Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 34

“Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos.” (Provérbios 16:9)

Os dias passaram e mesmo contra minha vontade meus pais me obrigaram a voltar para escola. As coisas não estavam como antes, aliás nunca mais seriam. Meus amigos não falavam direito comigo, mesmo os que foram me ver no dia em que voltei, era como se não me conhecessem.

Eles tinham seguido a diante. Tinham me esquecido, e olha que ninguém sabia ainda da gravidez.

A Clara não olhava na minha cara e fazia questão de me mostrar o quanto estava feliz curtindo muitas festas e namorados. Minha mãe comentou que o Wilson tinha finalmente contado toda a verdade pra família e que isso tinha gerado a maior confusão.

Mesmo com essa notícia eu não o procurei mais. Contar a verdade para família não quer dizer que ele estava arrependido, talvez só tenha ficado com medo de eu abrir o bico, então quis resolver o problema antes.

Por várias vezes quis ir até a Clara dizer que eu não tinha a menor intenção de tomar seu pai, porém não me humilhei. De todas as pessoas, ela era a que esperei que mais me entendesse.  Tudo bem, eu já esperava que ela ficasse com raiva, mas só por alguns dias, até se acostumar com a ideia. Mas pelo visto minha melhor amiga me culpava pelos erros do pai.

Como eu planejava tirar aquela criança não me importei com as pessoas no colégio. A barriga ainda não aparecia e antes que isso pudesse acontecer eu já teria achado algum remédio.

Em casa as coisas andavam mais desagradáveis ainda, apesar de minha mãe ter vindo pedir desculpas pelo tapa e do meu pai está constantemente tentando falar comigo eu me fechei em uma bolha, só comia quando eles não estavam e passava o dia fingindo estudar no meu quarto para não ter que dá de cara com eles.

Em uma tarde, quando já estava perto de completar três meses, depois de voltar da aula encontrei a casa vazia e vi ali minha chance. Eu não tinha mais tempo para adiar aquilo e precisava fazer logo, antes que não tivesse mais jeito.

Corri para o computador e pesquisei sobre remédios para aborto, encontrei algumas receitas caseiras e pílulas que prometiam o resultado instantâneo. Mas pensei melhor, e seria muito riscado fazer isso por conta própria, então resolvi mudar minha pesquisa para clínicas de aborto.

Abri na primeira que apareceu e fiquei animada, pois o designer todo rosa e a organização da página me passou segurança. Nem parecia que era algo ilegal. Os vários artigos prometendo tranquilidade e dizendo que eu tinha direito a escolher o que fazer com o meu corpo me fez sentir que estava no caminho certo. Àquela altura eu ainda não tinha aprendido que meus sentimentos sempre me traíam.

Antes que eu anotasse o número minha mãe entrou de uma vez no quarto. Tomei um susto e baixei a tampa do lap top de uma vez.

 – Filha?

– Oi.

– Tem uma pessoa querendo te vê lá na sala.

A expressão dela era de susto, mesmo tentando disfarçar eu vi que tinha alguma coisa errada. Levantei e a segui. Meu pai estava sentado em um canto do sofá, mas do outro lado tinha alguém que não reconheci de costas.

– Pai? – Ambos pararam de conversar e se voltaram para mim. – O que você está fazendo aqui? – Era o Ricardo.

– Priscila isso são modos? Ele é um policial.

– Tudo bem dona Sônia, como você está?

– Estava bem até esse momento.

– Filha, escuta o que ele tem a dizer.

– Se não for um sermão ou uma pregação estou ouvindo.

Ele respirou fundo e começou.

– O delegado mandou eu vim até aqui porque uma pessoa nos procurou dizendo ter coisas importantes para falar com você, mas que só faria isso sob proteção.

– Proteção?

– Nós não fazemos ideia do que seja, talvez não seja nada, mas diante de tudo o que aconteceu não podemos arriscar. Talvez o Miguel tenha alguém que continuou o trabalho por ele, não sabemos. Estamos investigando todas as agências e quem trabalhava com ele, mas ainda não acabamos as investigações, então tudo pode acontecer.

Aquela possibilidade começou a me aterrorizar.

– E quem quer me ver?

– Melhor nós irmos, seus pais vão te acompanhar.

Troquei de roupa rápido e saímos. Eu estava super curiosa para saber quem era e o que queria falar, mas também tinha medo do que iria ouvir. Eu ficava repetindo mentalmente que aquilo era tempestade em um copo d’água, que não tinha mais o que temer porque o Miguel só queria se vingar do Wilson e da Margarida, porém aquele mantra não estava me acalmando.

Chegamos à delegacia e ele nos levou direto para uma sala parecida com aquelas de interrogatório que vemos nos filmes. Só tinha uma mesa com quatro cadeiras – imaginei que 2 eram para a polícia e as outras para o acusado\vítima e o advogado. A cor escura deixava o ambiente mais mórbido ainda.

Tive vontade de sair correndo, mas me contive. A curiosidade era maior.

Meus pais entraram comigo e o Ricardo trouxe mais uma cadeira para o meu pai e depois saiu. Sentei entre meus pais e minha mãe segurou minha mão.

– Filha, vai dar tudo certo.

Eu assenti, estava nervosa demais para falar, mas fiquei grata por aquele gesto.

– Com licença. – Nós três nos viramos para vê quem entrava e quando vi quase cai da cadeira.

– Eu pensei que você tivesse morrido! – É claro que no fundo eu sabia que ele estava vivo, mas gostava de imaginar que não. Eu ainda não tinha esquecido das ameaças e da brutalidade da noite na festa.  

– Priscila, se você não quer conversar com ele é só dizer. Você não é obrigada. – O Ricardo advertiu.

– Eu preciso falar com você, garota.

– Priscila? – Chamou o Ricardo diante do meu silêncio.

Olhei de relance para meus pais e eles estavam sem entender nada, pior ainda eu. Minha cabeça rodava, eu não fazia ideia do que estava acontecendo ali, só sei que bem na minha frente tinha um fantasma, pelo era o que eu queria que fosse.

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