Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 11

“Clamou este aflito, e o Senhor o ouviu e o livrou de todas as suas tribulações.”

(Salmos 34:6)

– Onde você pensa que vai, princesa? Está um pouco tarde para sair, não acha? – O susto que eu tomei me fez perder o equilíbrio, e só não cai porque me apoiei na porta.

– Embora. – Respondi, com a voz trêmula.

– Acho que isso pode esperar até amanhã. – Sem cerimônia ele se aproximou e prendeu meus dois braços na porta.

– O que você está fazendo? – A mesma sensação de morte do carro voltou e eu senti que algo muito ruim estava para acontecer.

Quando eu tinha doze anos entendi o que significada estupro. Estava fazendo meu dever de casa na mesa da sala, quando ouvi a empregada contar à minha mãe que uma conhecida havia sido abusada quando voltava do trabalho.

“O desgraçado aproveitou que a rua estava deserta àquele horário e a abordou na esquina de casa. Colocou uma faca em sua cintura e obrigou ela a entrar no carro, a violentou duas quadras depois.”

Desde aquele dia passei a dar mais ouvido aos conselhos da minha mãe. Fugia de qualquer homem que visse na rua e achasse o rosto esquisito. Fazia de tudo pra não passar por lugares desertos ou ficar andando sozinha até tarde.

Lembro que uma vez estava conversando com a Clara sobre esse assunto e comentei que preferia morrer a ter que passar por uma coisa dessas. Imagino que a morte seja melhor do que ter alguém invadindo seu corpo de maneira animalesca e te destruindo, não só fisicamente, mas a sua alma também.

Naquele momento, com um cara me empurrando contra a porta e tentando a todo custo me beijar, deduzi que além da humilhação, uma das piores coisas é você se sentir indefesa e não poder proteger a única coisa na vida que é unicamente sua: seu corpo.

– Me solta, pelo amor de Deus. – Eu tentava gritar, mas as tentativas dele de chegar na minha boca impediam, e mais do que isso, eu estava concentrada em não deixar minhas pernas paradas, porque isso facilitaria sua mão na minha vagina. 

Eu estava lutando, tentava chutá-lo, mas ele era forte. Prendia meus braços e minhas pernas. Passei a conhecer outro sentimento: nojo. Eu não queria que ele me tocasse, não queria que um estranho passasse as mãos, mesmo que rapidamente, em uma parte de mim que ninguém nunca tinha tocado.

Seu hálito de cebola me dava ânsia de vômito, e quando eu achei que ia vomitar alguém o arrancou bruscamente de cima de mim.

– O que você está fazendo, Daniel? Larga ela, agora! – A ordem do Fumaça veio junto com o soco no meio do nariz, que o pegou de surpresa.

– Tá ficando maluco, cara? Que onda é essa de me bater por causa de uma mina? – Eu não esperei para ver ele avançando no Fumaça.

Fora de casa parei e desmoronei na escada. Eu sei que o certo era sair correndo e não esperar mais nada, mas pra onde eu iria? Estava tudo escuro e eu não conseguia nem mesmo respirar direito.

Meu peito estava pesado, minhas pernas bambas e meu coração parecia que ia pular para fora. Não me julgue, eu queria correr, mas meu corpo não obedecia. Eu ainda sentia como se ele estivesse me segurando e me tocando. Sentia suas mãos passeando  pelas minhas cochas, sentia sua boca tentando encontrar a minha e seus braços prendendo os meus. Eu ainda me sentia indefesa.

Quando as lágrimas estavam quase caindo, uma mão tocou meu braço, e mesmo o gesto sendo delicado, eu não deixei de dá um pulo.

– Priscila, vamos!

O Fumaça estava com o rosto machucado. Seu nariz sangrava e sua boca me pareceu levemente inchada.

– O que ele fez com você? – Perguntei, enquanto corríamos para o carro.

– Não importa, temos que sair daqui antes que ele acorde.

O Dan era forte, mas pelo visto o Fumaça não costumava perder quando entrava em uma briga. Era a segunda vez que eu assistia ele escapar.

Suas mãos tremiam tanto quanto as minhas e ele quase não conseguiu dá a partida. Quando já estávamos saindo, alguém bateu no vidro, e por um momento pensei que era o nosso fim.

– Vocês esqueceram as mochilas. – Para meu alívio era a Dóris, tão exasperada quanto a gente.

– A senhora não precisava nos ajudar…

– Fumaça, não se preocupe comigo. Eu sei controlar meu filho. Agora vão, porque se ele acordar e vê vocês aqui já não posso garantir nada.

– Obrigada. – Consegui dizer e ela me deu um sorriso sincero.

Durante todo o caminho eu só chorava. Ainda não tinham 24 horas da minha saída de casa e eu estava destruída. Tinha acabado de sofrer uma tentativa de estupro e não fazia ideia de qual seria nossa próxima parada.

– Vai ficar tudo bem. – Estava claro que nem mesmo ele acreditava naquelas palavras. – Eu prometo. – A tentativa de reforçar essa promessa só me fez odiá-lo mais um pouco.

– Você sabia meu nome.

– O quê? – O assunto deslocado o deixou desconcertado.

– Naquela noite, você me chamou pelo nome, mas não tinha como saber. – Eu olhava fixamente pra estrada, a escuridão e os recentes acontecimentos estavam deixando algumas coisas mais claras em minha cabeça.

– Priscila, depois do que acabou de aconte…

– Cala a boca, Fumaça. Como você sabia meu nome? – Meu tom de voz era frio. Algo tinha quebrado dentro de mim.

– Eu ouvi a Cla…

– Mentira. – Interrompi, e ele perdeu, por alguns segundos, o controle do carro. – Em nenhum momento a Clara chamou meu nome. Você já sabia. Como?

– Para de gritar. – Sua voz ficou tão fria quanto a minha, mas não cogitei recuar.

– Fumaça, eu exijo uma explicação. Estou disposta a correr todos os riscos, inclusive com minha família. – Ameacei, ou melhor, blefei. E deu certo.

Com os olhos fixos no retrovisor, ele revelou o que eu temia.

– Nós já te conhecíamos. Sabíamos tudo sobre você e sua família. – De relance tentou observar minha reação, que não foi absolutamente nenhuma. Eu queria que ele contasse tudo, e pra isso, já tinha aprendido que não podia gritar ou espernear. – Naquela noite nosso trabalho não era apenas matar o garoto, mas também te sequestrar.

Continua na próxima terça-feira (21), às 20h…

Essa história está pegando fogo, não é? Por qual motivo você acha que o Fumaça ia sequestrar a Priscila e a mando de quem???

 

 

 

 

 

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