Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 36

Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, vestido a couraça da justiça.” (Efésios 6:14)

Abri meus olhos com muita dificuldade e me perguntei se havia morrido, mas comprovei que não quando escutei um barulho de bipe bem irritante. Já que não tinha morrido, meu desejo era ficar de olhos fechados para sempre, e por isso parei de tentar abri-los.

Daquele jeito estava bom. Sem dor, sem angústia, sem tonteira, sem medo…

– Priscila? – Oh não, de quem era aquela voz? Ignorei, na tentativa de que a dona dela desaparecesse.  – Priscila?

– Ela acordou? – Outra voz. Será que ninguém percebia que meu desejo era ficar dormindo.

– Sim, quer dizer, ela meio que abriu os olhos, mas agora eu estou chamando e nada.

– Os batimentos cardíacos estão normais, logo ela resolver voltar.

– Espero que seja logo, seu Antônio está precisando dela.

Meu pai? O que tinha acontecido? Só então me dei conta que podia ter passado dias ‘fora do ar’, então resolvi fazer um esforço.

– Graças a Deus! – Alguém esbravejou.

Tentei colocar a mão direita na barriga, mas ela estava presa a alguma coisa, então tentei a esquerda. Tudo parecia normal com o bebê, pelo menos por fora, e aquilo me fez sentir um alívio até então desconhecido.

– Onde eu estou?

– Em um hospital querida, – disse uma mulher que estava toda vestida de branco – sou a enfermeira Lúcia, e pode ficar tranquila que você está bem.

– Pelo menos agora está. – A enfermeira olhou para ele com um ar de repreensão, já eu, dei um sorriso fraco, até ali ele falava besteira. – Desculpe. – Acrescentou constrangido.

– Há quanto tempo estou aqui?

– Você veio para cá ontem.

Só então relembrei tudo o que tinha acontecido. O Toddy acusando minha mãe, minha raiva, a dor, o pedido de ajuda e por fim, a escuridão.

Tentei me levantar, mas não consegui, todo o meu corpo doeu.

– Calma, querida, eu te ajudo. – Ela mexeu em algum botão que fez a cama subir, fiquei mais confortável.

– O que aconteceu? Como está meu filho?

Os dois se entreolharam e o clima ficou meio tenso.

– O bebê está bem, não se preocupe. – Por algum motivo àquelas palavras não me convenceram.

– Eu passei um dia todo dormindo e vocês querem me convencer que não aconteceu nada?

– Priscila você não ficou só dormindo. Em alguns momentos abria os olhos e pedia para salvarmos o bebê. – Disse a enfermeira.

– Salvar por quê? – Instintivamente levei a mão à barriga.

– Depois que você desmaiou começou a sangrar muito… – assim que falou se deu conta que deveria ficar calado – foi mal…

– Pelo visto ficar calado não é sua praia. – Lúcia o repreendeu.

– Eu tenho o direito de saber! – Explodi.

– Você quase teve um aborto espontâneo, mas conseguimos salvar o bebê. – Meu coração acelerou. – Perdemos você em alguns momentos durante a noite, mas deu tudo certo. Sua gravidez exige repouso, Priscila, e nada de emoções forte. – Alertou.

– Quem veio comigo?

– Seu pai chamou a ambulância, mas eu trouxe você. – Admitiu o Ricardo um pouco envergonhado.

– Por quê? 

– O Toddy começou a causar desconforto lá na delegacia e seus pais precisaram resolver.

Eu não podia acreditar que ele continuara acusando minha mãe e fiz uma promessa de matar aquele garoto quando saísse dali.

– Ninguém ficou comigo? – Desejei profundamente que ele respondesse que minha mãe tinha passado a noite toda ali do meu lado.

– Seu Antônio veio ontem à noite e ficou até de madrugada, mas como precisou sair pediu para ele ficar de olho em você. – Disse a enfermeira com desdém, estava claro que ela não acreditava na capacidade de proteção do Ricardo. 

Eu realmente não estava entendendo nada e quando ia começar a pedir mais explicações, meu pai irrompeu quarto adentro.

– Priscila, graças a Deus!

Os dois se afastaram para que ele se aproximasse, abri os braços desajeitadamente e recebi um abraço apertado e forte.

– Desse jeito, você que vai me matar. – Dei risada e me soltei, grata por tê-lo ali.

– Pensei que ia te perder. – Quando ele me olhou, não pude deixar de notar seus olhos vermelhos e inchados. Meu pai tinha chorado, e muito. Senti um aperto no peito, eu nunca o vi daquele jeito, nem quando me encontraram.

– Pai, estou bem, cadê a mãe? – Ele se virou e olhou para as outras duas pessoas presentes, naquele instante eu soube que o pensamento que eu ignorava desde que acordei era verdade. – Cadê minha mãe? – Quase gritei.

– Filha… – Começou como se fosse falar que ela morrera, mas ao invés disso não disse mais nada, apenas sentou do meu lado e ficou olhando para o chão.

– Pai, fala!

– A Sônia está presa.

– O que? Pai, aquele garoto estava mentido! O senhor não pode acreditar nele! – A histeria dominava minha voz.

– Você tem que se acalmar. – A Lúcia interveio.

– Alguém traz minha mãe aqui!

Meu pai colocou o rosto entre as mãos e notei que chorava.

– Priscila, infelizmente o Toddy falou a verdade. – Disse o Ricardo com a voz pesada.

– Não, Ricardo, você viu que aquilo era montagem! Pai, faz alguma coisa!

– Filha, verificaram a foto, não era montagem.

– Não… Não… Não…

Eu não podia acreditar naquilo. Todos ali estavam mentindo. Não havia motivos para aquilo ser verdade. Sacudi meu pai pelo ombro exigindo alguma resposta, mas ele não falou nada.

– Oh minha filha… – Se virou e eu vi seu rosto em prantos. Naquele momento tive certeza que o mundo nunca mais seria o mesmo pra mim, então ele me abraçou e choramos juntos.

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