Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 33

“Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe. Eles serão um enfeite para a sua cabeça, um adorno para o seu pescoço.” (Provérbios 1:8-9)

– Deve ter algum engano, doutor.

Ouvi a voz da minha mãe e com muito esforço abri os olhos. Eu não fazia ideia de onde estava, mas quando vi as paredes brancas do quarto, constatei que era um hospital.

– Infelizmente, dona Sônia, não há. Os exames são precisos, sua filha está grávida.

– O que? – Dei um sobressalto e minha cabeça doeu. 

– Priscila, você precisa ficar calma. – Disse um senhor que aparentava, com seus cabelos grisalhos, ter uns 60 anos, e logo deduzi que era o médico.

– Vocês estão falando de mim? – Ambos me olharam como se eu tivesse perguntado se a cor da água era transparente.

– Sim, Priscila.  

– Isso não é possível, mãe! Não faz sentindo. – Minha voz era de desespero.

– Você realmente precisa se acalmar. 

– Você tem namorado? – Quis saber o doutor.

Olhei de relance para minha mãe e apenas neguei com a cabeça.  

Diante da minha resposta negativa ele suspirou e afirmou:

– Mas você teve relação sexual com alguém.

Abri a boca para questionar, mas não tinha mais nada a ser dito. Baixei os olhos e voltei a me deitar, eu não podia encarar minha mãe. Com aquela noticia não sabia se seria capaz de olhar meu próprio reflexo no espelho.

********************************************************************

Como pude ser tão imprudente? Cresci ouvindo que o sexo só deve ser feito depois do casamento e naquele momento essa era a única regra que eu me arrependia de ter quebrado.

 Eu já ia começar a xingar, pela milésima vez naquele dia, quando um pensamento me ocorreu, ou melhor, um nome: ‘Deus’. Sempre Ele dando um jeito de controlar minha vida. Aquela gravidez fazia parte do castigo, não havia sido suficiente me vê sofrer todos os dias pela morte do Fumaça, agora eu tinha que ter uma criança sem a ajuda dele. Como eu criaria um filho sozinha?  

Mas quando estava prestes a jogar tudo do meu quarto na direção do céu, eu lembrei do que tinha ouvido mais cedo: “A vida é sua, as escolhas são suas, e as consequências também.” Respirei fundo e resolvi ser madura o suficiente para encarar aquilo, não podia agir com capricho a vida toda, sempre culpando os outros. Eu engravidei, então eu daria um jeito naquilo.

Sem pensar, me direcionei até a mesa que estava o notebook, mas antes de chegar lá meus pais entraram de uma vez no quarto.  Olhei para meu pai e seu semblante estava furioso, no mesmo instante a vergonha bateu.  Já minha mãe continuava com a mesma expressão de decepção e outra onda de vergonha percorreu o meu corpo.

– Antônio, por favor, se controla, o médico disse que ela não pode ter emoções fortes – alertou como se eu não estivesse ali. Mas meu pai ignorou.

– Olha dentro dos meus olhos e diz que você não está grávida, Priscila. Diz que você não foi irresponsável e inconsequente a esse ponto e que tudo não passa de uma grande piada de mau gosto. – Apesar de não gritar, seu tom de voz era sério e autoritário, o que aumentou meu medo.

– Pai, eu posso explicar. – Tentei argumentar em vão.

– Não, Priscila, você não precisa explicar! Eu sei como se faz uma criança! – Seu rosto estava vermelho, eu nunca tinha visto ele daquele jeito. – O que eu não sei é como você foi tão imprudente. Já que queria fazer as coisas do seu jeito, o problema era seu! Você não tinha o direito de envolver uma criança nisso! – Ele perdeu o controle e posso apostar que sua voz foi ouvida na vizinha.

– Antônio, calma. – Pediu novamente minha mãe, mas dessa vez indo pra perto dele. Ele olhou pra ela, mas não adiantou muito.   

– O bebê não tem culpa de nada! Você não tem noção da responsabilidade que é ter um filho!

Quando ele falou isso deixou de ser o único nervoso no quarto, meu sangue ferveu.  Levantei da cadeira e gritei:

– Eu não quis ter um filho! Não quis!

– Fala baixo comigo! – Ele não gritava mais, mas apontou o dedo na minha cara. – Eu sou seu pai!

– Calma vocês dois! Discutir não adiantar.

– Calma nada mãe, eu não quis nenhuma criança e eu vou dar um jeito, não precisa se preocupar.

Antes que eu pudesse perceber o que estava prestes a acontecer o tapa veio. Meu rosto virou de uma vez e a dor foi tão alucinante quanto quando o Miguel tinha feito aquilo.

– Tá maluca, mãe? – Meu pai também estava parado, surpreso com o que aconteceu.

– Nunca mais ouse dizer que vai matar uma criança, você não sabe o que é perder um filho. – A voz dela estava mergulhada em sofrimento. De repente uma escuridão pareceu rondar minha mãe, e me perguntei se caso eu tivesse aquela criança iria ficar tão alucinada com a morte daquela maneira.

– Priscila, a vida é sua e mais uma vez você tem a chance de fazer o que quiser, mas saiba que novamente terá consequências. – Alertou meu pai.

– Antônio, você não pode deixar ela fazer isso!

– Meu amor, o filho é dela, ela escolhe. Mas saiba – se dirigiu a mim – que nós não concordaremos nem apoiaremos isso.  

Ele pegou o braço de minha mãe e delicadamente a guiou até a porta. Só então comecei a alisar meu rosto para vê se a dor diminuía e enquanto fazia isso sequei uma lágrima, e depois duas, três, e assim por diante. Pela segunda vez naquele dia eu chorei feito um bebê, como eu seria capaz de criar um?

Continua na próxima terça-feira (18), às 20h 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s