Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 35

“Envia a tua luz e a tua verdade; elas me guiarão e me levarão ao teu santo monte, lugar onde habitas.” (Salmos 43:3)

– Pode deixar.

– Quero falar com ela a sós.

– Você não pode. – O esforço que o Ricardo fazia para passar autoridade era visível.

– Então você fica e eles saem. – O Toddy não queria a presença dos meus pais.  

– De jeito nenhum que vou deixar minha filha com você.

– Pai, está tudo bem, qualquer coisa chamo vocês. –Torci para que ele acreditasse na minha mentira.

Mesmo relutante os dois saíram, deixando só nós três na sala.

– O que você quer?

– Consertar a besteira que fiz com o Fumaça?

– Assim, claro. Você diz o fato de ter enganado dizendo que eu a chance dele de fugir quando na verdade você estava ganhando dinheiro para me proteger.

– Eu sei que nem sempre fui um amigo pra ele, mas estou aqui para reparar o erro… – Disse fitando a mesa. Por alguns segundos achei que estivesse realmente envergonhado. – Não estava nos planos o Miguel encontrar vocês, me sinto culpado pelo o que aconteceu com o Fumaça.

– Por que você voltou? – Questionei sem muita paciência para ouvir mentiras.

– Não sei se ele te contou, mas fui eu que o encontrei uma noite e vi o quanto estava perdido. Ele era um menino novo, merecia uma chance de ser ajudado e eu fiz da única maneira que sabia. – Acrescentou. Assim como o Fumaça, o Toddy parecia ter necessidade de abrir sua alma para alguém.

– Levando ele pra uma vida miserável. – Não cedi.

Lançou um olhar discreto para o policial, que tinha a atenção total em nós dois e disse:

– Vi o quanto ele se sentia culpado por tudo o que fazia e essa culpa meio que recaia sobre mim. Então quando fiquei sabendo que o Miguel o tinha matado e você estava novamente em casa eu achei que tinha a obrigação de vim te avisar.

– Sobre o quê? – Perguntei confusa.

Ele se curvou sobre a mesa e começou a dizer em um tom mais baixo, porém alto o suficiente para todos ouvirmos.

– Tem uma menina lá dentro que é pra mim o mesmo que você se tornou para ele, – engoli em seco – e estou louco para tirá-la dessa. – Acrescentou. – Mas isso não é a questão, o importante é que ela descobriu tudo o que o Miguel queria fazer com você.

– Ele queria me vender sexualmente, nenhuma novidade.

– Estou dizendo que ela sabe quem queria te ferrar.

– Engano seu, ele só queria se vingar dos meus pais biológicos.

– Não.

– Como você pode ter tanta certeza?

– Minha garota ouviu uma conversa do Miguel com outra pessoa. Alguém que dava as ordens para ele te pegar e o que deveria fazer com você. – Parou por alguns segundos e ficou esperando que eu o incentivasse a continuar, mas não consegui. Estava apavorada. Eu não sabia o que iria ouvir e nem se queria. – Ela viu quem dava essas ordens. – Disse quase sussurrando.

Eu realmente não sei se queria tomar conhecimento daquilo, mas até quando ia agir como uma criança? Eu precisava enfrentar a realidade, já tinha passado por tanta coisa. Não podia ser pior, pelo menos foi o que pensei. Engano meu.

– Quem era? – As palavras quase não saíram.  

Ele respirou fundo e se mexeu na cadeira, era nítido que estava perturbado, olhava pra mim depois para o Ricardo e quando viu que eu não estava aguentado mais soltou as duas palavras que mudaram minha vida para sempre.

– Sua mãe.

– Minha tia? – Mais uma vez tive aquela experiência de estar assistindo a cena toda acontecer com alguém.

– Priscila, – chamou tão baixo que até o Ricardo se abaixou para ouvir, ao invés de mandá-lo aumentar o tom de voz, quanta postura para um policial – estou falando da sua mãe. Da Sônia.

– Olha eu agradeço muito sua tentativa de me ajudar, mas eu realmente tenho que ir. – Comecei a ficar irritada por ter ido até ali para nada.

– Você é teimosa demais, agora entendo porque o Fumaça reclamava tanto! – De repente o foco da minha irritação mudou. Senti-me traída. Como o Fumaça podia falar do nosso relacionamento – como se tivéssemos tido um – assim. Eu não era teimosa, tudo bem, no começo, talvez, mas depois passei a ouvi-lo.

– Eu só não sou idiota para ficar aqui perdendo meu tempo ouvindo besteira.

– Você acha mesmo que eu ia vim até aqui pra falar mentiras? Olha isso aqui.

Ele tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto de alguém que eu conhecia. A pessoa claramente tinha levado um tiro no meio da testa.

– Ei como você tem isso? Essa pessoa foi assassinada e isso é prova. – Alertou o Ricardo, se levantando da cadeira.

– Calma ai, cara. – Ele parecia falar com um parceiro e a cara do Ricardo era de muita raiva. – Depois eu te entrego.

– Eu posso te prender por desacato a autoridade. –  Ameaçou.

– O que aconteceu com o Ronald? – Perguntei antes que esquecessem completamente o rumo da conversa.

– O Miguel deu um jeito de apagar ele quando o Ronaldo veio até São Paulo contar onde vocês estavam. Na verdade, ele queria puxar o saco do Miguel, porque não precisava vim até aqui, então acho bem feito que tenha se ferrado. Ele é um sacana.

– Eu não me importo com ele, o Fumaça já tinha me alertado que ele podia fazer isso. Então se você não tem nada interessante para me dizer estou indo. – Fiz menção que ia se levantar e ele segurou meu braço.

– Espera, veja essa outra.

Ele deslizou a tela do celular com o dedo e a imagem que apareceu fez meu mundo desabar.

– Isso é montagem! – Bufei.

– Não Priscila, é ela. – Disse com um tom de voz triste.

– Seu miserável, como ousa? – Eu estava aos gritos.

– Você tem que me dá esse celular! – O Ricardo gritou mais alto do que eu. Finalmente percebeu que a situação estava saindo do controle.

– Eu ainda não acabei cara, ela tem que saber o resto.

– Não quero saber de nada! Por que você está fazendo isso?

– Sua mãe está segurando o revólver, não tá vendo?

Ele esfregou o telefone no meu rosto e eu bati tão forte que foi parar do outro lado da sala e a bateria do aparelho.

– Vocês dois precisam se controlar! – A ordem não me intimidou.

– Ela foi obrigada a fazer isso!

– Se ela foi mesmo forçada, porque não falou nada pra polícia quando te encontram?

– Ela ficou com medo!

– De que se o Miguel estava morto? 

Não pensei duas vezes, por cima da mesa mesmo fui cima dele, mas dois braços me seguraram.

– Sai daqui agora, garoto!

De repente o ar começou a me faltar e senti uma pontada na barriga.

– Aiii! – Gritei me curvando para aliviar as pontadas.

– O que foi, Priscila? – Senti que ia desmaiar.

– Minha… barriga… aí … – Eu disse com um pouco de dificuldade, já que mal conseguia encontrar o ar nos pulmões. As pontadas aumentaram.

– Me ajuda, Ricardo!

– Melhor chamar um médico. – O Toddy saiu correndo me deixando só com o Ricardo e torci que ele realmente fosse fazer isso.  

– Calma… – Passar as mãos nas minhas costas realmente não estava ajudando.

– Me ajuda. – Supliquei colocando a mão sobre minha barriga.

– Vou chamar seus pais.

– Não! – Por algum motivo não os queria ali.

– Priscila, eu não sei o que fazer. – Confessou com uma voz mais desesperada do que a minha.  

– Só faz passar, por favor, e não deixa nada acontecer com o bebê. Duas coisas não me passaram despercebidas, sua cara de espanto quando ouviu que eu estava grávida e a preocupação que senti na possibilidade de perder meu filho.

Algo estava muito errado, as pontadas em minha barriga eram fortes. Eu não conseguia nem me levantar tamanha a dor e aquilo aumentou mais ainda o meu pavor. Meu coração se fechava, era como se eu estivesse em um cubículo sem janelas, sem buracos, sem nada. A cada minuto que passava eu ia ficando sem oxigênio

De repente uma ideia se passou pela minha cabeça, será que eu estava perdendo o bebê? Já tinha visto cenas em novelas em que a mulher tinha um aborto espontâneo dessa maneira, sentindo uma dor muito forte na barriga e depois vinha sangue… muito sangue… Passei as mãos nas pernas e não senti nada, porém as pontadas vinham com mais frequência e agora eram também no pé da barriga. Só podia ser isso. Mas não era o que eu queria? Planejei até tomar remédio, então devia está feliz com a chance daquilo acontecer, pelo menos eu não seria mais culpada.

Entre um gemido e outro minha mãe entrou na sala. 

– Minha filha, está tudo bem? – Ela correu em minha direção e eu me afastei.

– Ela começou a passar mal de repente.

– Vai ficar tudo bem, seu pai está chamando uma ambulância.  

Sua voz só fazia tudo piorar, ela segurou minha mão para me ajudar com a dor, mas soltei. Segurei no braço do Ricardo que ainda estava sobre meu ombro e apertei. Cada vez que as pontadas vinham, parecia que iam me perfurar.

De repente me lembrei do Fumaça, não sei o porquê mais sua imagem sorrindo veio nítida na minha cabeça, aquilo de alguma forma conseguiu aliviar a tontura.

Fumaça… –  Murmurei para mim mesma.

Então esse seria o fim? A única coisa que me restava dele iria embora… Meu filho… Nosso filho. Apertei a barriga com mais força e a imagem dele começou a desaparecer.

– Não… Por favor… Não…

– Meu Deus, ajuda… – Ouvi o Ricardo sussurrando atrás de mim.

Minha mãe me entregou um copo com água e com as mãos tremendo consegui beber. Aquilo clareou um pouco minha mente e tive noção do que aconteceria se eu perdesse o bebê. Não teria mais nada me ligando ao Fumaça. Um medo desesperador tomou conta de mim.

Eu já estava com quase três meses, o feto já estava se formando, já era ligado a mim, era uma vida que eu ia tirar. Desejei matar meu próprio filho e aquilo estava acontecendo sem nenhum esforço da minha parte. Então fiz a única coisa que estava ao meu alcance para tentar salvá-lo.

“Deus, por favor, peço que me ouças. Sei que não mereço e que talvez minha voz seja a última que o Senhor quer ouvir, mas, por favor, salva meu filho. Assim como me salvou tantas vezes sem que eu nem pedisse. Assim como cuidou de mim desde  pequena, faz isso com esse bebê, por favor. Eu faço o que o Senhor quiser, mas não me tire essa criança, ela não tem culpa dos meus atos e foi a única coisa que me restou no Fumaça. Sei que desejei matá-lo, mas não posso fazer isso, não sou capaz, é meu filho. Também sei que não faço ideia do que é ser mãe, mas quero ao menos tentar descobrir. Através desse filho me dá mais uma chance de fazer as coisas certas, por favor.”

Eu havia dito palavras que jamais pensei em falar, me dirigi ao Deus que tanto odiei. Supliquei pela vida do meu filho, pedi uma segunda chance de acertar, de fazer escolhas novas, se não por mim, por aquela criança.

Em questão de segundos a dor passou, até porque desmaiei.

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