Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 30

“Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe.” (Lucas 17:3-4)

– Filha, onde você está? Te liguei a manhã toda e você não atendeu. O que aconteceu? – A voz de preocupada da minha mãe indicava que alguma coisa estava errada. Há dias ela não falava comigo, e do nada me ligada toda prestativa.

– Tá tudo bem, mãe. Só vim dá uma volta com a Clara. Daqui a pouco volto pra casa.

– Você devia ter avisado. – Repreendeu. 

Meu dedo coçou em cima do botão de desligar. O que eu menos precisava naquele momento era minha mãe pegando no meu pé. Apesar de não tocar no assunto da fuga, ela “disfarçadamente” procurava saber todos os meus passos. Acho que tinha medo de que a qualquer momento eu fosse surtar e fugir novamente.

– Desculpa, mãe. Te aviso se for demorar. – Não criei uma discussão por causa disso. Precisava guardar minhas emoções para a próxima punhalada daquele dia.

Eu tinha que falar com minha tia. Desejei que o Fumaça estivesse ali, seria bem mais fácil. Ele ia segurar minha mão ou me abraçar e isso iria me dá segurança e tranquilidade, mesmo que por alguns minutos. Era o que eu precisava.

Ri diante de tamanha ironia. Quando nos conhecemos eu queria distância dele e por algumas vezes tive medo. Seu toque já me causou repugnância, mas agora era tudo o que eu queria.

– Chegamos, garota.

Paguei o táxi e a passos largos fui em direção a casa da minha tia em São Paulo. Eu tinha ouvido minha mãe comentar com meu pai que ela não tinha voltado pra casa da minha vó e iria ficar por perto até ter coragem de falar comigo. Pois bem, tomei a atitude primeiro. Não que eu quisesse começar algum tipo de relacionamento mãe e filha, mas  sim pelo fato de que eu precisava enfrentar meus problemas se quisesse seguir em frente.

Na realidade eu não tava tão corajosa assim. Quando cheguei em frente ao portão, o ar começou a me faltar. Hoje, parte de mim acredita que eu queria provar até onde aguentava. Até que ponto eu seria capaz de suportar as rejeições? Eu não tinha perdido o gosto por andar nos limites do perigo.

– Priscila, meu amor, graças Deus! – Grande foi minha surpresa quando minha tia abriu o portão e veio correndo me abraçar, como se nada tivesse acontecido.

– Oi, tia. – Eu sei que deveria ter rejeitado o abraço, mas não consegui. De repente percebi que teria sido muito mais fácil se eu tivesse optado por seguir em frente fingido que ainda éramos uma família feliz. Eu, a sobrinha mimada, e ela a tia legal.

– Entra. – Diferente do Wilson, ela tinha uma capacidade enorme de me encarar como se nada tivesse acontecido. Talvez se escondesse no fato de que a culpa tinha sido toda dele. Pelo menos era o que ela pensava.

– Está tudo bem? — Perguntou assim que entramos.

– Tia, não vamos fingir que eu não sei. Então, por favor, me fala, por que você fez isso comigo? – Eu quase gritei, está cara a cara com ela me fez entender que minha raiva era maior por ela. Se me queria tanto, por que não lutou mais por mim? Se estava disposta a enfrentar o que fosse para ficar comigo, porque não enfrentou o Wilson?

– Como você descobriu? – Ela não fingiu surpresa.

Falei a verdade e, como eu havia imaginado, ela também conhecia o Ronald. A Margarida tinha feito faculdade de Administração junto com o Wilson, foi assim que eles se conheceram e todo o resto.

– Eu nunca gostei do Miguel. Ele sempre me deu arrepios. – Anunciou como se estivesse me contando um segredo. – Você não entende, meu amor, eu queria – ela parecia escolher as palavras – deixa pra lá… – Ao contrário do Wilson, ela preferia falar de mim, da gente.

– Queria o quê, tia? Me criar? Acho que se você quisesse realmente isso tinha dado um jeito! – Explodi.

Ela não respondeu e eu continuei.

– Se você me queria tanto, se estava tão disposta a enfrentar as consequências por ficar comigo, por que não lutou mais? – Minha voz estava carregada de mágoa.

– Eu não podia. – Ela disse chorando. – Se ele não acabasse comigo, o Miguel faria. – Acrescentou.

– O Miguel? Mas o que ele tinha a ver com o caso de vocês?

Sem me encarar, ela respondeu:

– Nós namorávamos.

E então a minha ficha caiu. Não foi o Wilson que pegou o Miguel com a garota que ele gostava, foi o contrário. E talvez, o Miguel quisesse acrescentar minha tia na sua lista de pessoas para se vingar.

– Sejamos sinceras, Priscila, – seu rosto estava cheio de dor – a Sônia fez um trabalho bem melhor do que faria.

Mais um baque.

– É tia, porque ao contrário de você ela não me abandonou.

– Priscila, por favor, não fala assim… – Suplicou. – Eu era jovem e imatura, você tem que me perdoar… – Começou a chorar novamente.

– Essa foi a primeira visita que te fiz como filha e a última. Por favor, não me procure mais.

Sem pensar duas vezes me levantei e fui em direção à porta, hesitei antes de abrir, mas mesmo o choro desesperado dela e as suplicas para que não eu fizesse isso, não foram capazes de me fazer olhar para trás antes sair.

Continua…

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