Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 7

“Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o diabo, anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar.” (1 Pedro 5:8)

 

O Fumaça não estava brincando quando disse que o amigo era assustador. Sem falar nada, ele me despertou mais medo do que o cara que nos seguiu.

Seu olhar era escuro como a noite, e os braços fortes mostravam o sentimento de superioridade. Tinha o rosto grosseiro e uma cicatriz enorme marcava sua bochecha. Mas o pior de tudo não é essa descrição, e sim, sua forma de se vestir.

Ele usava roupas estilo marinheiro. Camisa branca e um macacão preto. Só consegui associá-lo ao assassino do filme Zodíaco. Mais do que um frio na barriga ou vontade de chorar, aquele homem causou um tremor em casa célula do meu corpo, seguido de uma negritude no meu coração. Foi uma sensação de morte.

– Como você foi fazer essa besteira, Fumaça? – Assim como a aparência, sua voz transmitia dor.

– Você sabe como o Toddy é difícil, teve uma hora que eu não engoli mais ele. – Foi impressão minha ou percebi um leve vacilo nessa desculpa? – Por quantos dias podemos ficar na sua casa, Dan?

– Pelo tempo que precisarem. – E então, naquele momento ele me olhou pelo retrovisor e o sentimento de morte de segundos atrás, voltou. – Mesmo com aquele vidrinho pequeno, conseguiu fazer uma avaliação de cima a baixo do meu corpo, parando mais demoradamente nos meus seios. O Fumaça percebeu e, estranhamente, se aproximou mais de mim. Eu não fiz nenhum tipo de objeção.

– Como está sua mãe? – Dan ignorou a pergunta do Fumaça, que mais uma vez insistiu, mas não conseguiu tirar a atenção do amigo de mim.

Sabe quando acontece algo na sua vida em que você não quer aceitar, porém de repente, sem razão aparente, cai sua ficha? Foi isso o que aconteceu comigo naquele instante, dentro de um carro com um homem sugando minha alma apenas com o olhar e com um amigo que decidia de acordo com o seu humor se me protegia ou não, foi que percebi onde estava e o por quê.

Como em apenas uma noite consegui mudar totalmente o plano que tinha pra minha vida? Eu só queria me divertir, não era justo o que tinha acontecido. Senti uma revolta, não contra mim, mas contra Deus e um sentimento de raiva encheu meu coração.

Por que Ele havia permitido aquilo tudo? Só porque eu queria viver minha vida longe de Suas regras? Foi nos Seus ensinamentos que aprendi sobre o livre e arbítrio, então por qual motivo estava tentando me punir? Só porque fiz minhas próprias escolhas? Minha cabeça girava e o biscoito ficou embrulhado no meu estômago. Nada mais fazia sentido. Por alguns segundos achei que estava em um pesadelo e que a qualquer momento minha mãe ia me acordar depois de ouvir os meus gritos e dizer que o carro, e aqueles dois homens, só existiram no meu consciente.

Porém não foi minha mãe que me acordou.

– Priscila, acorda, chegamos. – O Fumaça sacudiu meu braço sem cerimônia.

Desci do carro e o contato com a luz do sol fez meus olhos arderem. Só depois de alguns segundos consegui avaliar onde estávamos.

O lugar era distante de tudo, ficava na beira de uma estrada, e nem animal passava ali. Fiquei assustada, tentei manter o controle, mas quando o pensamento me ocorreu não consegui controlar o desespero: o que esperava por mim por trás daquela portas?

Eu estava com duas pessoas completamente estranhas. Uma eu conheci há alguns dias – em circunstâncias nada agradáveis, devo acrescentar –, não sabia se podia confiar. Já o outro, me olhava como se eu fosse um objeto brilhante e lindo de natal que fica na nossa estante apenas pra enfeitar por alguns dias, depois vai pra uma caixa no porão e ninguém lembra da existência dele. Ou na pior das hipóteses, vai parar no lixo.

Parei há dois passos da escada que antecedia a porta de entrada.

– Não vou entrar. – O Dan, que já estava com metade do corpo dentro da sala, me presenteou com um olhar tão gélido que posso jurar ter sentido frio até nos meus ossos.

– Fumaça, acho que a princesa está com medo de mim. Fala pra ela que eu só mordo quando pedem. – Zombou.

– Por favor, não consigo. – Segurei na mão vazia do Fumaça e o puxei levemente pra trás.

– Vai indo, Daniel.

– Se precisar de ajuda, é só me chamar.

O Fumaça ignorou o comentário e me arrastou de volta pro carro. Senti brevemente o que era felicidade novamente. Achei que ele ia me deixar voltar. Como você pode ver, aqui eu ainda continuava inocente.

– Ele é a nossa saída pra escaparmos do Toddy. – A explicação anulou a ordem que meu cérebro tinha acabado de dá às minhas mãos. Nem cheguei a encostar na maçaneta do carro.

– Eu to com medo. – Não era minha intenção a voz sair tão chorosa.

– Pior vai ficar se não tivermos proteção, Priscila.

– E como esse cara pode nos proteger? – A pergunta foi desnecessária. Era só olhar pra aquele rosto que eu tinha a resposta. – Ele nos protege do Toddy, e quem me protege dele?

Por conta do sol, não consegui encarar ele por muito tempo. Mas a aflição nas minhas palavras deixava claro que eu precisava e exigia uma resposta.

– O Daniel não vai fazer nada com você. – Falar isso encarando o chão revelava que nem mesmo ele acreditava naquela promessa.

Sem consegui mais me controlar, comecei a chorar. E ao invés do consolo que eu precisava, recebi indiferença.

– Que merda! Tudo você chora! Aceita logo que sua vidinha perfeita acabou e começa a colaborar pra nos manter vivos.

Assim como ele, eu também podia gritar a vontade. Ali ninguém nos ouvia.

– Em uma noite eu estou no meu quarto achando que o meu maior problema é ter que enfrentar a aula de física no dia seguinte, só que do nada descubro que não vou precisar ir à escola, porque um assassino me convence a fugir com ele! – Não parei pra respirar nem mesmo nas vírgulas, e por isso, só depois percebi o efeito das minhas palavras.

– Vamos rever os fatos – Falou, cautelosamente, olhando no fundo dos meus olhos. Ousadamente sustentei o olhar. – Você fugiu comigo e entramos em um quarto de hotel juntos, então acho que já confia em mim mais do que imagina, até porque se eu quisesse fazer alguma coisa com você já teria feito. E agora você vai entrar comigo à força.

Não tive tempo para protestar ou mesmo tentar correr. Sua reação me deixou tão surpresa e assustada que anulou qualquer coisa que eu pudesse fazer.

Continua…

O que será que o Fumaça fez com a Priscila? Ele pode ter batido nela… o que você acha? Me conta nos comentários!

Na próxima terça-feira (17), às 20h, eu te espero aqui pra juntos lermos o próximo capítulo dessa saga 😉

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s