Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Fumaça

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? {…} e, quanto à impiedade do ímpio, não cairá por ela, no dia em que se converter da sua impiedade…” (Ezequiel 33:11,12)

Quando senti a bala penetrando meu pulmão tive certeza que era o fim. Não que eu estivesse sendo derrotista ou algo do tipo, mas todo ser humano sente quando chegou a sua hora.

Meu primeiro pensamento foi de está recebendo o que eu merecia. E o segundo foi de que ficaria livre das minhas culpas. Porém minha alma ou espírito, sabe-se lá como chama, pareceu inquieta com aquela possibilidade.

Lembrei que precisava tirar a Priscila das mãos daquele covarde, eu ainda tinha que ajudá-la, não podia morrer.

– O que você fez?  – Ouvi ela gritar, mas parecia distante.

Tentei dizer que tudo daria certo, mas as palavras não saíram, eu estava perdendo o controle sobre mim. Por um momento, apaguei, o que foi até bom, já que a dor era excruciante, e quando acordei a Priscila estava do meu lado pedindo desesperadamente para que eu aguentasse firme.

– Priscila… – Consegui dizer com muita dificuldade. Eu precisava pedi perdão a ela, meu tempo estava acabando, eu sentia isso. Eu dependia do seu perdão para então acalmar minha alma, pelo menos foi isso que eu pensei.

– Não fala nada. – Ordenou. 

– Tá doendo… – Quis dizer que não era apenas onde recebi o tiro que doía, mas tudo em mim. Meu coração parecia pesado e abrir os olhos era algo extremamente difícil.

Em algum momento comecei a ter alucinações (hoje sei que era tudo real). Ouvi gargalhadas estrondosas, primeiro o som estava distante, mas depois foi ficando mais próximo.

Me repreendi, pois não podia ficar louco segundos antes de morrer, mas grande foi o meu susto quando senti algo tocar minhas costas. Mesmo tonto e com cada centímetro do meu corpo desejando que aquilo acabasse eu tive certeza que o toque tinha sido real.

– Eu sei, mas vai passar, você só precisa ser forte.

– Me… Me perd…oa? – Falei, antes que fosse tarde, mas ao contrário do que pensei aquilo não trouxe tranquilidade. Senti uma sombra do meu lado e não era de ninguém que estava na sala. Uma capa de uma cor escura que eu jamais tinha visto na vida passava por minha cabeça. Um medo súbito percorreu meu corpo e minha primeira reação foi pensar: “Meu Deus, o que está acontecendo?”

Tive vontade de correr, eu tinha certeza que ainda era dia, mas ao meu redor uma escuridão começou a aparecer.

– Fumaça, por favor, nem pense em me deixar.

– Você pod…pode me perd… perdoar?  – Tentei mais uma vez.

– Sim. – Eu estava sendo sincero e por isso esperei ansiosamente que aquelas risadas apavorantes sumissem e que nada mais me tocasse.  

Enquanto a Priscila me abraçava, me forcei a olhar para o lado e mais uma vez a sombra estava ali, só que não estava mais sozinha. E o medo aumentou.  

Abri a boca para gritar e pedi socorro, mas nenhum som saiu.

– Você foi a mel… melhor coisa… – Eu disse com muita dificuldade e era verdade, ela havia feito minha vida miserável valer a pena, e não posso negar que tive esperança de que com aquelas palavras sinceras todos aqueles sussurros em meu ouvido acabassem.

Foi horrível. As frases “Chegou a hora” e “Vinhemos te buscar” nunca foram tão aterrorizantes para mim. Eu não fazia ideia de quem estava dizendo aquilo, mas com certeza não queria ir a lugar algum.

Não consegui ouvir mais nada, além disso. Eu queria retribuir o abraço da Priscila, mas não conseguia, algo prendia minhas mãos.

– Estou com… medo. – Consegui dizer, quando vi a Marli aparecer do meu lado.

– Não precisa ficar, lembra do que ti falei? – Eu não lembrava, mas suas palavras foram suficientes para refrescar minha memória e me levar, por alguns segundos, para a tarde em que a conheci pela primeira vez. Há um ano e meio.

Eu nunca tinha ido a vila, e estava começando o meu trabalho com o Miguel. Fui encarregado de levar uma garota, da mesma idade da Priscila, para passar alguns dias naquela mesma casa. Depois alguém apareceria para pegá-la e levá-la embora.

Naquele tempo eu ainda não fazia ideia do que acontecia com as meninas. Só fui instruído a não perguntar o nome delas, assim seria mais fácil não se envolver ou se importar em saber os sonhos e planos de cada uma.

Mas caí na besteira de perguntar. O nome dela era Alice. Era uma menina doce e amável que queria ser modelo desde os seis anos de idade. Assim como eu, ela achou que estava sendo mandada à trabalho para uma filial da Dreams lá na Turquia.

Marli foi quem nos apresentou a vila e nos deu uma deliciosa torta de boas vindas. A tarde em questão foi quando eu tinha acabado de descobrir pelo Toddy que tinha entregado a Alice nas mãos de um cafetão e estava arrasado.

Na hora que a Marli apareceu para perguntar se o jovem “casal” estava gostando da moradia, me pegou com um saquinho de cocaína nas mãos.

– Isso não vai fazer seus problemas sumirem.

– Mas vai me fazer esquecer.

– Só por alguns segundos, mas conheço algo que pode te fazer esquecer para todo sempre.

Com aquelas palavras, ela conseguiu toda a minha atenção. Eu entrei naquela vida para sobreviver. Não queria destruir sonhos ou matar ninguém, muito menos destruir garotas, eu pensei que apenas venderia drogas e seria motorista das modelos.

Já me sentia a pessoa mais desprezível do mundo por ter matado meus pais, não estava disposto a aumentar minha parcela de culpa, eu só queria me arrastar pela vida e esperar até que a dor da perda e os traumas da infância cicatrizassem. Mas a Marli, ousadamente, estava me prometendo uma solução permanente.

E foi quando, pela primeira vez, ouvi falar de Jesus.

– Ele pode apagar todo o seu passado. Ele quer restaurar seus sonhos e sua vida, você só precisa deixar.

Logo me desanimei. O que ela me prometia era uma utopia.

– Pra mim não tem jeito. Você não me conhece e não tem ideia de quem eu sou ou do que já fiz.

– Mas Ele conhece e não se importa com o que você fez.

– Claro que se importa! – Rebati. – Deus é bom e santo, Ele não fica com alguém tão pecador como eu. – Minha mãe era uma pessoa religiosa, então eu tinha ideia de como Deus trabalhava ou quem Ele era.

 – Jesus sempre está pronto para nos perdoar, não importa o que tenhamos feito, basta que sejamos sinceros. – Ela não se deixou abalar com minha revolta e a firmeza em suas palavras chamou minha atenção, e desde então, não tinha um dia sequer que eu não pensasse naquilo. Só não sabia como alcançar esse perdão.

Será que eu conseguiria segundos antes de morrer o que procurei por quase dois anos?

As vozes ficaram mais intensas e não senti apenas minhas mãos pressas, mas minhas pernas também.

– Você consegue. – Marli pareceu adivinhar meu conflito e mais uma vez, suas palavras foram carregadas de convicção.

Lembrei também que ela disse existir vida após a morte e que para encontrarmos a paz para nossa alma era necessário que entregássemos nossa vida para Jesus e crêssemos que somente Ele é Salvador.

E foi o que eu fiz, mesmo com medo, com aquelas risadas se transformando em gritos desesperados e angustiantes, eu ousei falar com Ele. Ali, à beira da morte, quando acreditei não ter mais esperança para mim, tive a audácia de dizer com meu coração: “Senhor, me perdoa, por favor. Vivi a vida inteira fazendo coisas erradas e sei que não mereço, mas se o Senhor pode perdoar um pecador como eu, suplico que faça.”

Falar com o coração era bem mais fácil do que com a boca e a cada palavra que saia as vozes ia se afastando, porém os gritos aumentando.

Eu sempre acreditei em Deus, mas nunca achei que fosse merecedor Dele, por conta da vida errada que levava. Mas com aquelas palavras eu nunca me senti tão perto Dele. Em questão de segundos minha alma parou de agonia e eu não senti paz de imediato, apenas a certeza de que Ele, por algum motivo, me concedera a graça do perdão.

E então meu coração parou… 

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