Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 40

Acaso, pode uma mulher esquecer-se do seu filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” (Isaías 49:15)

– Priscila… – A voz vinha de longe. – Priscila… – Chamou mais uma vez. A mínima parte do meu cérebro que estava consciente dizia que de alguma maneira eu devia reagir aquele chamado. Algo me dizia que aquele era o meu nome.  

– Como ela está, doutor? – Outra voz, essa era familiar, mas eu ainda não conseguia identificar de quem. Era como se grande parte do meu cérebro estivesse adormecida.  

– Ela está reagindo, mas precisa ser um pouco mais forte pra voltar totalmente.

– E a neném doutor, quando vai receber alta?  – Apesar de ainda não ter identificado quem falava e tudo está uma escuridão total, ouvir aquela pergunta fez metade da minha consciência despertar.  

Será que era o meu bebê? Então era uma menina, mas o que será que tinha acontecido? Porque será que ela ainda não recebera alta? A pequena parte de mim que estava lúcida me fez entender que eu precisava lutar, precisava ao menos tentar abrir os olhos e saber como minha filha estava. E enquanto lutava contra cada parte do meu corpo que não queria sair daquela escuridão, ouvi a resposta.

– Ela está rejeitando o leite que estamos dando e ainda respira por aparelhos, se a Priscila não acordar logo, receio dizer que a criança ficará um bom tempo aqui no hospital.

A voz falou com um tom de preocupação, eu realmente precisava fazer alguma coisa, pelo visto minha filha não estava nada bem. Talvez ela estivesse precisando de mim.

Então tentei sair da escuridão e, apesar da dificuldade, senti minhas pálpebras se mexerem.

– Priscila! – Minha cabeça doeu.  

– Ela está acordando, seu Antônio!

Saber que era meu pai me deu mais forças, obriguei minha mente a lembrar de que ele não desistiu de mim em nenhum momento, e eu tinha que fazer o mesmo pela minha filha. Tentei novamente abrir os olhos, mas em vão, era um esforço grande demais, assim como mexer qualquer outra parte do corpo.

– Priscila, acorda, por favor. Sua filha precisa de você, ela é uma menininha linda.

Meu pai como sempre dizendo a coisa certa. Minha vontade era de gritar, ele precisava saber que eu estava lutando.

– Não escolhi um nome ainda, estou esperando você, mas ti digo logo que ela tem cara de Yasmim. 

Ouvi meu pai falar sobre a bebê estava sendo doloroso, quanto mais ele falava mais eu tinha necessidade de vê-la, de segurá-la nos meus braços e ver com quem ela se parecia. Vê se ela tinha o mesmo jeito triste de olhar do pai, que enchia meu coração e me dava vontade de acalentá-lo. 

– Filha, – meu pai segurou minha mão, o que causou um choque elétrico — eu sei que está sendo difícil, mas eu estou aqui, e agora sua filha. Ela precisa de você, eu preciso. Tenho pedido todos os dias para Deus cuidar de você, mas se esforça, por favor, sozinho Ele não pode.  

– Priscila? – A voz do meu pai pareceu tranquila, ele me chamou como se eu estivesse olhando pra ele, o que achei estranho, porque eu continuava na escuridão. Mas foi quando ele apertou minha mão que entendi, eu estava segurando a sua, na verdade ele apenas retribuiu o aperto. Eu estava conseguindo, aos pouquinhos.

Tentei mais uma vez descolar minhas pálpebras e dessa vez consegui e mesmo com a vista um pouco embaçada e o incomodo da luz que me pareceu muito forte, a primeira coisa que eu vi foi o sorriso receptivo do meu pai.

– Oh minha filha, graças a Deus.

– Bem-vinda de volta Priscila!

Aos poucos fui me acostumando com a claridade, mas não soltei a mão do meu pai,  ele me passava a sensação de que não iria deixar eu voltar pra escuridão.

– Como você está se sentindo, Priscila?

Grande foi minha surpresa quando tentei responder e a voz não saiu, minha garganta estava seca e eu simplesmente não conseguia falar nada.

– Calma, sua voz não sair é normal. Você passou dias sem falar, então sua garganta deve está seca, beba esse copo com água.

Eu obedeci, torcendo pra que ele tivesse certo e não fosse nada demais. Quando a água passou pela garganta senti uma dor fina, mas ignorei. Um minuto depois senti a melhora, a boca já não estava tão seca, e quando tentei falar novamente a voz saiu baixinha.

– Pai…

– Como você está se sentido?

– Cadê ela? – Ele não pareceu surpreso por eu já saber que era uma menina.

– Logo você vai poder vê ela.

– O que aconteceu?

– Do que você lembra? – Quis saber o médico.

Forcei minha mente um pouco e respondi:

– De estar no carro e sentir muita dor, depois acho que apaguei.

– Eu te trouxe para o hospital e assim que chegamos te colocaram na sala de parto.

– O que foi muito complicado, Priscila, você estava apagada e fizemos uma cesária.

– E minha filha?

– Ela estava enrolada no cordão umbilical, – continuou e senti o medo tomar conta de mim, aquela informação era totalmente nova e mesmo não sabendo o que significava, entendi que era algo ruim – se não te operássemos naquela hora ela poderia morrer.

O primeiro aperto no coração como mãe veio e foi uma sensação horrível.

– Ela já estava rochinha, mas não se preocupe deu tudo certo. – Acrescentou rapidamente.

– E cadê ela?

– Está na incubadora, é onde os bebês que nascem prematuros ficam. – Meu pai já estava toda atualizado dos setores do hospital, o que me tranquilizou, porque tive certeza que ele estava cuidando para que minha filha ficasse bem.

– Quero vê-la, por favor. – Pedi.

– Priscila, nós vamos trazê-la, mas primeiro precisamos nos certificar de que você está bem.

– E comigo, o que aconteceu?

O médico se prontificou em prosseguir.

– Depois que passou o efeito da anestesia, você acordou por alguns segundos, perguntou por ela, mas antes que a trouxéssemos você apagou novamente. – Eu não lembrava daquilo. – Como eu disse, o parto tinha sido complicado, você perdeu muito sangue, chegamos a cogitar a possibilidade de salvar uma de vocês duas, mas milagrosamente vocês resistiram.

– Apaguei por quanto tempo?

– Três dias. – ‘Uau’, foi meu único pensamento.

– Como você está se sentindo?

– Estou bem, pai, a cabeça está doendo um pouco, mas só isso. Eu quero vê minha filha.

Meu pai olhou para o médico, parecia pedir silenciosamente que permitisse aquele encontro, e pelo visto convenceu.

– Tudo bem, irei pedir pra enfermeira trazê-la.

Eu estava super ansiosa para vê-la pela primeira vez, então agradeci quando meu pai começou a falar que a Clara e a Marta tinham ido todos os dias ao hospital. Aquele assunto me distraiu até ver pelo vidro a enfermeira trazendo algo enrolado em um pano, era tão pequeno que eu podia jurar, antes mesmo de vê, que conseguiria pegar com uma mão só.

Meu coração acelerou, olhei pro meu pai, e ele sorriu, a enfermeira entrou no quarto e foi se aproximando. Cada vez que ela chegava mais perto, eu sentia mais vontade de vê.

– Priscila, te apresento sua filha, que provavelmente se chamará Yasmim. – Ele brincou e eu sorri, mas foi de nervoso. Eu nem tinha visto ela ainda e já sentia que de alguma maneira aquela criança me dominava.

Abri os braços e a enfermeira, com muito cuidado, me entregou. Ela era da minha cor, mas apenas isso era meu, todo o resto parecia com o Fumaça, inclusive os olhos.

Ela me olhava atentamente como se estivesse tentando identificar aquela estranha que a segurava. Eu vi seu pai naquele olhar e no mesmo instante senti vontade de chorar, será que ele ficaria orgulhoso da nossa filha? Gosto de acreditar que sim. Segurei as lágrimas, e fiquei estudando cada parte daquele pequeno ser. Eu fiz um carinho em sua cabeça, e então ela sorriu, um sorriso rápido e tímido, mas foi o suficiente. Naquele instante eu entendi minha vida, foi como vê um flash de todos os momentos, eu entendi finalmente como Deus trabalha.

Assim que aquela criança tocou meus braços uma espécie diferente de amor encheu meu coração, naquele momento houve uma troca silenciosa de promessas. Eu prometendo cuidar, proteger e garantir que ela tivesse a melhor vida possível, e em troca ela prometia vim correndo pros meus braços no final de cada dia com um sorriso no rosto de agradecimento e mostrando o quanto estava segura e feliz.

E com Deus não seria assim? Ele cuida de nós, nos protege até de nossas próprias escolhas e no fim sempre temos que lembrar que devemos nossa vida a Ele, não como um fardo, mas como uma forma de agradecimento.  

Naquele breve instante com minha filha compreendi a verdade que neguei tantas vezes: Mesmo que eu fazendo às coisas da minha forma Ele deu um jeito de transformar o mal em bem. Mesmo eu fazendo diversas escolhas erradas, virando as costas para Seus ensinamentos, Ele agiu como Pai e não me deixou só. Mesmo que eu fizesse pouco caso de Sua presença Ele sempre esteve por perto.

Entender isso fez com que eu me sentisse a pior pessoa do universo. 

– O que foi filha, porque você está chorando assim?

– Vou levar a criança até ela se acalmar. – Disse a enfermeira, tirando a bebê dos meus braços e sendo seguida pelo médico até a porta.

– Eu sou uma pessoa horrível, Deus deve me odiar.

– Não diga isso, – me abraçou – Deus não odeia ninguém.

– Eu O culpava por algumas coisas, quando na verdade Ele sempre ajudou, mesmo quando escolhi errado. 

– Ele ama tanto você que nunca te abandonou. Deus não se importa com nossos pecados quando nos arrependemos, Ele não olha pro que fazemos de errado, Ele olha para o nosso arrependimento e sinceridade.

– Mas pai…

– Não tem mais nem meio mais Priscila. Assim como eu e sua… – Ele parou no meio da frase. – Assim como eu te esperei de braços abertos, Deus está esperando por você.

Abracei meu pai com mais força e em pensamento falei com Deus.

“Senhor, obrigada por tudo, por cuidar de mim mesmo quando não pedi Sua ajuda. Por mesmo sem que eu percebesse ter sarado minhas feridas e ter me dado forças para seguir em frente. Sei que não mereço e em troca te entrego minha vida.”

– Tem uma pessoa querendo te vê. – Quando ele se afastou não me senti sozinha, pelo contrário, Alguém continuou me abraçando e aquilo me fez sorrir de verdade, como há muitos meses eu não fazia, ou melhor, como eu nunca tinha sorrido na vida.  

– É a Clara?

Ele hesitou com a pergunta e achei estranho.

–É o Wilson, mas se você não quiser vê-lo tudo bem.

– Pode mandar ele entrar. – Essa permissão aumentou a sensação de paz que eu acabara de descobrir.    

– Tem certeza? – Meu pai estava surpreso.

– Sim. Pai só uma coisa, você perdoou minha mãe?

Ele refletiu na resposta por alguns segundos e por fim disse:

– Quando temos consciência que precisamos de perdão diante de Deus não nos importamos em perdoar o próximo. Não estou dizendo que foi fácil, ainda sinto a dor de ter sido enganado, principalmente por sua mãe, mas Deus tem me ajudado, quando eu choro Ele me conforta. Sem mencionar que está sempre me mostrando o lado bom de tudo isso.

– Que seria?

– Você. – Parou por alguns segundos e acrescentou:

– O mais difícil foi me perdoar, mas com muita luta e ajuda Dele eu consegui. Entendi que ficar remoendo o passado não ia adiantar de nada, principalmente quando recebi outra chance de fazer tudo certo.

Meu pai tinha sido levado a julgamento por cumplicidade em ocultação de cadáver em um homicídio culposo, mas milagrosamente o júri o perdoou.

Eu sorri e ele saiu.

Enquanto meu pai foi chamar o Wilson fiquei pensando em um milhão de coisas para dizer. Primeiro tive vontade de gritar, dizer que o que ele fez não era certo, mas lembrei de que eu não tinha o direito de julgá-lo. Depois pensei em jogar em sua cara como eu era feliz com o pai que ele me dera, mas não falei nem uma coisa nem outra.

– Priscila?

– Oi. – Respondi tímida.

– Como você está se sentindo?

– Bem. – Meu nervosismo era nítido.

– Faz tempo que quero falar com você… – Foi se aproximando e confesso que fiquei meio desconfortável.

“Mas foi covarde demais pra isso.”

– Eu imagino.

– Priscila, eu não contei tudo por que você descobriu, já tinha decidido fazer isso quando você fugiu.

– Ah.

Diante do meu silêncio ele continuou, mas não menos nervoso do que eu.

– Não pense que deixei de pensar um dia sequer em você. Sempre que ti via com a Clara me sentia a pior pessoa do mundo por ter sido covarde demais para assumir meus erros.

– Então eu fui um erro? – Não pude deixar essa passar.

– Claro que não! O meu erro foi trair minha esposa, mas você não tinha culpa de nada e eu não tinha o direito de fazer o que fiz, mas confesso que senti orgulho de você a cada ano que via como estava crescendo bem. Tentava amenizar minha culpa dizendo que tinha feito a escolha certa, pois eu nunca seria capaz de fazer o que o Antônio fez.

“Porém não posso negar que descobrir a verdade sobre sua mãe me deixou sem chão. Desde então não consegui dormir direito imaginando o que poderia ter acontecido com você e que a culpa seria sempre minha. Pode não parecer verdade, mas à minha maneira eu amo você. Não sou capaz de desenhar aqui como me senti sempre que íamos a alguma apresentação da escola de vocês e era sempre para os braços do Antônio que você corria. De certa forma, parte de mim esperava que você viesse até mim. Eu sempre tive um relacionamento um pouco conturbado com a Clara porque sempre me julguei um péssimo pai por ter te abandonado.

Quando descobri que você era alvo do Miguel vi uma chance de me redimir, imaginei que se te salvasse, um dia você poderia me perdoar. Era como se te manter segura fizesse você ter uma dívida comigo e eu só ia exigir o seu perdão. Mas eu não sou capaz disso, Priscila, não posso exigir nada de você. Sei que tenho sido um péssimo homem, e por falar nisso, sua tia não tem culpa de nada. Ela foi pressionada por mim. Ela te ama.

Sei que não mereço o seu perdão e por isso passei tanto tempo sem te procurar, tinha medo da sua reação, de ouvir de você todas as verdades e acusações que me fiz. Mas parte de mim também tem medo de te decepcionar novamente, por isso a escolha é sua daqui pra frente. A imprensa está em cima da minha família, eles estão fazendo especulações, mas nada confirmado, e não será se você não quiser. Eu não tenho mais receio de gritar pro mundo que você é minha filha, mas tenho muito medo de não suportar a ideia de ti machucar outra vez. Por isso, Priscila, sinta-se à vontade para me odiar.”

Quando ele terminou de falar eu estava sem ar. Era como se parte de mim tivesse sempre desejado ouvir aquilo. A alegria que senti por aquelas palavras parecerem tão reais era maior do que eu gostaria e para minha surpresa eu não tive outra reação senão a de abraçá-lo – acredite, aquilo pareceu a coisa mais certo que já tinha feito na vida.

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