Eu odeio Ele

Eu odeio Ele – Capítulo 42

“Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.” (Apocalipse 21:4)

– Nós temos que ir, Pri, vai ser o máximo!

– Eu não vou. Odeio muita gente em cima de mim.

– O pai vai querer você lá, – eu sabia que a intenção dela não era agradá-lo – você sabe como a imprensa fica em cima sempre que abre mais uma loja.

– Ele sabe que odeio câmeras.

– Priscila, você precisa ter uma vida social, ficar indo só pra faculdade e pro trabalho não vai ti fazer arrumar um namorado.

– Primeiro, eu tenho uma vida social e segundo não quero arrumar um namorado!

– E eu finjo que acredito.

A Clara tem pegado no meu pé com isso há algum tempo e já estou ficando irritada.

– Você não tinha aula agora?

– Fui!

Minha aula só começava em meia hora, então decidi ir lanchar antes. 

Fiz o pedido e estava esperando na mesa, quando um rosto conhecido entrou.

Vê aquela fisionomia me fez voltar no tempo para um período em que não passava de uma menina mimada. Um tempo em que eu não fazia ideia se ia sobreviver a guerra que travava com Deus.

 Era o Ricardo. Não pensei duas vezes e fui correndo falar com ele.

– O que você está fazendo aqui? Não ouviu falar que já sou crescida e não preciso de proteção. – Ele se virou assustado na direção da minha voz e ficou surpreso em me ver.

– Mas pelo visto não deixou de ser marrenta. – Brincou e me abraçou. Aquela proximidade fez meu coração bater mais forte, acredito que pela alegria de ver um amigo.

Esperei que ele fizesse o pedido e fomos em direção de onde eu estava sentada.

– O que você está fazendo aqui?

– Estudando. – Continuava com o mesmo rosto de menino, apesar dos traços mais maduros.

– Desde quando policial faz faculdade?

– Desde que ele descobre que não nasceu pra isso e resolve tentar direito. Passei em um vestibular nessa universidade e aqui estou. 

– Eu sempre soube que você não levava jeito pra coisa. – Disparei e me arrependi na hora. – Desculpe.

– Pena que eu demorei tanto pra descobrir.

– Seu fraco ainda é acreditar nas pessoas?

– Sim. – Ele sorriu.

– Então fica longe de direito criminal.

– Pode deixar, e você o que anda fazendo?

 – Estudando, trabalhando e sendo mãe de uma menina.

– Fico feliz que tenha se acertado. – Ele pareceu tão sincero que por algum motivo fiquei sem graça.  

– Como você sabe? – Perguntei diminuindo o volume da voz.  

– Você está diferente. – Tomei isso como um elogio. – Qual o nome da sua filha?

– Fernanda e antes que pergunte não se parece comigo.

– Sério? – Ele pareceu decepcionado. – Isso é muito bom pra ela, – acrescentou e eu rir – já é difícil controlar uma pessoa teimosa, imagine duas.

– Do mesmo jeito que você nunca controlou sua língua, né?

– Esse foi um dos motivos que me fizeram sair da polícia. Vou tentar usar esse defeito para o bem.

– Acho que agora você irá se encaixar. – Falei com sinceridade.

Ele assentiu, meio sem graça, e ficou me encarando por uns 4 segundos – acredite, eu contei, pois sustentei o olhar, mas posso jurar que estava vermelha.

– E sua mãe como está?  – De repente sua voz ficou meio rouca, tremida. Será que ele estava nervoso?

Fiz um resumo do estado dela e da minha última visita.

– Imagino o quanto seja difícil ter que lidar com essa situação, principalmente seu pai.

– Verdade, mas uma vez alguém me disse que não somos capazes de nos acostumarmos com a dor, porém podemos aprender a lidar com ela, e acho que é isso que estamos fazendo. Cada dia descobrimos uma nova maneira de enfrentar a situação.

Seus olhos se iluminaram.

– Você ainda lembra disso?

– Claro! – Admiti meio envergonhada.

Começamos a conversar de outras coisas, ele fez algumas perguntas sobre a Nanda, e por algum motivo o clima pareceu mais leve do que o normal.  

– E sua tia?

– Está bem, sempre vai lá em casa, conversa com a Nanda, tem proximidade com a gente, mas nossa relação continua sendo de filha e sobrinha. Apesar de não ter mais raiva dela, ainda é estranha vê-la como mãe.

– Fico realmente feliz que você esteja enfrentando tudo da maneira certa.

– Quando paramos de lutar contra Deus sabemos o que e como fazer, não é?

– É sim, e pelo visto você só fingia desinteresse no que eu falava.

– Eu nunca fiz isso! – Fiz cara de ofendida. – Sempre levei muito a sério suas palavras fora de hora.

Nós dois rimos e pela primeira vez em anos meu coração bateu sutilmente mais forte – dessa vez, eu tinha certeza que não era pelo encontro com um amigo –. Talvez tenha sido impressão minha, mas acho que os olhos do Ricardo ficaram mais brilhosos quando o garçom se aproximou e disse que meu pedido demoraria um pouco.  

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s