Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 26

“Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo.” (Lucas 15:5)

– Vem comigo, Priscila. – Estas são as últimas palavras de que me lembro. Ainda hoje, sonho como se fosse o Fumaça me chamando para fugir com ele, mas ai eu acordo e lembro que era uma pessoa qualquer que queria me tirar de perto dele.

Não desmaie nem nada, mas tudo se passou como um borrão. Em um segundo eu estava na sala com o corpo do fumaça inerte ao meu lado e depois em um lugar que tinha muito barulho.

Fiquei mais ou menos uma hora – ou cinco – no lugar que hoje sei ser a delegacia. Algumas pessoas iam perguntar se eu estava bem, mas eu apenas balançava a cabeça, doía falar. Abrir a boca era como ter que abrir as portas para a realidade, e isso eu não queria.

Do nada um ódio tomou conta de mim, não o mesmo que sentia quando eu e o Fumaça discutíamos, aquele sentimento era novo, perturbador, parecia que ia me consumir. Por que diabos ele tinha que morrer? A sensação de injustiça tomou conta do meu peito, logo minha atenção se voltou para Deus.

Fiquei me perguntando o porquê Dele sempre fazer aquilo comigo, sempre dá um jeito de acabar com minha alegria, sempre dava um jeito de me destruir. Estaria eu condenada ao Seu castigo para sempre?

– Você quer água?

– Oi? – Falei, meio atordoada.

– Quer um copo com água? – Insistiu.

– Não, obrigada.

– Descobri quem você era assim que cheguei na delegacia e vi sua foto passando no jornal. – Ótimo momento para ter aquela conversa.

– Que bom.

– Sinto muito por seu namorado. – Ele parecia está sendo sincero, mas eu realmente não me importava. – Sei que agora parece que não, mas um dia a dor vai passar e você vai entender que Deus sabe o porquê de todas as coisas.

Era o que eu precisava para explodir.

– Ah que ótimo! Então Ele sabe o quanto O odeio!

– Priscila, fica calma… – Sua cara era de completo espanto com minha reação.

– Ficar calma? Deus sempre está dando um jeito de mostrar o quanto devo sofrer e de que Ele sempre está no controle.

– O Ricardo, como sempre, falando o que não deve. – Alguém passou por nós e falou dando risada.

– Desculpa, é melhor eu ir fazer umas coisas lá dentro.

– Também acho. – Respondi mais controlada, porém ainda com raiva.

Quando estava pronta para mais uma rodada de lágrimas e soluços ouvi a voz dele. 

– Olha ela ali. – No mesmo instante senti uma sensação de segurança, de tranquilidade, como se nada nunca tivesse mudado, era como se eu nunca tivesse saído de casa.

– Pai! – Corri até ele e me joguei em seus braços.

– Minha filha… – Ele me abraçou forte, me levantou e girou como se eu ainda fosse sua bebezinha.

Chorei em seu ombro. Estava tudo misturado: saudade, arrependimento, tristeza, raiva, medo, insegurança e culpa. Culpa por ter sido uma decepção para ele.

Não queria sair dos seus braços nunca mais, mas vi minha mãe ao seu lado se derramando em lágrimas e também estava morrendo de saudades dela. Fui até seus braços, que também me encontraram com a mesma intensidade paternal, o que fez me senti pior por ter fugindo.

– Mãe… – Disse entre soluços. – Senti …senti…tanto sua… falta.

– Meu amor… – Ela também chorava. Logo meu pai se juntou a nós e por um momento tive a sensação de nunca ter saído de casa. 

 

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