Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 24

Antes que eu pudesse formalizar o pensamento de que tudo estava perdido, o Fumaça pulou em cima do Miguel e começou uma briga fadada ao fracasso.

Como o Miguel não esperava o ataque, o Fumaça ficou com uma leve vantagem ao socar seu estômago. Porém, com o tamanho de uma girafa do Miguel, meu namorado logo estava no chão.

A luta não era justa. O Fumaça estava sendo massacrado com sessões de socos no rosto e eu não sabia o que fazer, até que ele disse:

– Priscila, você tem que sair daqui!

Antes que eu pensasse em correr – coisa que estava fora de cogitação vendo ele naquela situação –, enxerguei o revólver, que tinha sido largado em cima da mesa.

Rapidamente meu braço alcançou o objeto e em segundos eu soube que de nada adiantaria. Eu nunca tinha usado um revólver, e o Miguel sabia disso.

Sem pestanejar ele largou o Fumaça no chão e veio pra cima de mim.

– Socorro!!!

– Grita de novo e eu te mato. – A ameaça veio seguida de um tapa na cara, que me fez cair no sofá.

– Aiii!!! – Suas mãos ásperas e duras tocaram em minha bochecha com toda a força que imaginei ser capaz. Mas eu não chorei. Com a dor, minha ficha finalmente caiu e eu tive certeza de tudo o que estava acontecendo. Assim, a raiva tomou conta de mim e desejei ver o Miguel explodir bem na minha frente.

Comecei a calcular a possibilidade de tomar a arma da mão dele e atirar, ou pelo menos, ajudar o Fumaça a fazer isso.

– Para com isso Miguel! Você pode ter a garota que quiser, deixa a Priscila em paz. – O pedido do Fumaça interrompeu meu planejamento.

– Cala a sua boca, seu moleque desgraçado! – Me contorci imaginando a dor que o Fumaça acabara de sentir com o chute.

O Miguel tinha perdido a calma. Estava revelando o real monstro que era e isso me deixou mais apavorada ainda. Eu preferia a versão perturbadoramente calma, pelo menos esse comportamento dava alguma esperança de que ele estava sob controle e conseguiríamos escapar. Daquele novo jeito, a qualquer momento ele poderia nos matar.

– Para com isso, por favor, eu vou com você… – Supliquei, em vão. Eu sabia que o Miguel, na melhor das hipóteses ia matar nós dois, na pior só o Fumaça.

De repente a calma voltou.

– Sim, você vai, mas antes vou matar seu namoradinho traidor. – Falou com a calma de quem está conversando sobre a vida de uma formiga.

Nesse momento segurou meu braço, com sua mão esquerda, tão forte que pensei ser capaz de tocar meu osso, e com a outra mão apontou a arma para o Fumaça.

– O seu problema é comigo e não com ela… – Murmurou, tentando inutilmente levantar. Seus olhos estavam carregados de escuridão. O Fumaça sentia que ia morrer.

Mas eu não. No fundo tinha criado uma imagem do Fumaça de super herói, ele era o meu protetor e, na minha cabeça, sempre ia ser assim. Ele tinha a manha para nos livrar de todas as situações de riscos, não foi assim que aconteceu desde que nos conhecemos?

E mesmo que ele estivesse imune e fragilizado, eu ainda acreditava que iria nos salvar. E talvez esse tenha sido o meu erro. Hoje, eu sei que foi por esse motivo que o tiro tanto me assustou. Em nenhum momento, após a chegada do Miguel, eu quis acreditar que não sairíamos os dois vivos daquela situação.

– O que você fez? – Gritei. O pânico e o desespero nunca estiveram tão presentes na minha voz e no meu coração. – Fumaça!!!!!

– Cala a boca, senão eu atiro em você também! – A versão descontrolada tinha voltado, mas eu não me importava, tudo o que eu queria era salvar o Fumaça. Não sei de onde tirei forças, mas consegui me soltar e correr até ele.

– Fumaça! Fumaça, fala comigo! – Mexi desesperadamente nele para que me respondesse, mas seus olhos estavam mais fechados do que abertos, parecia está tentando falar, mas não conseguia. 

Ele estava sangrando muito e minha cabeça começou a dar voltas, a sensação de estar apenas assistindo a uma cena voltou, e eu esperava que a qualquer momento alguém dissesse “corta”. Ao invés disso, ouvi o barulho de sirenes.

– Vamos, garota! – O Miguel segurou forte nos meus braços e me levantou a força – Você vai comigo agora!

– Por favor, me deixa ajudar ele. – Supliquei.

– Presta atenção – me jogou no sofá e colocou a arma no meu rosto, mas diante do que estava ali do meu lado não senti medo – se você não fizer tudo o que eu mandar será a próxima a ficar assim, entendeu?

– Por favor…

– Priscila, você está ai? – Alguém bateu na porta e uma esperança surgiu em meu coração.

– Não responda. – Ordenou, com o revólver ainda em meu rosto.

Quem quer que fosse não importava, eu só queria que entrasse antes que o Fumaça não tivesse mais nenhuma chance, ele gemia e perdia muito sangue.

– Tem alguma saída pelos fundos?

Fiz que não com a cabeça e como que respondendo as minhas preces, a porta se abriu.

– Mãos para o alto! – Ordenou o mesmo policial que encontrei minutos antes. Como ele chegou ali eu não faço ideia, mas não pude deixar de notar que ele tinha o dom de aparecer nos momentos mais certos.

– Se derem um passo eu atiro. – Só então percebi o outro policial, mais velho, atrás dele.

Mesmo sem os policiais se moverem um centímetro, o Miguel puxou o gatilho e apontou na minha direção. Fechei os olhos, pois pensei ser melhor não vê quando a bala viesse em direção ao meu rosto.

Só que mais uma fez, fui pega de surpresa naquele dia. Antes que eu pudesse gritar, vi o corpo caído na minha frente. Abrir a boca de susto, porém não consegui emitir nenhum som. Ele havia atirado, mas na própria cabeça.

É claro, na hora fiquei estatelada. Mas hoje entendo que ele fez isso porque sabia que mesmo se me matasse iria ser pego de uma maneira ou de outra.

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