo socorro. Eu não fazia ideia se eles tinham vindo atrás da gente e nem ousei olhar pra trás. Preferi acreditar que a ameaça foi só pra nos causar medo, que na verdade, o selvagem não ia desistir de bater no menino. Mas eu estava enganada.

Eles nos esperavam na porta da boate. Àquela hora a rua estava deserta e nenhum segurança estava por ali. No meu primeiro dia de festa eu já aprendi uma valiosa lição: a principal meta de vida de alguém ao ir à balada é não precisar de ajuda em nenhum momento da noite.

– Por favor, nos deixe ir embora, juro que não vamos falar nada pra ninguém. – A Clara suplicou, ao se jogar no chão.

Eu fiz o mesmo. Por mais que quisesse continuar fugindo, não podia. A boate era grande e corremos muito. Se não sentássemos íamos morrer de cansaço. O que era melhor do que morrer nas mãos daquele sanguinário.  

– Você é burro??? – Seus gritos faziam parecer que seu parceiro estava na outra rua, e não do seu lado. Ela não pode sair daqui! – O uso do pronome no singular chamou minha atenção, mas atribui o erro as emoções fervorosas do momento.

Em minha cabeça eu planejava alguma maneira de fugirmos, eu estava determinada a não morrer. Já a Clara só fazia chorar, só não fique irritada porque eu tinha nos metido naquela situação.  

– Toddy, as meninas só apareceram no lugar errado e na hora errada. Libera elas. – A postura cabisbaixa e o a voz trêmula mostravam o quanto o Toddy tinha influencia emocional sobre o Fumaça.

O diálogo acontecia como se não estivéssemos ali e vi nisso nossa chance de fugir.

– Fica calado! Se você estragar tudo eu te mato também! – O Fumaça recuou, e quando eu estava sinalizando pra Clara se preparar porque íamos correr, o selvagem  voltou a atenção pra nós duas.

– Vocês duas irão ficar quietinhas – enquanto ordenava, vinha andando em nossa direção com o revólver apontado – e vão fazer tudo o que eu mandar.

Nesse momento a paralisia corporal já tinha voltado, e a última coisa que minhas pernas queriam fazer era correr. Eu sabia que se corresse ele ia atirar, então conclui que nossa melhor chance era esperar o momento certo.

A Clara continuava chorando e aquilo o irritou tanto que ele puxou o gatilho.  Segurei na mão dela e apertei forte. Nem sei por quê fiz isso. O medo que eu sentia era tão igual ou maior que o dela. Eu suava descontroladamente e tudo o que eu conseguia pensar era que íamos morrer.

Quando o Toddy estava a três passos de encostar a arma em uma de nós ouvimos o disparo.

Clique aqui para ler o próximo capítulo  😉

PS: Quem vocês acham que levou o tiro: a Clara, a Pricila, o Fumaça ou o Toddy?

 

Anúncios

6 comentários em “Eu odeio Ele – Capítulo 1

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s