Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 18

“Porque não há nada oculto, senão para ser revelado, e nada escondido senão para ser trazido à luz.” (Marcos 4:22)

Ao contrário do que eu tinha imaginado, o bar que íamos trabalhar não era um lugar sujo e caindo aos pedaços, tudo estava organizado e limpo, como se fosse um restaurante. Eram dois andares e em cada um tinha no meio a parte central onde faziam os drinks.  De cara, percebi que não era qualquer pessoa que frequentava ali.

– Fumaça, mal entrou no trabalho e já quer ser demitido? – A repreensão veio de um homem de altura mediada, com braços musculosos e um visual impecável. A blusa de um tom escuro combinava perfeitamente com a jaqueta de couro preta.

– Quanto tempo, Ronald. – Os dois se abraçaram como se fossem velhos amigos e vi que o puxão de orelha não passava de uma brincadeira.

O Ronald me olhou de cima a baixo e esperou o Fumaça nos apresentar, o que aconteceu de forma apressada.

– Tenho certeza que você vai se dá muito bem no trabalho. – O tom de malícia não me passou despercebido e logo lembrei do Dan. – Vou pedir alguma das meninas para te ensinar a fazer drinks, tenho certeza que os clientes vão adorar um rostinho novo.

– Não precisa, eu ensino. – O Fumaça interveio.

– O que é isso, cara? Tá com ciúmes? Você vai ficar comigo, na parte dos jogos.

Meu amigo abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu.

– Quero ir ao banheiro. – O desespero de começar a achar que iria ser usada para fins nada legais me fez pensar em procurar alguma forma de fugir. Cheguei a desconfiar que me levar ali era o verdadeiro plano, que seria naquele bar que iriam usar o meu corpo, mas com a reação do Fumaça consegui manter a calma e tentei pensar com clareza.

– Não demora, gracinha, estou precisando vender muito hoje. – Jurei que não seria através de mim que aquele cara com ar de cafetão iria conseguir dinheiro.

O banheiro ficava na parte de cima, que era mais vazia. Quando estava quase chegando lá uma porta com uma sinalização de gerência chamou minha atenção.

A essa altura você já deve ter percebido que não sou a pessoa mais sensata do mundo quando fico curiosa, então o que se segue a seguir não será nenhuma surpresa.

Olhei em volta e tentei não chamar muita atenção quando entrei. O lugar era uma bagunça, o contraste do lado de fora. Tinham papéis por toda a mesa, cadeiras espalhadas, frasco de bebida por todo lugar, além de restos de comida.

Um porta retrato grande pendurado na parede segurou meus olhos. A foto era antiga, mas não ao ponto de ser preto e branco. Vários amigos estavam em uma mesa comemorando, entre eles identifiquei o Miguel e o Ronald, estavam claramente felizes. Nada de estranho, já que todas as pessoas do círculo de amigos do Fumaça, com certeza, tinham alguma ligação com o Miguel.

Quando já estava quase voltando para a porta, uma pessoa na foto me fez parar mais alguns segundos. Aquele cabelo grisalho eu reconheceria em qualquer lugar, já que desde pequena eu o vejo. Era o Wilson, pai da minha melhor amiga.

Mas o que ele estava fazendo em uma roda de caras daquele tipo? Fiquei sem entender como o Wilson, sério do jeito que era, podia ter um dia sentado perto daquela gente.

Ele também parecia feliz. Sorria como os outros e exibia um copo cheio de um liquido que imaginei ser cerveja. O sorriso não era o mesmo que eu conhecia, parecia ser natural.

Aquela nova descoberta chamou mais ainda minha atenção para aquele local. Comecei a passar os olhos por todo o escritório, mexi nas gavetas e nos papéis, sempre com muito cuidado para deixar tudo do mesmo jeito – como se fosse possível com bagunça. Quando já estava achando que aquilo era loucura, um papel em baixo de umas caixas de canetas na terceira gaveta fez com que eu sentisse uma sensação estranha, um aperto no peito, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer.

O papel era antigo, tinha a cor amarelada e dava para ver que já tinha sido amassado várias vezes. Comecei a ler e era uma espécie de documento de desligamento, dizia alguma coisa do tipo ‘Abro mão dessa criança e a deixo sobre os cuidados do estado, dando minha palavra de que nunca voltarei para procurá-la’. Achei aquilo mega esquisito, porém imaginei ser de alguma das meninas que o Fumaça já tivesse levado ali, mas quando li a assinatura da pessoa que abria mão e da criança que estava sendo abandonada, meu chão desabou.

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– Nós precisamos fazer alguma coisa, Sônia. Minha filha está perdida por ai. – Margarida estava aos prantos.

– Sua filha? – Esbravejou a irmã. – Foi eu que a criei! Você só teve um bebê e depois abandonou!

– Não precisa dizer isso! Todos os dias eu me lembro de como sou uma péssima pessoa e de como seria uma mãe horrível.

As lágrimas da irmã mais nova comoveram.

– Desculpa, Margarida… Eu estou muito nervosa, mas não tenho o direito de falar com você desse jeito. A Priscila também é sua filha. – Sônia foi sincera no pedido. – Nós vamos encontrá-la, minha irmã. O Antônio já foi em uma emissora de um amigo dele  e pediu para divulgar fotos da nossa menina no jornal.

Aquilo não acalmou o coração da mãe biológica.

– A Priscila é esperta, Sônia. Se ela não quiser, não será encontrada.

– Mas alguém vai ter que vê-la em algum lugar. Tenha fé, minha irmã.

Fé. Quanta ironia Sônia dá esse conselho para a irmã. Ela mesma estava lutando desesperadamente para não perder a fé na vida.

Por mais que tivesse o apoio do marido e dos amigos, era difícil acreditar que tudo acabaria bem depois de tanta coisa. Sônia estava cansada das provações. Passou a vida toda ensinando a filha a acreditar em Deus, mas ela já tinha se pegado questionando três vezes em apenas 2 dias se Ele tinha planejado alguma coisa boa para sua vida.

Primeiro aos 16 anos ela descobre que não pode engravidar, porém cinco anos depois consegue. Tem uma bebê doce e cheia de saúde, mas em uma noite qualquer ela vê a filha desfalecer. Apesar da tragédia, recebe Priscila de presente, só que para não perder o costume, o inesperado acontece.

Era como se Deus dissesse que em nenhum momento ela seria totalmente feliz. Sônia não suportaria mais uma perda. Ainda não tinha se recuperado totalmente da primeira filha e agora a segunda…

– Confie, meu amor. – Disse Antônio na noite anterior. Na hora aquelas palavras a reconfortaram, mas agora tudo o que ela mais queria era encontrar Deus cara a cara e perguntar o porquê de tanto teste.

Continua na próxima terça-feira (18), às 20h.

PS: Me conta nos comentários quais nomes você acha que estão escritos no documento que a Priscila encontrou 😉

 

 

 

 

 

 

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