Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 20

“Então sua mulher lhe disse: “Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!” Ele respondeu: “Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?” (Jó 2:9,10)

– Graças a Deus! – Fui surpreendida com um abraço, assim que abri os olhos – Achei que ia precisar te levar ao hospital.

– Eu ainda acho melhor levá-la.

A voz estranha me deixou mais confusa ainda, olhei para o Fumaça sem entender nada.

– Priscila, essa é a dona Marli, nossa vizinha. Ela me viu chegando com você nos braços e veio nos ajudar.

Olhei, pela primeira vez, para a mulher parada do lado dele. Ela era alta, cabelo preto e tinha um olhar materno que exalava preocupação. Quando nossos olhos se cruzaram ela sorriu, e por algum motivo meu coração se encheu de paz. Mas foi só por alguns segundos.

– Como você se sente, querida? – Sua voz foi como mel no meu coração, e um alívio momentâneo dominou meu espírito.

– Estou bem, obrigada. – Respondi com a voz mais doce que consegui. – O que aconteceu?

– Estávamos trabalhando, você ficou tonta e desmaiou. – Em partes, era verdade, eu realmente tinha ficado tonta.

Assenti.

– Quer comer alguma coisa?

Fiz que não e minha mais nova amiga passou algumas instruções para que eu não voltasse a desmaiar. Ela demorou um pouco para ir embora, queria ter certeza que eu estava bem e mesmo eu estando louca para ficar sozinha com o Fumaça e entender o que tinha acontecido, não pude deixar de sentir afeição por ela. Nem me conhecia direito e mesmo assim tinha uma preocupação sincera. Senti que se alguma coisa fugisse do nosso controle era para ela que eu correria.

– Você está bem mesmo? Digo, depois de descobrir a verdade sobre sua família. – Ele olhou para a certidão em cima da mesa na nossa frente e toda a dor que senti na hora que descobri voltou.

– Eu mau posso acreditar, Fumaça… Esse tempo todo…  O Wilson é o meu pai… –Pronunciar aquilo em voz alta foi ainda pior do que ouvir, pareceu que todo o meu passado, tudo o que eu já tinha vivido até ali quebrou em pedacinho. Minha vida era uma grande mentira.

– E pelo visto sua tia sua mãe…

– O Ronaldo viu você pegando?

– Não, percebi antes dele o que você tinha encontrado.

Ele pegou o documento e me entregou. No nome tinha apenas Priscila, a data e a hora em que nasci, e o nome do funcionário do cartório. Ah! E o nome do Wilson e da minha tia Margarida, claro.

– Eu não entendo, como puderam fazer isso comigo?

– Pelo que percebi, sua tia teve um caso com o Wilson, que resultou em você, como sua idade é a mesma da filha dele, então ele já era casado e deu um jeito de abafar a história, te entregando para seus pais.

Ouvir aquilo de uma forma tão crua e seca me fez ficar tonta de novo. Então a verdade era que eu fui fruto de uma infidelidade, fui rejeitada e por pena, meus pais me criaram. O ódio cresceu dentro de mim. Tudo era ainda pior do que eu tinha imaginado. Deus não tinha raiva de mim por ter fugido de suas regras, Ele simplesmente me trouxe ao mundo para sofrer. Era simples assim, eu fazia parte de um de Seus joguinhos para mostrar a todos Quem estava no comando.

– Maldição! – Gritei tão alto que o Fumaça se assustou.

– Cala a boca Priscila, quer acordar todo mundo? – Coloquei a mão no peito e respirei fundo, eu não podia trazer mais problemas para mim, já bastava os que tinham nascido comigo – Eu sei que é uma barr…

– Você sabe o que, Fumaça? Você não sabe de nada, nem ao menos se gosta de mim mesmo, então não vem querer me consolar, porque eu não preciso da sua pena!

– Eu gosto de você sua louca, se não gostasse já tinha te largado sozinha!

– E agora, como vai ser? Eu sou só um joguinho do Toddy para conseguir dinheiro. Você nunca vai ser livre.

– Talvez você esteja certa, mas pelo menos eu tentei.

– Maldito seja o dia que eu nasci… – Eu disse, mudando de assunto. A questão não era ele e seus problemas, mas sim, os meus.

– A culpa não é sua.

– É Dele, Fumaça.

– Dele? – Perguntou sem entender.

– De Deus, foi Ele…

– Não fala isso, Priscila. Deus não tem culpa das coisas ruins que acontecem.

– Como você pode dizer isso? Eu não pedi para nascer e já estava condenada a ser enganada e ter minha vida destruída.

– O que acontece com a gente é resultado das nossas escolhas.

– Eu não escolhi ser fruto de uma traição! – Disse irritada, sem saber aonde ele estava querendo chegar.

– Sei disso, e nem eu planejei essa vida, mas quando vi já estava nela.

– Isso não tem nada a ver. Você não foi enganado.

– Nascer em uma casa com um pai alcoólico e agressivo e precisar fugir aos 13 anos de idade pode não ser engano, mas com certeza não é justo.

Eu não fazia ideia do rumo que aquela conversa tomaria, mas senti necessidade de deixar ele continuar.

– E como você ainda pode defender Deus?

– Eu não o defendo, só sei que Ele não tem culpa dos meus problemas.

– Mas se Ele quisesse teria evitado todo o seu sofrimento.

– Se eu quisesse também teria. Talvez não quando era pequeno, mas depois adquiri esse poder.

– Como assim?

– Já precisei matar para viver, Priscila, e Deus não me obrigou a isso. – As palavras sinceras e diretas me pegaram em cheio, parte de mim não esperava, ou não queria ouvir aquilo. Eu já tinha desconfiado que o Fumaça já tinha matado, afinal, conheci ele em circunstância nada agradáveis, mas naquele momento ficou concretizado, eu havia entregado minha vida nas mãos de um assassino. – Só fiz porque precisei, Priscila… – falou percebendo minha expressão assustada. Fez menção de colocar a mão sobre a minha, mas recuei.

– Qual foi o motivo? – De repente meus problemas pareceram pequenos e distantes, como se fossem de outra pessoa e na verdade, as angústias do Fumaça fossem as minhas.

Ele suspirou e disse:

– Tantos… – Então havia sido mais de uma vez… Comecei a sentir uma sensação de abafamento, o ar ameaçava me faltar e foi difícil conseguir me controlar. – Nenhum motivo que valha a pena você saber. – Ele não me encarava, parecia envergonhado.

– Mas eu quero saber. – Sim, eu queria. Precisava saber quais coisas o irritavam ao ponto de fazê-lo matar, não podia nem pensar na possibilidade de copiá-las.

– Uma vez foi por conta de drogas, o cara para quem eu trabalhava me mandou apagar um garoto que devia a ele. Se eu não fizesse era eu quem dançava. – Senti tristeza em sua voz, enquanto falava pareceu vulnerável, e aquilo fez com que a compaixão encontrasse um lugarzinho em meio ao pânico que eu sentia. Tive vontade de abraçá-lo. – Outra vez foi em uma briga na boate que eu trabalhava. Um cara foi pra cima de uma menina forçar ela a fazer o que não queria, então precisei me meter, não pensei duas vezes, tinha que defendê-la. – Ele parecia uma criança contando seus piores pecados e tive vontade de mandá-lo parar, era como se sua alma se rasgasse a cada palavra. Sua voz era carregada de tristeza e sua expressão não negava a dor que sentia ao falar daquelas coisas. – Outra vez quando eu estava na rua teve um tiroteio, briga de gangues, eu não tinha nada a ver com aquilo, só queria passar minha noite em paz – então ele já havia morado na rua, aquilo realmente me pegou de surpresa. – mas eles estavam a fim de guerra…  

– Fumaça se você não quiser falar tudo bem… – Interrompi.  

– Só sei que pegaram o líder de uma delas, o problema foi que o cara que o prendeu era parceiro dele. – Continuou como se eu não tivesse nem falado. – Ele era um X9. Queria matá-lo, mas não podia fazer isso com as próprias mãos, senão os outros viriam atrás dele. – Deduzi o final antes mesmo de ele terminar.  – Me viu por perto e me chamou, tive medo do que poderia acontecer se eu não obedecesse e fui. Então ele me deu duas opções: ou eu atirava na cabeça do cara ou ele atirava na minha.  

Quando terminou de falar, seu rosto estava pesado e os olhos me pareceram marejados, mas não tive certeza.

– Quantos anos você tinha?

– 13.

Aquilo me revoltou. Quem no mundo obrigava uma criança de 13 anos a fazer uma coisa daquela? Quem era sem coração dessa maneira? Perguntei-me como podia existir tantas pessoas ruins…

– Como você ainda pode defendê-Lo? – Questionei com vontade.

– A vida é assim mesmo, Priscila, uns tens sorte, outros não, uns podem sonhar e realizar, outros matam para ao menos poder sonhar. Não é Deus quem dita os acontecimentos, são nossas escolhas. Por diversas vezes vieram pessoas até mim para dizer que eu podia mudar de vida, mas eu não quis. Na verdade, eu queria e quero, só que não vejo mais solução, já matei tanta gente, acabei com tantos sonhos que não vejo mais saída. Eu sou um caso perdido, mas você não. Mesmo não sendo filha de verdade dos seus pais, eles te criaram com amor e carinho, tanto que você nunca desconfiou de nada. –  Ouvi tudo calada e suas palavras me pegaram surpresa, eu jamais imaginei que um menino como ele pudesse ter tanta verdade dentro de si. Eu até concordei com metade do que ele falou, continuava achando que Deus tinha culpa, se Ele quisesse poderia ter evitado tudo àquilo desde o começo.  

Mas não era hora para gritar com Ele, o Fumaça me fez entender que eu precisava ser forte. Quanto mais fraca eu fosse mais as pessoas me enganariam e pisariam em mim.

– Então, você tem duas opções: ficar se lamentando e fazendo escolhas que te acabem mais ainda ou esperar tudo isso passar, voltar pra casa e enfrentar a realidade.

– Você tem razão. – Admiti.

– Eu sempre tenho. – O tom de brincadeira não disfarçou a tristeza que tinha se alastrado em seus olhos desde que ele começou a contar sua história. Eu nunca imaginaria que ele já tivesse passado por tanta coisa.

– Você é uma pessoa forte. – O elogio o pegou desprevenido e logo desviou o olhar. Aquela reação só me fez ter vontade de consolá-lo. – Obrigada por tudo, eu não teria sobrevivido se não fosse você.

– Teria sim, nem que fosse gritando e brigando – ia retrucar, mas tive uma ideia melhor.

– Ou assim.

Antes que ele percebesse eu já estava o beijando. Um beijo urgente, que tentava dizer tudo o que não consegui quando ele expôs sua alma.

O puxei para mais perto de mim, um segundo longe parecia que alguém ia arrancá-lo dali. Senti que precisava dele, era como se a cada toque todas as coisas no mundo estivessem em seu devido lugar.

– Fumaça…

– Oi – disse, enquanto beijava meu queixo.

– Não me abandona, por favor – supliquei e ele parou de me beijar no mesmo instante.

Ele parecia analisar meu rosto, como se estivesse guardando cada detalhe e seu olhar me fez querê-lo mais ainda.

– Por que eu faria isso? – Sussurrou com a boca colada na minha.

– Porque você quer ser livre do Miguel, dessa vida, e para isso precisa ir embora.

– Eu só vou embora quanto tiver certeza que você está segura.

Ele não tinha entendido. Eu queria ele na minha vida, eu precisava. Mas ao invés de dizer isso, voltei a me concentrar em seus lábios e foi quando ele colocou a mão nas minhas costas, por dentro da blusa, e me olhou como se pedisse permissão para continuar. Foi naquele momento que percebi que estava apaixonada.

Continua…

Vocês acham que o Fumaça vai abandonar a Priscila? 

Temos um encontro na próxima terça-feira, no mesmo horário 😉

 

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