Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 39

Seis meses depois

“Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? {…} Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lucas 11:11)

Mesmo com tudo o que tinha acontecido, meu pai me obrigou a voltar minha rotina normal. Uma semana depois de sair do hospital ele me fez ir à escola, pro curso de inglês, e claro, fazer o pré-natal. A tentativa dele de não me deixar à toa funcionou, pois eu chegava tão cansada que só tinha forças para dormi ou vomitar.

Eu já estava no oitavo mês de gravidez e ainda não tinha conseguido descobrir o sexo do bebê, aquilo estava me deixando maluca de tanta ansiedade. Não tinha pensado em muitos nomes e os poucos que cogitei não me agradavam.

A Clara estava me ajudando a comprar tudo, e confesso que de vez em quando ela me irritava, pois não parava de falar que eu deveria perdoar seu pai, ou melhor, nosso pai. Ela alegava que ele não tinha me procurado ainda por medo da minha reação, mas aquilo não me comovia. Eu não queria que ele se sentisse obrigado a criar nenhum tipo de laço comigo, eu já tinha um pai e não estava à procura de outro.

A única coisa que eu procurava era uma mãe, pois eu estava prestes a ser uma e não fazia ideia de como fazer certo, levando em conta que eu não tive bons exemplos. Minha tia sempre dizia que ser mãe de verdade era pensar sempre no bem-estar do filho antes do seu, mas desconfio que ela falava isso só para se justificar e me fazer perdoá-la.

Por falar nisso, aceitei o fato de ela ter tomado uma decisão errada e se arrependido, mas não a tinha aceitado como mãe. Ela continuava sendo minha tia. Quando ia lá em casa eu a tratava bem e  até conversava sobre alguns assuntos aleatórios ou então como o meu estava se sentindo. Ela respeitava e não fazia outras investidas, o que facilitou as coisas entre a gente.

Já minha mãe estava impossível. Ela foi internada em um hospital psiquiátrico e eu não havia ido visitá-la nenhuma vez, porque eu sabia que se fizesse isso, todos os pensamentos que eu lutava o dia todo para evitar iam vim à tona e eu iria desmoronar, todos os pesadelos que eu tinha iriam sair do meu sono e passariam para o meu dia a dia.

Meu pai que sempre ia e admito que não entendia o porquê ele se sujeitava aquilo. Voltava triste pelo estado que a encontrava, principalmente quando ela não o recebia.

 Uma noite depois de acordar de mais um pesadelo em que minha mãe corria atrás de mim com uma faca e gritava que iria acabar comigo, pois a culpa pela morte da Isabella era minha, acordei ofegante e com falta de ar – sempre acontecia isso, mas daquele vez estava pior.

– Pai! Pai, me ajuda! – A dor veio de repente e alucinante.

– Priscila o que foi?

Com a voz ainda meio grogue de sono meu pai chegou correndo ao meu quarto.

– Ai, pai, tá doendo!

– Calma, filha, onde está doendo?

– Minha barriga! Meu bebê! Tá acontecendo alguma coisa.

Desde que sai do hospital a gravidez estava tranquila, não havia sentido mais dor, nem enjoou, inclusive me alimentava bem. Porém naquela noite, do nada, eu senti umas pontadas fortes.

– Vou te levar pro hospital.

– Pai, o que é isso? O que tá acontecendo? – Eu não conseguia nem me levantar da cama.

– Eu não sei, filha. – Admitiu com a voz desesperada.  

Quando comecei a sangrar meu desespero aumentou.

– Pai, me ajuda! – Fiquei tonta e não conseguia mais nem respirar.

– Calma, Priscila, vai dá tudo certo.

Ele me pegou pelo braço, mas ao invés disso me confortar foi pior, a nova posição aumentou as dores. Eu estava começando a vê tudo preto. No elevador eu pedia desesperadamente ajuda, sentia o sangue jorrando entre minhas pernas, e alguma coisa me dizia que algo muito ruim estava prestes a acontecer.

– Pai… – Eu disse quando ele me colocou no banco de trás do carro, já não conseguia vê muita coisa e estava sem forças até para gritar.  

– Filha, não se esforça. Fica quieta, por favor.

– Salva o bebê, por favor.

– Priscila presta atenção: eu não vou perder você, não agora depois de tanta coisa.

A voz dele parecia longe, mas consegui identificar certa firmeza.

– Você tem que salvar meu filho. – Supliquei.

– Vou salvar vocês dois, só preciso que você faça uma coisa.

– O quê?

– Deixa Deus cuidar de você, deixa Ele cuidar dessa criança, Ele vai fazer o melhor pra vocês minha filha…

Eu tinha escolha? Então em meio à dor e ao medo chamei por Ele com todas as forças que ainda me restavam.

“Eu preciso que o Senhor me ajude. Não deixe o bebê morrer, por favor, ele não tem culpa de nada… Eu entrego minha vida em Tuas mãos…”

E aquelas foram as últimas palavras que se passaram em minha mente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s