Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – capítulo 12

“Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração; então, se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra {…} Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus.”(Gênesis 6:5-7)

Eu estava suja. Esfreguei meu corpo por quase dez minutos, mas ainda me sentia imunda. Por que a água não estava me limpando? Passei sabonete quatro vezes, mas ainda tinha sujeira nas minhas mãos e pernas. Lavei meus lábios com shampoo, só que eles continuavam com um cheiro de cebola.

O desgraçado estava comigo. A sombra dele passeava por todo o banheiro. Posso jurar que sentia a presença do Daniel.

Nunca mais eu seria a mesma. Sem saber, quando fui para aquela festa estava decretando uma sentença de prisioneira. Tudo o que eu queria era ser livre, e quando consegui me tornei mais presa do que nunca.

Quis fugir das regras dos meus pais e acabei tendo que enfrentar a loucura de um desconhecido. De repente uma ideia me ocorreu: Será que essa não era a razão para tudo o que estava acontecendo?

Nunca fui ateia. Não querer seguir os ensinamentos bíblicos e achar que eles não passavam de uma maneira que a religião encontrou para controlar as pessoas não quer dizer que eu não acreditasse neles.

Sempre achei que Jesus de fato existiu e que Deus tem tanto poder quanto é pregado na igreja, e por isso, naquele momento eu pude entender o que realmente estava acontecendo.

Ele tinha traçado todo o meu futuro. Deus, possivelmente, já sabia que eu ia pedir a carta de alforria de Suas leis, e por isso cuidou de criar um plano para que no final eu tivesse que acabar suplicando por ajuda.

Não foi assim com as pessoas que viveram no tempo de Noé?  Deus era mal e sempre que alguém virava as costas para Ele tratava de fazer desaparecer da face da terra.

Perceber que só tinha duas opções na vida – me voltar pra Ele e assumir que errei ao deixá-Lo ou sofrer as consequências – fez com que um calor tomasse conta do meu corpo. Todas as minhas veias pareciam pulsar, e naquele momento, eu jurei para mim mesma que não deixaria nada acabar com meus sonhos.

Ali começou minha luta com o Todo Poderoso.

– Priscila, sai desse banheiro! Já são três horas da manhã.

Eu não vi o tempo passar e passei quase uma hora debaixo do chuveiro.

Diferente do outro hotel, nesse a cama era de casal, então, a muito contra gosto, tive que deitar do lado do Fumaça. O que não foi tão ruim, pois eu queria olhar cada expressão dele de perto quando começasse a me contar tudo.

– Não estamos mais no carro, não corremos risco de eu perder o controle e tentar nos matar, pode dizer quem mandou você me sequestrar e porquê. – Nunca fui uma pessoa direta, sempre fiz rodeios para falar alguma coisa, principalmente se fosse um assunto sério, mas eu não era mais a mesma menina medrosa da noite anterior.

– Foi o Miguel… – Deu uma pausa, apenas pra esperar a pergunta óbvia.

– Que Miguel, Fumaça? Você fala como se eu tivesse obrigação de conhecer!

– E conhece. Aliás, todo mundo sabe quem é Miguel Monteiro.

Só não cai quando ouvi aquele nome porque estava deitada. Miguel Monteiro é o dono da agência de modelo mais badalada do país, a Dreams. O cara tem muito dinheiro e vive aparecendo nesses programas de domingo à tarde, onde apresenta um quadro que ajuda meninas pobres a realizarem seu sonho.

Ele também aparece em festas e em alguns jornais – já se meteu em algumas brigas, mas nada fora do normal –, porém a generosidade sobressai as confusões.

A Clara é apaixonada por ele, e como sua mãe é estilista, conhece o cara de perto e já fez várias fotos na Dreams. Ela acha ele lindo – confesso: não só ela, todo mundo – e charmoso, e super educado. O que o Fumaça tinha falado não vazia sentido nenhum.

– Para de mentir, garoto! Porque ele iria querer me sequestrar? O Miguel é um filhinho de papai, mas não passa disso.

– Um filhinho de papai que não acha suficiente o que herdou e tem um negócio de prostituição em outro país.

– Não pode ser, Fumaça… Isso não tem lógica…

– Por que não, Priscila? Você acha que esse mundo perfeito existe? A maioria dessas meninas não conseguem nenhum futuro como modelo, e o que resta para elas? Aceitar a primeira oportunidade que surge de ganhar algum dinheiro para sustentar a família. Elas não querem voltar para casa de mãos vazias, quer dizer, elas precisam conseguir alguma coisa. A maioria é de cidades do interior onde a fonte de renda é baixíssima, e quando saem buscando conseguir o emprego dos sonhos os pais apostam tudo nelas. É frustrante assumirem que não conseguiram, então acabam aceitando a proposta de serem apenas dançarinas em uma boate no exterior, mas quando se dão conta virarão prostitutas, na melhor das hipóteses.

Quando parou de falar respirou fundo, estava cansado e pela forma como seus olhos passeavam por todo o meu rosto entendi que aquela era a primeira vez que ele falava sobre isso com alguém e estava desesperado pra vê como eu reagiria.

Se recebesse gritos pararia de contar, por isso, mesmo enlouquecendo por dentro, fingi que só queria que ele continuasse seu desabafo.

– Qual o seu papel nisso?

– Eu cuido delas antes de viajarem. – Mudou de posição, encarando o teto. – Vigio para que não fujam ou contém alguma coisa para alguém. – Ele não me olhou, não sei se por vergonha ou parte de alguma encenação, eu ainda não queria acreditar naquela história. Tudo era muito surreal.

– Vamos supor que tudo isso seja assim, como você tá contando…

– Se você não acredita em mim, qual o sentido de eu falar? – Voltou a me encarar e mudei de tática.

– Desculpa, só não consigo entender porque o Miguel Monteiro mandou me sequestrar. Eu não quero ser modelo, nunca acompanhei a Clara nas sessões de fotos e os eventos sociais que meus pais frequentam não são os mesmos que ele. – A empresa do meu pai era de tecnologia.

– Tudo o que sei estou te contando. O plano era te levar para o Miguel ainda naquela noite e de lá já íamos te colocar em um avião para a Europa. – A naturalidade com que ele falou aumentou meu pânico, e não quis mais me controlar.

– Porque você ia fazer isso comigo??? – Eu estava aos prantos, sentia como se meu espírito tivesse saído do corpo. Uma angústia tomou conta de mim e tudo o que eu queria era sair daquele quarto, que parecia me engolir.

– Priscila, fica calma, isso não vai mais acontecer. – Se levantou para pegar um copo com água, que foi rejeitado.

– Vocês iam acabar com minha vida! Porquê???

– Alguém deve ter pagado o Miguel para fazer isso com você. As meninas não são escolhidas aleatoriamente. – Ele sentou do meu lado e isso aumentou ainda mais a falta de ar que eu sentia.

– Mas quem, Fumaça? Quem me odeia tanto assim?

– Isso eu não sei, e tenho certeza que o Toddy também não sabe.

A menção daquele nome me despertou para um detalhe importante:

– Porque você está me ajudando? – A pergunta o pegou de surpresa, ele quis se esquivar, mas fui mais rápida. – O que você ganha com isso?

– Liberdade. – Devo ter feito uma expressão muito confusa, porque ele logo tratou de explicar. – Se eu conseguir te ajudar a escapar dessa, então eu também escapo. Não vou mais precisar trabalhar para o Miguel, é claro que vou passar a vida fugindo, mas é bem melhor do que passar a vida perseguindo.

Estava claro que eu era apenas um passo para o que ele chamava de liberdade. Não me importei, eu só queria conseguir sair daquela viva, se o Fumaça ia continuar trabalhando para o Miguel ou não, era a menor das minhas preocupações.

Alguém tinha armado para mim, mas quem? Qual ser humano me achava tão desprezível ao ponto de pagar para me vê sendo escrava sexual?

Vasculhei minha mente e não consegui lembrar de ninguém. Na escola eu era amiga de todo mundo – e mesmo que não fosse, acho que ninguém seria tão maligno a esse ponto –, na rua ou na igreja as pessoas também eram tranquilas, então não existia ninguém – pelo menos era o que eu achava – que quisesse destruir minha vida.

Eu já tinha lido reportagens sobre mulheres que são enganadas e vão para outros países buscando realizar seu sonho, mas quando chegam lá se veem obrigadas a venderem o corpo. Uma vez vi a história de uma moça que foi estuprada por 20 homens em 15 horas. Ele era escrava sexual em Atenas.

Todos aqueles pensamentos desencadearam uma onda de emoções. Eu quis gritar, quis fugir, quis morrer. Nada fazia sentido. As coisas não se encaixavam, mas mesmo assim eu acreditava.

O Fumaça não tinha motivos para mentir, e se ainda fosse tudo inventado, e na verdade ele quisesse me sequestrar porque não tinha pedido o resgate ou me ameaçado diretamente de alguma maneira?

Ele não iria conseguir esconder por tanto tempo se fosse o autor daquela armação toda, ia?

Continua…

Quem você acha que quer destruir a vida de Priscila??? Será que ela fez alguma coisa para merecer isso?

Te espero na próxima terça (28), às 20h 😉

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