Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 31

“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência…” (Deuteronômio 30:19)

Assim que cheguei à calçada minhas pernas vacilaram, fiquei um pouco tonta e achei melhor sentar. Enquanto processava os últimos encontros cai no choro.

Como em tão pouco tempo minha vida mudara tanto? Se eu não tivesse saído de casa naquela noite teria descoberto a verdade sobre meus pais? Ou pior, será que o Miguel tinha me levado? Tantas perguntas, questionamentos e nenhuma resposta ao meu alcance. Eu não conseguia entender o porquê de tudo isso ter acontecido. Se eu não tivesse entrado naquele banheiro não tinha visto o Toddy matar o garoto e talvez a noite tivesse terminado bem.

Então, quem sabe eu ainda fosse uma pessoa feliz, nunca tivesse sentido o quanto fui rejeitada ou odiada e melhor, em algum lugar desse mundo o Fumaça ainda estaria vivo tentando mudar de vida, ou não.

Mesmo estando com a cabeça entre as pernas meu choro começou a chamar a atenção das pessoas e uma mão tocou meu ombro.

– Moça, está tudo bem?

Levantei a cabeça para olhar quem ousara me interromper e quando vi, chorei mais ainda.

– Priscila? O que aconteceu? – Ela sentou ao meu lado.

– Tantas coisas, Dani. – Daniele fazia parte do grupo de jovens da igreja dos meus pais. E mesmo eu não indo mais, sempre tive muito respeito por ela. Sabe aquelas pessoas que falam o que você não quer ouvir, mas no fundo é a verdade? Então, ela é assim.

E quando percebeu que eu não estava mais como antes, que não queria mais aquelas coisas para minha vida, ela disse que a vida era minha, as escolhas também, portanto as consequências não seriam de mais ninguém, só minhas. Na hora eu nem liguei e confesso que durante a fuga eu nem me recordava disso, não conseguia tirar da minha cabeça que a culpa era de Deus. Que Ele me escolhera para sofrer.

Mas naquele instante, com ela sentada ao meu lado, eu me recordei. Afinal de contas, será que se eu não tivesse ao menos pedido ajuda ao invés de fugir eu teria chegado aquele ponto?

– Priscila, – sua voz era tão séria e firme que tive certeza que me daria um sermão –  independente do que seja…

– Já sei, eu escolhi assim. – Interrompi de mal humor.

– Eu não ia dizer isso, ia falar que tem jeito.

– Mas foi você mesmo que disse que as consequências eram minhas.

– Sim, mas não significa que é necessário enfrentá-las sozinhas.

– Você só está dizendo isso por que não faz ideia de tudo o que tem acontecido. – Quando falei isso, minha intenção era que ela me mandasse contar, guardar aquilo comigo parecia que ia me destruir por dentro. Por isso, esqueci que estava em guerra com Deus e com a vida, eu só queria colocar pra fora e ouvir que sim, tudo daria certo.

– Então me conte.

E eu contei. Desde a festa até aquela calçada. Abri o jogo e ela ouviu atentamente. Em algumas partes chorei, e mesmo o olhar curioso das pessoas que passavam não me intimidou. Eu estava colocando pra fora, e pela primeira vez, senti que minha alma e meu coração estavam sendo lavados de toda dor. Era como se dividir o peso deixasse tudo mais leve.

– Uau. Você é realmente mais forte do que imaginei.  

– Se eu fosse forte, não estava sentada em uma calçada, aos prantos. – Zombei.

– Você é sim, mas suas forças não são eternas, acredito que esse tenha sido o seu limite.  

– E eu espero que tenha sido o Dele também. – Falei olhando para o céu. 

– Priscila, Deus não fez nada disso com você, na verdade você está deixando passar um detalhe importantíssimo. – Seu tom de voz era de quem ia contar a senha do wi fi e não quisesse dividir com ninguém, além de mim. – Você errou em ter fugido? Sim. Mas Deus foi tão misericordioso que apesar dos seus erros não te deixou continuar sendo enganada, e ainda te livrou da morte.

Eu não tinha respostas para aquilo.

– A verdade, Priscila, pode doer, mas sempre libertará. Descobrir sobre sua adoção não é motivo para que você se sinta rejeitada, mesmo que você tenha sido. – Ressaltou – Isso também mostra que Ele cuidou de você já pequena, pois ti colocou em uma família que ti ama. Pior seria ter ido parar nas ruas, como acontece com muitas crianças abandonas.

Ela tinha razão, a verdade libertava. Enxergar as coisas por aquele ângulo fazia tudo doer menos, e eu notei que, realmente, tinha mais coisas para agradecer do que reclamar.

 – E o Fumaça? Ele morreu…

–Você pode se surpreender com a quantidade de pessoas que se arrependem antes de morrer, e acabam entregando sua vida a Jesus.

Não falei nada, apenas refletia em suas palavras. Tudo parecia fazer tanto sentido colocado daquela maneira.

– Você fugiu, Priscila, mas mesmo assim seus pais te procuraram e quando te encontram não hesitaram em ir te buscar. – Forcei minha mente a acompanhar aonde ela queria chegar. – Com Deus não está sendo diferente. Ele continua te procurando, você só precisa parar de se esconder.

Aquilo bagunçou minha mente. Eu não estava me escondendo Dele e nem fazia questão disso, só queria que Ele explicasse o porquê de tanta perseguição comigo.

– Ninguém nasce pra sofrer, Pri, as pessoas que acabam indo atrás do sofrimento, quando resolvem viver longe do Único que pode trazer felicidade.

– Mas por que Ele tinha que ser o dono na minha alegria? Eu queria ser livre.

– A liberdade é maravilhosa, mas vem acompanhada de um preso alto. – Ela parecia adivinhar meus pensamentos e aquilo me assustou. – Deus não quer prender ninguém, a prova disso é que temos o livre e arbítrio, mas Ele sabe que sem Sua proteção ficamos vulneráveis as maldades da vida.

Eu ia falar alguma coisa, porém quando abri a boca, não consegui. De repente tudo pareceu está girando e mesmo sentido minhas pernas vacilarem, tentei falar que tinha alguma coisa acontecendo comigo, mas não dava, o ar me faltou e antes que eu pudesse pedir socorro tudo ficou escuro.

Continua…

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