Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 38

“Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida.” (Salmos 119:50)

Passei mais dois dias no hospital, meu pai não saiu do meu lado por mais que eu o mandasse descansar. Durante esse tempo o bebê mexeu pela primeira vez e aquilo me deu um ânimo. Foi maravilhoso senti-lo, era como se fosse uma extensão do Fumaça e o melhor era ter a sensação de que nunca mais eu estaria sozinha.

Pra minha surpresa a Clara foi me visitar. No começo eu não sabia como agir, e notei que nem ela, pois começou perguntando como eu estava e disse que sentia muito, mas quando viu que não podíamos mais adiar o inevitável tocou no assunto.

Disse que demorou a entender que eu tinha sido tão enganada quanto ela e que não me culparia mais por nada. Pediu desculpas por ter sido tão egoísta e me contou do piti que sua mãe deu quando soube de tudo, mas que logo amoleceu o coração quando tomou conhecimento do ocorrido com minha mãe.

Parte de mim ficou feliz em saber que o Wilson tinha contado tudo, mas a outra parte me alertava que isso só tinha acontecido por ele ter se sentindo acuado. Afastei o pensamento e me concentrei na minha amiga, ou melhor, minha irmã.

Ela confessou como tinha sido descobrir e que se sentiu traída, mas que naquele momento estava feliz em saber que ao menos a traição de seu pai resultara em mim. Ambas rimos e percebemos estava tudo bem entre a gente, o que foi algo importante, já que a Clara sempre foi minha melhor amiga e eu não queria perder mais ninguém.

– Hoje você sai daqui, bela adormecida.

– E você se vê livre de mim.

A Lúcia deu um sorriso murcho e me entregou um copo de água. – Pelo visto a novela não tinha mais o drama que ela julgava necessário.

– Deixe esse bebê longe de confusão.

– Pra isso ele teria que ter outra mãe. – Era pra ser uma brincadeira, mas saiu em um tom seco.

– Você vai ser uma ótima mãe. – Meu pai entrou.

“Só se eu não puxar as duas que eu tenho”, pensei.

– O senhor ligou pro Ricardo? – Eu disse para mudar de assunto.

– Sim, ele está vindo – pedi que meu pai ligasse pra ele para que eu pudesse agradecer por tudo, – enquanto isso você vai ajeitando suas coisas — ordenou.

Eu só tinha alguns pertences básicos, mas resolvi fingir que guardava só pro tempo passar.

– A porta estava meio aberta, por isso já fui entrando.

– Sem problemas. – Eu disse sentando na ponta da cama.

– Como você está?

– Sei lá… – Respondi com sinceridade. – Tenho tentado não pensar muito para não doer.

– Mas não é melhor sentir de uma vez do que achar que ela vai está em casa quando você chegar?

– Eu não acho. Se teve uma coisa que eu aprendi nessas últimas semanas é que nunca nos acostumamos com a dor.

– Acostumar não, mas aprender a lidar com ela é possível. – Ele disse sentando ao meu lado.

– Eu não sei como fazer isso, – desabafei olhando pro chão – não faço ideia de como vai ser quando chegar a hora do jantar e não ter mais ela pra reclamar porque não como verduras. – Dei um sorriso me lembrando das inúmeras vezes que isso aconteceu. – Não sei como vai ser ir pra escola e não ter ela preparando meu café e pior ainda, não sei como vou viver sabendo que tudo não passou de uma farsa, que ela nunca me amou. – Minha intenção não era falar aquelas coisas, mais quando vi já tinha saído. –Está aqui no hospital faz tudo parecer um sonho ruim, eu fico achando que quando passar por aquela porta ela vai está me esperando e dizer que tudo foi um pesadelo. Sair daqui me assusta mais do que eu quero admitir, porque voltar pra casa significa confirmar que tudo é real.

Ele colocou a mão sobre meu ombro disse:

– Vai dar tudo certo.  – Olhei pra ele confusa. – Que foi?

– Quando eu quero que você fale a única coisa que sai são quatro palavrinhas clichês?

Ele fez cara de ofendido.

– Você não me deixou terminar. Vai dar tudo certo porque eu sei que você parou de brigar com Deus.

– Como você sabe disso?

– Dá pra ver, principalmente pela maneira como você está lidando com tudo. Tem se esforçado para ficar calma, mesmo que dentro de você esteja um turbilhão de sentimentos.

– Eu não parei de brigar com Ele, – falei baixo como se fosse contar um segredo – eu só pedi para que me ajudasse a lutar.

– Tenho certeza que é uma opção melhor do que lutar contra Ele.

Dei um sorriso sincero, aquele policial maluco conseguiu me ajudar desde que nos conhecemos. Ele realmente tinha se tornado um amigo.

– Obrigada.

– Por não ter te levado pra delegacia naquele dia? – Seu tom era de riso. – Nós dois sabemos que se eu tivesse feito isso teríamos evitado muitas coisas.  

– Eu teria dado um jeito de fugir, e o obrigada é por tudo, inclusive por está aqui até agora.

– Relaxa, se não fosse eu seria outro. Só que ninguém estava a fim de garantir que o traficante fosse fazer alguma coisa com a adolescente marrenta.

– Então jogaram pra você?

– Isso mesmo.

Eu dei risada e ele me acompanhou.

– Cadê o Toddy?

– Foi liberado. Era esse o acordo. Ele entregava sua mãe e era perdoado.

– Bom pra ele… – Eu não fui tão sincera naquelas palavras. Achava um pouco injusto o Toddy está livre tendo a chance de fazer o que desejasse enquanto o Fumaça já tinha perdido a sua.

– Eu acho que dessa vez ele vai mudar de vida. Me pareceu sincero quando disse que queria uma oportunidade.

Eu não disse nada, estava pasma com a facilidade que ele tinha para confiar nos outros. O Toddy era do mesmo tipo do Fumaça, eles se arrependiam, mas dificilmente acreditavam na possibilidade de mudar. Com certeza aquilo tinha sido uma jogada e me perguntei como o Ricardo conseguiu ser policial com tanta ingenuidade.  

– Eu preciso ir. – Ele disse, e na hora senti um aperto no peito.

– Meu pai já deve está louco. – Falei para disfarçar.

Levantei da cama fui caminhando em direção à porta, ele fez o mesmo, mas antes de abrir me falou uma última coisa.

– Priscila, eu não sou capaz de imaginar o quanto vai ser ruim pra você, mas pode ter certeza que Deus sempre estará do seu lado. O único problema é que Ele não é mal-educado, não grita, respeita nossas vontades e não se mete em nossa vida quando não pedimos. Por isso quando você achar que não vai aguentar, fale com Ele, mesmo que não abra literalmente sua boca, chame-O no coração, tenho certeza que Ele vai te responder.

Aquilo trouxe um conforto inexplicável, por alguns segundos aliviou o medo e o nervosismo que eu estava tentando evitar. Não tive outra reação senão abraçá-lo e mesmo surpreso com o gesto retribuiu.

– Obrigada, vou me lembrar disso.

– Vê se lembra de deixar de ser marrenta. – Brincou.

– E você vê se deixa de acreditar demais nas pessoas.

– Até em você? – A pergunta veio acompanhada de um meio sorriso.

– Talvez. Você mesmo disse que…

– Teria evitado muitas coisas se… blá blá blá…

Não estávamos mais nos abraçando, mas percebi que ainda estávamos muito próximos. Tão próximos que percebi seus olhos vacilarem e ele se afastar um pouco quando eu disse que confiaria minha vida a ele depois de tudo o que tinha feito por mim. Para minha surpresa não tomei aquela reação como uma ofensa. Eu já tinha me acostumado com esse jeito meio maluco dele.

– Eu nunca achei que ficaria amiga de um policial, principalmente do que queria me prender.

– Tá vendo, não sou só eu que confio nas pessoas erradas. – Brincou e eu sorri.

Um sorriso leve e tranquilo, como há muito tempo eu não dava.

O celular dele tocou, e em um pulo nos afastamos.

– Tá na minha hora.

Eu não disse mais nada, não consegui. Um bolo na minha garganta se formava, então apenas assenti e o vi sair.

Aquela foi a última vez que nos falamos.

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