Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 37

“Os pecados de alguns homens são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros só mais tarde se manifestam.” (1 Timóteo 5:24)

Pela segunda vez na minha vida chorei pelo o que pareceram horas – mas que pode não ter passado de minutos.

– O que aconteceu depois que sai?

– Tem certeza que você quer saber? – Questionou meu pai.

– Sim. – Respondi com uma falsa segurança.

– Seu Antônio, vamos está aqui fora se precisar.

– Não, podem ficar! – Ele parecia ter medo de ficar a sós comigo. – Ela pode precisar da senhora. – Desconfiei que ele era quem poderia precisar de cuidados médicos.

– Pai, fala.

– Sua mãe já não estava bem há um tempo, – começou – eu que vinha ignorando, achando que era coisa da minha cabeça…

– Não estava bem como? – Interrompi, nervosa.

– Priscila, antes de tudo eu preciso te contar uma coisa.

Como eu já sabia sobre a adoção, soube na hora que se tratava de algo mais sério do que isso. Eu não conseguia imaginar o que poderia ser.

– Sua mãe e eu… – nitidamente ele avaliava as palavras – tivemos uma filha antes de você nascer… – Não posso dizer que fiquei chocada com aquela revelação. A verdade é que eu já tinha descoberto tantas coisas nos últimos tempos que aquele segredo não me pareceu tão perturbador.

– E cadê ela, pai? – Perguntei mais por falta do que dizer do que por interesse na questão.

– Ela está morta… – Meu pai não me encarava. Seus olhos pareciam perdidos em algum ponto da parede à nossa frente, e devo dizer que naquele instante senti o mesmo clima pesado que estava na minha mãe no dia em que eu disse que ia tirar o bebê. – Sua mãe a matou acidentalmente.

Eu não tinha palavras. Eu não conseguia raciocinar, então minha mente não absorveu as palavras. Por alguns segundos achei que tinha entendido errado.

– Não entendi, pai. – Falei gentilmente e ele pareceu mergulhar em passado do qual eu não fazia parte, muito menos tinha a mínima ideia de que existia.

– Ela tinha 10 dias quando aconteceu. – Seu tom de voz estava passado e eu podia sentir que sua alma e seu coração também. – Eu cheguei em casa do trabalho e sua mãe estava dormindo em cima dela. Minha reação foi correr e acordá-la, mas já era tarde. A bebê já estava sem respirar.

“Parecia que eu estava em um sonho. Me senti completamente impotente e desnorteado, mas nem posso me comparar a sua mãe. Ela estava em estado de choque. Com a criança em suas braços ela não conseguia se mexer, ficava sussurrando que tudo ia ficar bem e que a neném só dormia.

Duas horas depois ainda não tínhamos saído do quarto. Eu, literalmente, não sabia o que fazer e quando já estava quase ligando para polícia sua mãe despertou do estado de dormência.”

Em alguns momentos ele parava para pensar, como se estivesse resgatando detalhe por detalhe daquela história, e logo depois continuava.

“A Sônia disse que íamos enterrar a criança e que adotaríamos outra da mesma idade. Como ela tinha apenas dias, ninguém perceberia a mudança. Os bebês mudam muito. – Acrescentou como se aquilo fosse um detalhe muito importante. – E assim nós fizemos.”

– Pai, porque vocês pediram ajuda?

– Não conseguimos, filha. Fomos covardes. Sua mãe chorou por várias noites dizendo que todos a condenariam por isso, que ninguém entenderia que ela estava a várias noites sem dormir amamentando. Claro que não justifica, mas eu estava muito abalado e acatei a sugestão dela.

– Como ela era o nome da criança? – Acredite, com tanta coisa importante naquela história, foi a esse detalhe que me apaguei.

– Isabella.

Eu não tinha mais nada para falar. Tudo o que queria era que meu pai saísse dali. Tinha me enganado quando pensei que não poderia ter nada pior do que a adoção.

– Você deve está se perguntando como o Wilson entra nessa história… – Errado. Confesso que nem tinha pensado nisso, mas deixei que ele continuasse. – Eu não aguentei guardar o segredo só comigo por mais de dois dias, eu não dormia, não comia, nem mesmo trabalhar eu conseguia, então liguei desesperado para o Wilson e contei tudo.

– E como ele queria se livrar do problema dele, juntou o útil ao agradável. – Conclui.

– Minha filha, você não era um problema… – Ele não falou com convicção suficiente.

– Não? Eu tampei o buraco da filha que vocês mataram!

Meu pai não disse nada, apenas abaixou a cabeça e se levantou.

– Pai, desculpa. – Precisei repetir que a culpa não era dele, que foi minha mãe que matou a primeira filha e queria destruir a segunda. – Por favor, me diz o que aconteceu com a mãe.

Mesmo não sentando mais, ele continuou.

– Antes de você desaparecer a encontrei diversas vezes chorando sozinha no quarto com todas as fotos de sua gravidez em cima da cama.  Claro que eu entendia sua dor, eu também tinha perdido uma filha, e ainda carregava a culpa comigo. Confesso que o fato da sua chegada ter amenizado a angústia que eu sentia, aumentou a culpa. Mas sua mãe aparentemente nunca sofreu com a perda. Era como se ela vivesse em um constante estado de negação. Ás vezes acho que ela realmente acreditava que você era a nossa primeira filha.

“Por vezes já quis contar para alguém, mas a coragem sempre faltava. Mesmo depois que conheci a Deus, eu não consegui me libertar do passado.”

– É o famoso versículo “Conhecereis a verdade e ela voz libertará…” – Lembrei.

– Sim. Talvez se tivesse optado pela verdade, são não fizesse o que fez.

– Pai, como ela conhecia o Miguel?

– Nos conhecemos na faculdade, mas eu não fazia ideia de que a Sônia ainda tinha contato com ele. Eu sempre o detestei, e nunca tive nenhum contato próximo, mas sua mãe tinha por causa da Margarida.

– Ela traia você com ele? – Pensei alto demais e meu pai tentou disfarçar o quanto aquela possibilidade o abalou.

– Sim. Na verdade, uma vez, ainda na faculdade, eu peguei os dois se beijando. Quis terminar tudo, mas a Sônia implorou perdão. Hoje eu sei que talvez ela só quisesse evitar que eu contasse tudo para a Margarida. – A dor em sua rosto era evidente, mas mesmo assim optei pelo silencia. Eu tinha esse direito. – Segundo o médico, a Sônia sofre de esquizofrenia. – Acrescentou, desesperado para mudar o foco da conversa. –Na mente dela você ainda era a Isabella e nos momentos em que ela percebia que isso não era verdade e que ela tinha matado a própria filha era consumida pela culpa, porém desviou isso para você.

– Por isso ela quis me vender. – Deduzi.

Meu pai tremia e seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Eu não disse nada, doía ouvir aquilo. Machucava.

– Ela nunca me amou…

Ele abriu a boca para dizer alguma coisa – provavelmente discordar –, mas desistiu.

– Minha filha, sua mãe precisa de ajuda, ela está doente. Quer dizer, sempre esteve, que eu nunca percebi.

– Pai, você não tem culpa.

– Infelizmente, tenho. É claro que não sou criança, sei que sua mãe teve a chance de pedir ajuda. Deus é injusto, ela tinha momentos de lucidez em deveria ter gritado por socorro, mas não fez. Só que se eu tivesse sido mais sensível teria percebido isso. Ninguém mata a própria filha e consegue guardar esse segredo sem que aja consequências.

– Onde vocês enterraram a criança? – A curiosidade surgiu de repente.  

– No cemitério do outro lado da cidade. Fizemos um funeral para ela. Apenas nós dois, claro. A família pensava que estávamos viajando, aproveitando a novidade de ter um filho, e só voltamos dessa “viagem” quando estávamos com você.

– E agora, o que vai acontecer com ela?

– Sua mãe está sendo examinada e dependendo dos resultados dos exames ela irá para um hospital psiquiátrico.

– Ela assumiu tudo?

– Sim, no interrogatório, hoje à tarde.  

– E com você, pai?

Ele entendeu a pergunta.

– Provavelmente serei preso, minha filha. – Respondeu cabisbaixo.

Sem que eu percebesse tinha começado a chorar.

– Priscila, você tem que se acalmar. – A enfermeira interveio. – Seu Antônio é melhor o senhor esperar lá fora.

– Eu não vou deixar minha filha sozinha.

– Ela vai ficar bem, vou levar o senhor pra comer alguma coisa. – Eu nem lembrava mais da presença do Ricardo e da Lúcia.

– Eu não vou a lugar nenhum, vou ficar com ela e ponto.

– Ela não vai se acalmar com o senhor aqui.

Vê-los discutindo sobre mim, como se eu não estivesse ali, me irritou mais ainda.

– Eu quero que todos saiam!

– Priscila, tenho que te dá um remédio…

– Não vou tomar nada, quero ficar sozinha.

– Filha…

– Pai, eu vou ficar bem.

Ele chegou mais perto de mim, segurou minha mão e disse:

– Eu amo você e não vou te abandonar. – Aquilo trouxe um alivio, mas não diminui a mágoa.

– Eu sei, mas, por favor, me deixa sozinha.

Ele relutou, mas deve ter imaginado que eu precisava de tempo para processar tudo.

– Se precisar de alguma coisa estou aqui fora.

– Eu vou ficar. – Declarou a enfermeira. Odiei ela. Não sei se queria cuidar de mim ou apenas não perder nenhum detalhe da vida nada normal da paciente.

– Não, já disse, estou bem.

– O que você faria se descobrisse que sua própria mãe queria te jogar em um prostíbulo? – Todos olharam assustados na direção daquelas palavras. – Iria querer ficar ouvindo dos outros que você não tinha culpa de nada e receber pena?

Ele falava na hora errada e dizia as coisas sem pensar, mas naquele momento ele não podia ter acertado mais.

– Tudo bem, se precisar é só chamar. – Respondeu contrariada. 

Até meu pai pareceu entender que o certo era me deixar sozinha, então dei um meio sorriso agradecido e o Ricardo retribui com um leve aceno.

– Pai! – Chamei quando ele já estava na porta.

– Oi, filha. – Parou e se voltou pra mim.

– Você culpa Deus por tudo isso?

Ele pareceu surpreso com a pergunta, mas não demonstrou dificuldade em responder.

– Não. Nós fizemos a escolha errada. Nós só colhemos o que plantamos. Se tivéssemos pedido ajuda teríamos evitado muitas coisas. E Deus nos alertou por diversas vezes através da Sua palavra, mas nós preferimos manter o segredo. Fomos orgulhosos demais para pedir ajuda, sua mãe mais do que eu. Mas, minha filha, Ele é misericordioso e sabe o quanto estou arrependido e que se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Então eu prometo para você que não estaremos sozinhos enfrentando essa barra. Um dia tudo isso vai passar.

Ele acabou, virou as costas e me deixou sozinha refletindo em tudo o que tinha dito.

Olhei para dentro de mim e procurei o que eu mesma pensava sobre aquilo. Me perguntei se eu culpava Deus e surpreendentemente descobri que não. Lembrei que o Fumaça tinha dito que eu podia ficar me lamentando por ter sido abandonada ou agradecer por ter sido acolhida.

Hoje eu sei que só fui aceita por uma pessoa, mas eu continuava tendo as mesmas opções: lamentar por minha mãe ou agradecer por meu pai. E mesmo com toda a dor que sentia, mesmo a mágoa crescendo sempre que eu repassava tudo em minha cabeça e me fazendo sentir-me uma pessoa muito ruim, já que fui abandonada por duas mães e um pai, eu gritei por socorro.

Eu não queria cometer o mesmo erro de não pedir ajuda e muito menos queria ter o fim da minha mãe – é claro que não a culpo por ter matado a Isabella, mas a culpo por ter escondido o fato. Talvez se não tivesse guardado o segredo pudesse ter amenizado a culpa com uma nova filha. Eu sei que não seria fácil, as pessoas com certeza a condenariam, mas também teria as que entenderiam. Ela tinha tido o apoio da família e dos amigos. Afinal de contas ninguém planeja dormir em cima da própria filha.

Eu não tinha saída, precisava pedir ajuda Aquele que eu ouvira que sempre estaria do meu lado, mesmo quando eu não estivesse do Dele.

“Se o Senhor puder, por favor, diminua essa dor. Eu não sei se suportarei, mas se não preciso mesmo passar por tudo isso sozinha, me ajuda, fica do meu lado, porque ninguém mais sabe o que se passa dentro de mim.”

Foi algo breve, e até ousado da minha parte, pois há tempos eu não via Deus daquela maneira, como o único que poderia me ajudar, e aquilo trouxe uma calma imediata. Não diminuiu a dor, mas com certeza senti uma tranquilidade, como se finalmente eu tivesse colocado tudo pra fora. Falar com Ele foi como tirar um peso, achei engraçado já que eu desejava isso toda vez que chorava, mas nunca conseguia ficar aliviada.

Por mais incrível que pareça eu dormi e não tive pesadelos. 

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