Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 41

Quatro anos depois

“Eis que faço novas todas as coisas.” (Apocalipse 21:5)

– E foi assim que tudo aconteceu.

O silêncio em resposta me fez entender que de nada tinha adiantado eu contar toda a história. Ela simplesmente não ouvira.

– Mãe, eu já vou indo, o pai ficou com a Nanda e sempre tenho que levá-la ao dentista de tanto doce que eles comem quando estão só. – Eu disse, mesmo sabendo que minha presença ali não passava de um borrão.

Já vai fazer cinco anos que minha mãe está internada e não houve nenhuma melhora em seu quadro. Meu pai sempre vem visitá-la, com o tempo isso deixou de ser algo doloroso para ele, mas pra mim não. Eu nunca me acostumei – e desconfio que isso nunca vai acontecer – em vê-la com o olhar distante, perdida em seu próprio mundo.

Essa é a terceira vez que eu venho e isso só aconteceu porque os médicos tinham esperança de que ela reagisse caso eu lhe contasse tudo o que tinha acontecido. Mas infelizmente ela não mudou de posição nem por um segundo.  

– Como foi com sua mãe? – Perguntou cheio de esperança assim que entrei em casa.

– Tudo na mesma, pai.

Ele não disse nada e eu acrescentei.

– O senhor precisa continuar sua vida, eu tenho certeza que Deus não quer vê-lo sozinho pra sempre. Infelizmente não podemos fazer mais nada pela mamãe, apenas orar.

– E existe coisa mais valiosa que a oração? Sem falar que é na saúde e na doença, lembra? – Por mais que tentasse, ele não conseguia esconder a tristeza na voz ao lembrar do estado de minha mãe.

Como eu não tinha resposta, escolhi abraçá-lo.

– Cadê a Nanda? 

– Já foi dormi.

Segui até o quarto, que antes era meu, para dá uma conferida nela e a encontrei de olhos bem abertos. 

– Pensei que já estivesse dormindo.

– Estava, mas tive um sonho ruim e acordei. – Respondeu com a voz dengosa.

– E por que não chamou seu avô? – Perguntei sentando na cama.  

– Porque eu queria falar com você, mamãe. – Ela falava tão sério que parecia até gente grande, tive vontade de rir, mas passou assim que ela continuou. – Eu sonhei com o papai, ele estava me empurrando na cadeira de balanço, mas ai quando eu olhava pra trás ele não tinha rosto. – Ouvir aquilo partiu meu coração. – Por que você nunca me mostrou uma foto dele? Todo mundo na minha escola pergunta como ele era e não sei falar nada.   

– Meu amor, – sentei ela nas minhas pernas e aconcheguei em meus braços – seu pai não gostava de tirar fotos, mas se você quiser saber como ele era é só se olhar no espelho. – Ela me olhou confusa. – Você é igualzinha a ele. Sabe quando você está assistindo um desenho que dá risada? – Ela confirmou com a cabeça. – Você ri igual a ele. – Seus olhos profundos se iluminaram com aquela revelação.

– Você não está mentindo pra eu ficar mais feliz?

– Eu já fiz isso alguma fez?

Ela não respondeu, mas deu um abraço que iluminou meu coração.

Pensei em dizer que ela tinha os mesmos olhos dele, sem falar na mesma personalidade que tendia a me levar a loucura e ao mesmo tempo me fazer amá-la ainda mais, mas deixei isso para outra vez.

– Fica um pouquinho aqui?

– Claro! – Ela se deitou novamente, se enrolou com a única lembrança do pai que tinha – uma camisa – e fechou os olhos. Fiquei observando enquanto tentava pegar no sono novamente e me perguntei o que ela diria se soubesse de tudo o que os pais já passaram. Confesso que já cogitei nunca contar tudo pra ela, mas lembro como se senti quando descobri a própria verdade da minha vida.  Doeu mais saber que tinha sido enganada do que ter que lhe dá com tudo.

Porém eu só farei isso quando ela estiver maior e for capaz de entender tudo. Por hora ela só quer criar as próprias imagens do Fumaça e eu não posso lhe tirar esse direito. 

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