Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 29

“Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel.” (Mateus 27:34)

Tanto meu pai quanto minha mãe passaram a me dá gelo. Nitidamente estavam magoados com minha reação e eu me sentia culpada por isso, mas não podia evitar o que sentia. E tudo o que eu sentia era raiva.

Então percebi que enquanto não explodisse com as pessoas certas eu não conseguiria tocar minha vida adiante.

– Pode entrar, Priscila. – A julgar por seu rosto pálido e sua expressão tão assustada, imaginei que meu nome era o último que ele esperava ouvir do porteiro.

– A Clara está? – Eu já sabia a resposta. Tinha mandando uma mensagem pra ela antes de sair de casa.

– Não. – Fiquei esperando ele acrescentar que ela estava no inglês, mas isso não aconteceu.

Ele me guiou pra sentar no sofá. Era estranho está naquela casa daquela maneira tão formal. Eu e a Clara nos conhecíamos desde pequenas, então sempre tive total liberdade ali. Não era necessário que alguém me mandasse sentar.

– Como você está? Ficamos todos preocupados.

– Eu imagino. – Respondi no tom mais seco que consegui.

– Fizeram alguma coisa com você? Te machucaram?

– Depende.

– Como assim? O que aconteceu, Priscila? – Uma dose de pânico em sua voz era evidente, será que ele achava que eu ia mesmo acreditar naquela cena?  

– Você aconteceu! – Soltei, sem pensar duas vezes e tentando ao máximo controlar meu tom de voz. – Minha tia aconteceu!

– Não estou entendendo do que você está falando… – Mesmo com seu cinismo eu notei a expressão de desespero que se formava.

– Que tal isso: um homem que está desesperado para esconder a gravidez da amante abandona a filha. – A cada palavra que saia era como se eu o espetasse e isso me fazia bem. Ao menos eu sentia que estava por cima.

– Eu pos..s posso exp… explicar Priscila. – Gaguejou.

– Não quero explicações, só preciso saber o por quê. Por que você me abandonou? E minha tia, por que permitiu isso? – A mágoa era evidente em minha voz e as lágrimas ameaçaram cair, mas por um milagre, ou por orgulho, me mantive firme. – Eu era só um bebê.

Ele não me encarava, seu olhar estava focado em alguma coisa a sua frente e aquilo me deixou enfurecida.

– Você não tem a dignidade de olhar pra mim.

– Eu não posso.

– Não pode ou não quer? – Acusei e consegui a atenção total dele.

– Não posso olhar por mais de 5 segundos em seus olhos porque vejo os meus, não sou capaz de ver a dor em seu rosto porque enxergo a culpa no meu e enquanto você fala, eu volto àquela maldita noite, o que me faz lembrar o quanto sou desprezível.

Aquilo doeu e uma lágrima desceu.

– Maldita não por você, – disse, adivinhando meus pensamentos – mas porque eu cometi o maior erro da minha vida. Fui covarde para assumir você e nunca me perdoei por isso. – Sua voz era carregada de dor e seus olhos passavam por todos os lugares, mas não paravam nos meus. – Sua tia foi um momento de fraqueza e eu me desesperei. Mas não tinha o direito de ter feito o que fiz.

Eu não conseguia falar nada, então ele continuou.

– Quando a Margarida falou que estava grávida eu fiquei desesperado. Me perguntei como em uma única vez isso podia ter acontecido. O medo superou minha razão e fiz o que eu tinha que fazer para que a Marta não descobrisse. Você faz ideia de como isso a machucaria? Ela vive para passar uma boa imagem, uma traição a mataria, além de destruir minha própria reputação, família e negócios.

Suas palavras estavam sendo como vinagre na ferida. Todos os meus pensamentos sendo expostos em palavras. Ele realmente sentiu vergonha de mim. Meu nascimento significava sua destruição.

– Eu sei que você não tinha e não tem culpa de nada, – nesse momento ele me olhou e eu sustentei o olhar, mesmo que isso me acabasse mais ainda e aumentasse a vontade de chorar bem ali na sua frente – mas eu fui egoísta, só pensei em mim e mesmo sua tia me suplicando para não tirar você dela, eu fiz.   

– Como?

– Apesar de ter ficado preocupada tanto quanto eu, afinal ela tinha dormido com um homem casado, a Margarida queria assumir você, dizer que não sabia quem era seu pai. Ela estava disposta a enfrentar qualquer coisa por você.

– E você não deixou… – Conclui com um ódio beirando a dor.

– Não. Obriguei ela a viajar durante toda a gestação e ter você em um lugar bem longe daqui. – Dizer aquilo parecia está sendo difícil, mas ao mesmo tempo era como se ele tirasse um peso das costas.

Aquelas revelações estavam me pegando desprevenida, eu não tinha me preparado para aquilo, somente para acusar. Saber que minha tia me quis, mesmo que por um momento, aliviou um pouco a dor, mas ao mesmo tempo aumento o ódio.

Um silêncio tomou conta da sala. Queria gritar, mas não consegui, queria chorar, mas não cedi.  

– Priscila, – ele parecia está escolhendo cada palavra – te salvar foi a maneira que encontrei de me redimir.

‘Maneira errada’, pensei, mas engoli a ofensa.

– Como você descobriu?

– Achei a certidão no bar do Ronald.

– Aquele maldito. Nunca decidiu de qual lado ficar. – Eu sabia que ele estava se referindo ao fato do Ronald trabalhar tanto pra ele quanto para o Miguel.

Me perguntei se isso era mais importante do que ter a filha renegada bem na sua frente, mas não ia suplicar atenção.

– Por que o Miguel me queria? Não faz sentido.

– Ele sempre quis me destruir, acredito que tenha visto em você a oportunidade.

– Então vocês se conheciam de muito tempo?

Ele parou por alguns segundos antes de responder, como se tivesse lembrando de alguma coisa importante, e então disse:

– Fomos amigos de faculdade, mas uma vez estávamos em uma festa e peguei ele ficando com a garota que eu gostava. Brigamos e desde então, nunca mais nos falamos. – Seu tom era de quem estava colocando pra fora uma mágoa de muitos anos. – O Miguel nunca soube perder, então ficar sem minha amizade era o mesmo que matá-lo. Não pelo fato de ser eu, mas por não ter o controle sobre algo.

Abri a boca para falar alguma coisa, mas o que mais poderia ser dito? Era óbvio que estávamos falando do passado para evitar o presente, e isso era tão horrendo e pesado quando o silêncio que existia entre nós.

Resolvi facilitar as coisas.

– Eu já vou.

Fiquei esperando a tentativa de impedimento, mas não aconteceu. Sentado ele estava e assim continuou. Não sei bem o que eu esperava daquela conversa, quer dizer, desconfio que parte de mim queria ouvir ele suplicando por perdão e me prometendo que iria contar tudo à sua família. Porém um homem como ele, não podia colocar tudo a perder por causa de uma noite que não passou de sexo e falta de prevenção.

Fui embora com mais ódio do que quando entrei.

Continua na próxima terça-feira 😉

Fiquei sem fôlego depois dessa capítulo cheio de culpa e raiva, e vocês?

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