Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 27

“E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.” (Lucas 15:20)

– É aqui?

–Sim… – Respondi com a voz falhando.

O carro parou, olhei ao redor e reconheci a vila. Fazia tão pouco tempo que tinha saído dali, 24 horas talvez, mais parecia que tinha anos. O delegado Maciel – que também me salvou no dia anterior – disse que precisava fazer uma visita na casa onde morávamos. Nada sério, segundo ele, apenas para ver se descobriam algum familiar nas coisas do Fumaça, como já era esperado, o primeiro nome dele não resolveu muita coisa. 

Descemos do carro e andei em passos lentos, queria adiar o máximo possível entrar naquela casa vazia. Meus pais avaliavam tudo, olhavam curiosos para cada canto. As pessoas estavam fora de suas residências conversando, — aposto que eu e o Fumaça éramos o assunto do dia — as crianças brincavam e tudo parecia perfeitamente normal.

– Priscila! 

A Marli parou de limpar sua área de entrada e veio correndo ao meu encontro.

– Minha filha, como você está? – Ela me abraçou e foi preciso toda minha força de vontade para não chorar.

– Indo… – Senti todos os olhares em nossa direção.

– Vai ficar tudo bem, e se servir de consolo tenho certeza que tudo terminou bem para ele.

– Como assim? – Perguntei, incapaz de acreditar no que tinha ouvido.

– Tenho certeza que ele se arrependeu e entregou sua vida a Jesus na última hora. – E então eu entendi o que ele quis dizer quando mencionou que não ia conseguir – Ele está bem, Priscila, mesmo que você não acredite, o Fumaça encontrou a paz.

– Como a senhora pode ter tanta certeza que ele está em paz?

– Vi sua expressão depois de morrer, não estava carregada de medo como minutos antes.

– A senhora acha? – Quis saber, já lutando contra as lágrimas que caiam. Não que eu acreditasse naquelas baboseiras, mas ter a esperança, mesmo que mínima, de que ele estava bem trazia certo conforto. 

Ela não respondeu, apenas me abraçou.

– Filha… – Chamou meu pai.

– Precisamos entrar. – Completou o delegado.

– Obrigada por tudo o que a senhora fez por nós.

– Vê se não some, menina. – Ela disse, enxugando as próprias lágrimas.

– Muito obrigada por ter cuidado dela. – Acrescentou minha mãe.

Marli respondeu que não foi nada e então seguimos.

Não consegui segurar as lágrimas, meu coração nunca esteve tão apertado, tudo ali me lembrava o Fumaça. Sentei no sofá enquanto o delegado e o Ricardo revistavam tudo e aquilo me incomodou, era como uma invasão em um lugar só meu e dele.

Meus pais sentaram ao meu lado e pareciam analisar cada detalhe. Minha mãe viu minhas lágrimas e veio me abraçar, recusei e levantei.

– O que foi, filha?

– Nada.

Fui em direção ao quarto, não ao meu, ao dele, onde tínhamos passado nossa última noite.  Peguei uma blusa sua que ainda estava na cama e decidi guardar comigo, era como tê-lo sempre perto de mim.  

– Priscila? – Tomei um susto com a voz. – Tá tudo bem?

Virei para trás e lá estava minha mãe.

– Tá sim.

Ela lançou um olhar interrogativo pro meu ombro, onde a blusa estava, mas não disse nada.

– De quem era este quarto? – Quis saber, olhando para todos os cantos.

– Era dele. – Respondi, indo em direção às gavetas.

– Filha, o que você está procurando?

– Nada, só vendo se tem alguma coisa minha por aqui. – Percebi que sua expressão mudou, não consegui identificar se para estranhamento ou surpresa.  

Não achei nada nas gavetas, além de mais algumas peças de roupas e seu perfume. Sabia que não poderia levar tudo comigo, então peguei mais uma camisa e o perfume, pelo menos poderia sentir o cheiro dele sempre que a saudade apertasse.

– O que é isso? – Quis saber se aproximando.  

– Algumas coisas que quero guardar. – A resposta saiu seca como planejei.

– Minha filha, vem cá. – Ela disse me puxando pelo braço e me fazendo sentar na cama, ao seu lado. Aquilo me incomodou, apesar de ser minha mãe, ela não sabia nada do que tínhamos passado juntos e grande parte do meu coração desejava que fosse ele ali na minha frente.

Não me entenda mal, eu queria está com meus pais de novo, mas naquele momento senti que a presença deles seria uma tentativa de apagar o Fumaça da minha vida.

– Me fala – minha mãe avaliava cada palavra – exatamente o que aconteceu entre você e esse menino. – Aquilo me tirou do sério. Ela estava tentando invadir meus sentimentos, meus segredos, nossos segredos. Tive vontade jogar na sua cara que eu já sabia da adoção, mas consegui me segurar. 

– Esse menino? Ele não era qualquer um mãe! – Tentei não alterar o tom de voz, não queria que nos escutassem.

– Desculpa, filha, não sabia que ele era tão importante. – Disse na tentativa de consertar as palavras, mas minha raiva só aumentava.

– Ele salvou minha vida diversas vezes e inclusive me ajudou a encontrar a verdade sobre vocês! – Aquilo tinha sido meu limite.  

– Do que você está falando? – Ela tentou disfarçar, mas notei o quanto ficou surpresa.

– Eu já sei que vocês me enganaram a vida toda. – Respondi olhando no fundo dos olhos dela.

Minha mãe parecia confusa, sem saber ao certo do que eu falava, mas arriscou algumas palavras:

– Você é nossa filha, nossa menina.

– Não, eu não sou! – Gritei e vi o quanto ficou assustada.

Virei as costas e fui em direção à porta pronta para gritar com meu pai também, mas quando cheguei na sala olhei para o sofá onde o Fumaça abriu sua alma. Lembrei do quanto ele pareceu indefeso e assustado, meu coração pareceu se partir ao meio ao recordar a cena e naquele momento fiz uma prece silenciosa para que de fato ele tivesse encontrado a paz.

– Eu te entendo. – Com certeza ele tinha ouvido a conversa com minha mãe.

– Nem começa pai, estou cheia de tantas mentiras.

– Senta aqui e me escuta. – Ordenou e confesso que fiquei tentada a dizer que eu não era obrigada, mas ao invés disso, apenas obedeci. – Você está certa, nós te enganamos a vida toda, mas não porque queríamos que você vivesse uma mentira, e sim porque no nosso coração você realmente é nossa filha. Não importa se tem nosso sangue ou não. Você é minha menina, e reconheço que fui um covarde em não te contar a verdade antes, mas só não fiz isso por que tive medo de ti perder.

A raiva ainda continuava ali, mas ele pareceu tão sincero que não ousei questionar. Será que valia mesmo a pena brigar por isso? Eu já tinha perdido o Fumaça, não precisava perder meus pais também.

Sim, eles tinham escondido a verdade, mas afinal de contas, sempre me trataram como filha. Isso deve ser levado em conta. E ainda tinha a coisa toda de reclamar ou agradecer que o Fumaça tinha falado. Minha tia Margarida e o Wilson não quiseram me criar, me rejeitaram e eu fui acolhida por duas pessoas maravilhosas que sempre fizeram tudo por mim. Seria muita ingratidão eu fazer um show por causa de um erro. Quantos eu já não tinha cometido e eles ainda me aceitaram de braços abertos. E verdade seja dita, eu já sabia da adoção há alguns dias, tinha tido tempo para me acostumar com a ideia.

– Vocês sabem quem são meus pais? – A dúvida surgiu de repente.

– Sim. – Meu pai respondeu cabisbaixo.

Durante 15 anos todos souberam que minha tia teve um caso com um homem casado que resultou em mim. E a julgar pela expressão envergonhada da minha mãe, a Marta não fazia parte do “todo mundo”, muito menos a Clara.

Eu não disse nada, de repente tudo ficou pequeno, o lugar pareceu me sufocar, e não ter o Fumaça ali, na nossa casa, piorou tudo.

– Você mudou.

– Não entendi.  

– Você saiu de casa o meu bebê, – ele pareceu que ia chorar – mas está voltando uma garota que enfrentou o mundo. Talvez não o mundo todo, mas coisas suficientes para mexer com você. Como você descobriu?

– Não importa, pai.

– Foi por isso que você fugiu, não foi?

– Não, claro que não! – Respondi rapidamente.

– Então, por quê? Fizemos alguma coisa que…

– Me amaram? Me deram carinho? Me respeitaram e educaram mesmo eu não sendo filha de vocês? Eu fugi pra ficar com ele. – Achei melhor sustentar a mentira que o Fumaça tinha criado ao deixar o bilhete, daria muito trabalho explicar que vi alguém quase ser assassinado, que o Miguel não queria apenas matar o Fumaça quando nos achou, mas sim, me sequestrar. Pois é, como você pode perceber, eu não contei que estava nos planos do Miguel me fazer virar garota de programa. Se meus pais soubesse disso iam querer envolver a polícia e então a pessoa que quis me prejudicar ia se proteger e conseguir escapar. Achei melhor não falar nada, pelo menos enquanto não descobrisse quem me odiava tanto.

Meu pai não disse mais nada, apenas me abraçou e eu me deixei ser reconfortada por aquelas braços, pelo menos ali eu não me sentia rejeitada, eu sabia que ali sempre encontraria proteção e amor, não importava quantas vezes eu fugisse de casa.                              

– Oh pai… oh…me…me perdoa… – Quando dei por mim já estava chorando.  

– Somos nós que temos que te pedir perdão. – Ele disse, tentando novamente conter as lágrimas.

Eu só sabia soluçar. Em um momento virei o rosto, ainda no ombro do meu pai, e vi minha mãe sentada na mesa, ela chorava e um sentimento de gratidão tomou conta de mim. Eles me aceitaram sem nenhum tipo de questionamento ou julgamento. Enxergaram apenas a bebezinha indefesa e abandonada que eu era. Eu devia minha vida a eles. E mesmo não querendo, me senti na obrigação de agradecer a Ele por ter feito ao menos uma coisa boa por mim, me colocando na vida daqueles dois. 

Os policiais apareceram atrás da minha mãe e imaginei que tinham terminado o trabalho, mas não quiseram atrapalhar o momento pai e filha.

– Pai, – chamei tentando me acalmar – vamos embora por favor.

De repente senti uma necessidade de sair dali, não fazia mais sentido ficar. Eu tinha recebido uma chance de recomeçar e precisava fazer isso. Por mim, por meus pais e até pelo Fumaça, afinal de contas, ele lutou para que eu ficasse viva. Eu era a redenção dele e ele a minha sobrevivência.

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