Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 28

“Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo.” (Efésios 4:31-32)

Assim que coloquei o primeiro pé dentro de casa tudo pareceu diferente, confesso que por alguns minutos tive vontade de sair correndo e voltar para Goiânia. A dor na alma era cortante, a cada passo que eu dava era como se estivesse traindo o Fumaça, deixando-o pra trás. Precisei repetir milhares de vezes em voz baixa que ele estava dentro de mim, bem guardado em minha mente e no meu coração, independente do lugar no mundo que eu estivesse.

Passei a me questionar constantemente sobre como fui capaz de me apaixonar daquela maneira por alguém em tão pouco tempo. Talvez por tudo que o passamos, pelas coisas que ele me fazia sentir ou até mesmo por todo companheirismo, apesar das nossas brigas. 

No mesmo dia que cheguei, uma multidão veio me ver. Meus amigos da escola, professores e até algumas pessoas da igreja, todos correram para me abraçar, era um puxa pra cá puxa pra lá, todo mundo queria saber se eu estava bem e o porquê de eu ter feito tamanha loucura. Fiquei feliz em ver que eu era tão querida, por outro lado, quis bater nos indiscretos que perguntavam se eu tinha perdido o juízo.

Porém, a pessoa mais importante que vi naquele dia foi a Clara. Reencontrar minha amiga me deu uma sensação de alívio e medo. Agora eu sabia que éramos irmãs, e não fazia ideia de como devia agir com ela. Um segredo daqueles não é algo que dá para fingir por muito tempo, ainda mais para sua melhor amiga.

Ela me deu um abraço com força e percebi que mesmo estando feliz pela minha volta estava também muito abalada. Afinal de contas, eu fugi sem dá nenhuma satisfação. Provavelmente na cabeça da Clara eu a tinha traído.

– Por que você fez isso, Priscila? Você correu riscos, ele poderia ter…

– Para, Clara! O Fumaça não era como o Toddy. – Falei em um altura que ninguém mais pudesse ouvir.

– Não? Mas ele estava lá naquela noite e não fez nada para defender o garoto.

– Mas depois ele veio me ajudar.

– Isso que é estranho, – a expressão dela deixava nítido que ela não ia engolir qualquer história – eu também tava lá, então porque ele só veio salvar você?

Eu não tinha resposta. Fingi que precisava abraçar alguém e sai. Ainda não estava preparada para contar pra Clara sobre o Miguel, porque isso significava contar a verdade sobre nossos laços sanguíneos.

Nem minha tia nem o Wilson foram me ver. A Margarida provavelmente já sabia por minha mãe que eu descobrira tudo e, com certeza, estava me evitando. Ela era ótima como tia e péssima como mãe.

Lembrei de uma vez que eu queria muito ir ao cinema com o pessoal da escola, mas minha mãe não deixava de jeito nenhum. Dizia que eu era muito nova – eu tinha 12 anos, tudo o que queremos nessa idade é liberdade para sair com nossos amigos sozinhos. Isso significa que nossos pais confiam na gente e que finalmente não somos mais crianças. A Margarida vendo meu sofrimento se comprometeu a ir comigo, óbvio que eu não iria. Seria o mico do ano, mas entendi os planos de minha tia quando ela piscou pra mim nas costas de minha mãe.

– Eu confio em você, Priscila. Não faz nenhuma besteira que eu tenha que contar para sua mãe. Me liga assim que o filme acabar.

– Pode deixar, tia! – Beijei seu rosto e pulei do carro feliz e saltitante, como uma criança.

Ela sempre foi a tia legal. Descobrir que eu era sua filha deveria ser uma alegria pra mim, mas não foi. A dor da rejeição sufoca qualquer sentimento de agradecimento.

A rejeição é algo cruel e injusto. Você não sabe por qual motivo não foi aceita e amada, e só consegue pensar que o problema é você.

Claro, eu sabia que era apenas uma bebê e não tinha culpa de nada,  não tinha pedido nem para nascer. Isso devia aliviar mais, mas não era assim. Eu ficava me perguntando o porquê de não terem evitado meu nascimento, porquê me odiaram tanto ao ponto de confiarem minha criação a outras pessoas.

Não se engane, eu não me iludo. Sei que sou fruto de um caso proibido, “fruto do pecado”, “do erro”, como diria meus pais, mas ao menos, minha tia, como mãe deveria ter lutado por mim.

Agradecer e vê o lado positivo das coisas não era assim tão fácil, na prática.

 

Alguns dias depois tudo estava voltando ao normal, pelo menos aparentemente ou para as pessoas ao meu redor. Meus pais já estavam trabalhando novamente, minha mãe pegando no meu pé por qualquer besteira e meu pai querendo que eu voltasse à escola.

Minha mãe agia como se nada tivesse acontecido, já meu pai achava um jeito de comentar alguma coisa entre uma refeição e outra.

– Priscila, você precisa entender que nada mudou entre nós. Você é nossa filha.

Diante do meu silêncio, continuava.

– Esperamos que você tenha aprendido a lição. Fugir atrás de liberdade só trás desilusão. Não é isso que Deus quer para nós.

Ele sabia que eu não queria ouvir, mas mesmo assim falava, e um dia resolvi explodir.

– E o que Ele quer pra mim, pai? Dor? Sofrimento?

– Claro que não, minha filha!

– Mas é só isso que Ele tem feito por mim!

– Deus não faz nada por nós que não sejam consequências de nossas escolhas. – Advertiu.

– Então, a culpa é minha de ter sido abandonada assim que nasci? Como você queria que eu agisse? Chorasse? – Zombei.

– Você não foi abandonada, Priscila, foi abençoada! – Se meteu minha mãe.

Eu sabia que sim. Não podia reclamar deles. Foram os melhores pais que eu pude ter, então mesmo com raiva por quererem se meter na minha vida e questionarem minhas opiniões – como todos bons pais fazem –, levantei da mesa e fui pro meu quarto.

Se falasse mais iria magoar mais.

Continua…

Iai, o que vocês estão achando do rumo que a vida de Priscila tá tomando?

 

 

 

 

 

 

 

 

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