Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 3

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“Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntou tudo o que era seu e partiu para um país que ficava muito longe.” (Lucas 15:13)

Três semanas se passaram e eu, aparentemente, estava reagindo da forma mais sensata ao ocorrido. É claro que eu não conseguia esquecer por um dia sequer aquela noite. Demorava horas para dormir revivendo as cenas desde o banheiro até a partida, e quando finalmente pegava no sono acordava no meio de um pesadelo em que o Toddy estava atrás de nós. No final do sonho eu sempre parava nos braços do Fumaça, que de um jeito sombrio sussurrava meu nome.

Na escola, eu não conseguia prestar atenção nas aulas, e por isso, tive que aumentar o meu tempo de estudo à tarde pra não ser prejudicada no final do ano. Meus pais devem ter percebido algo diferente em mim, eu já não conversava tanto como antes e passava mais tempo no meu quarto do nunca. Imagino que eles associaram essas mudanças à minha recente decisão de renegar a opinião deles na minha vida.

Enquanto eu tentava fingir que estava tudo bem e continuava fazendo as coisas de antes normalmente, a Clara tinha crises repentinas de choro e estava faltando mais aula do que o normal.

Marta, sua mãe, sempre que me via perguntava se eu sabia de alguém que poderia ter feito alguma coisa contra a ‘Clarinha’. Já não tinha mais nem resposta. Ficava dizendo que era preguiça de ir à escola ou só TPM, mas tava difícil de acreditar, já que a falta de apetite da Clara e a suspensão da ida à festas não ajudavam muito.

– Clara, você precisa parar com essa paranoia! – Alertei, quando estávamos voltando da escola e ela tinha rejeitado o terceiro convite de uma festa no mês. Aquilo também estava me prejudicando. Eu não queria deixar de curtir por conta do medo, mas não podia fazer isso com minha amiga sendo tão antissocial.

– Eu não sou você, Priscila. Estou traumatizada, não paro de pensar que aquele cara pode aparecer a qualquer momento e nos matar.

– Ele deve ter morrido. – Afirmei com uma voz que deixava nítido o quanto eu tentava convencer a mim mesma daquilo.

– Mas ainda tem o amigo dele, o tal do Fumaça. Ele me pareceu bem descontrolado. Fico imaginando se não pretende aparecer só pra apagar as únicas testemunhas do que ele fez.

Eu não tinha pensado naquilo. Fiquei tão perturbada com a possibilidade do Toddy não ter morrido e resolver terminar o que começou, que acabei fechando os olhos para os outros riscos que corríamos.

– Ele sabia meu nome. – Pensei alto.

– Isso é o menos importante. Eu realmente devo ter te chamado.

– Eu lembraria.

– Impossível, amiga. – A Clara tentou me acalmar pela primeira vez naquelas três semanas. – Ficamos muito nervosas, não tem como lembrarmos de tudo.

Eu não disse mais nada. Sabia que minha mente podia está me enganando e eu não ter guardado muitos detalhes, mas algo me dizia que eu estava certa em me preocupar.

Uma noite após essa conversar, eu estava desligando o computador, depois de passar 2 horas assistindo Flash na tentativa de sentir sono e conseguir dormir direito, quando uma pessoa cai da janela dentro do meu quarto.

Minha luz ainda estava acessa, e por isso o susto não foi maior. Era ele. O garoto não sabia só quem eu era, mas também onde eu morava.

Minha primeira reação foi gritar e correr pra porta, mas antes que eu conseguisse destrancar, o Fumaça chegou perto de mim e prendeu minha mão que estava na fechadura.

– Me larga ou vou chamar meus pais! – Falei alto de propósito.

– Para com isso, garota, eu não vou fazer nada com você. – Sua voz estava baixa e tranquila, e a proximidade me obrigou a olhar em seus olhos. Pela primeira vez eu o vi de verdade.

Ele tinha um olhar profundo e triste, que me despertou pena. Eu sou daquelas pessoas que acreditam no famoso clichê “os olhos são as janelas da alma”, e por esse motivo sempre tento decifrar as pessoas através dessas pequenas bolas. No caso do Fumaça, não eram tão pequenas assim.

Seus olhos, do tamanho de uma moeda de 25 centavos, pareciam assustados – com o tempo, descobri que eram assim por natureza – o que combinava perfeitamente com o desenho do seu nariz e suas bochechas nem gorduchas nem magrelas.

– Eu preciso que você me ouça com calma. Eu só quero conversar. – Em contrapartida, sua voz era tranquila e insanamente agradável.

Fiquei tentada a gritar, mas como eu explicaria aos meus pais onde conheci aquele garoto? Eles nunca acreditariam que eu não tinha dado o endereço da minha janela pra ele. Resolvi ao menos ouvir o que ele tinha pra dizer, na pior das hipóteses eu o empurrava pela janela.

Sim, naquela ocasião não passou por minha cabeça que ele podia está armado, e aí eu que seria empurrada janela a baixo.

– Como você sabe onde eu moro? – Juntando todas as poucas técnicas de encenação que eu sabia, tentei fingir calma e tranquilidade. Puxei minha mão da sua, e sem muito esforço consegui soltar. Sai de perto dele e fui andando em direção a minha cama, ele me acompanhou.

– Um estranho está dentro do seu quarto e antes de querer saber o porquê você pergunta como ele descobriu sua casa?

– Fala o que você quer, garoto. – Prometi a mim mesma que iria dá um minuto pra ele se explicar, se  assim não fizesse, eu ia pedir socorro.

Vendo minha impaciência, começou.

– O Toddy não morreu. – Aquela notícia balançou minhas estruturas e tive vontade de chorar. No fundo eu alimentava a esperança de que ele tinha batido as botas, e o fato disso não ter acontecido me impediu de segurar todo o medo que eu estava sentindo. – Fica calma, eu não to aqui porque ele mandou.

– Você veio me matar! Sai daqui, vou chamar a polícia! Sai!!

– Presta atenção, Priscila: Eu vim aqui pra te ajudar! – Seus braços não estavam dando conta de me segurar, e deu pra perceber que ele mesmo estava ficando com medo. – Se não fugirmos ele vai nos matar!

– Seu idiota, filho de uma mãe, me solta!! – Minha ânsia de sair dali impedia de ouvir as palavras dele com atenção.

Vendo que de nada ia adiantar pedir pra eu me acalmar, brutalmente me jogou na cama. Aquilo tirou minha atenção do medo, mas também despertou minha fúria. Quem ele pensava que era pra me tratar daquele jeito? Eu o tinha visto atirar em alguém, podia  entregá-lo para polícia.

Antes que eu começasse uma tempestade de acusações, tratou de falar.

– O Toddy não está nada feliz em saber que eu atirei nele pra defender duas patricinhas que ele queria mortas. Você sabe muito bem que se meteu no nosso caminho naquela noite, então ou você vai fazer o que eu disser ou vai ficar sozinha e pagar pra vê.

Sua voz passara de agradável para ameaçadora. Eu não conseguia me mexer, não conseguia acreditar no que ele estava dizendo e só pensava que na verdade era ele quem queria me matar.

Continua na próxima terça-feira (19)! Não perca 🙂

O que você está achando da história? Me conta nos comentários e não esquece de dizer o que você acha que a Priscila vai fazer agora 😉

 

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Um comentário em “Eu odeio Ele – Capítulo 3

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