Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 1

– Qual o seu problema, Gabriela? É só uma festa! – A Isabel falava tão alto que precisei usar toda a minha força de vontade para não desligar na cara dela. 

– Eu não entendo porque você se importa tanto, é só mais uma comemoração do meu pai. 

– Seu ponto de vista é muito negativo, amiga. – Suspirei, a Isabel ia começar uma explicação psicológica sobre a importância de frequentarmos eventos sociais. – Veja que é um momento de interagir, conhecer novas pessoas… – Uma oportunidade de nos exibirmos, de mostrarmos no Instagram o quanto somos ricas, fúteis e felizes. Completei mentalmente o que não tinha sido dito.

– Isabel, é só uma festa. – Falei, derrotada. 

– Diz isso pra sua mãe, e você vai ver como ela concorda comigo. 

– Porque vocês duas são iguais! – Meu tom saiu mais amargo do que eu queria. Sempre que eu e minha melhor amiga discutimos, jogo na cara dela o quanto é parecida com Rosemary Ferri. No começo da nossa amizade ela achou que era um elogio, depois que passou a ouvir minhas reclamações sobre minha mãe, entendeu que era um insulto, e dos grandes. 

– Você quem sabe, Gabriela, eu vou de qualquer jeito. – Desligou o telefone, antes que eu tivesse a chance rebater. Ela não precisava da minha presença para frequentar os eventos promovidos pela minha família. Minha mãe parecia se identificar mais com ela do que comigo, então sempre a chamava para todo lugar.

Confesso que isso me incomoda um pouco. É como se Rosemary gostasse mais da companhia da Isabel do que a da própria filha. Na verdade, é  isso mesmo, porque até nos eventos que eu compareço, minha mãe faz questão de andar com a Isabel para cima e para baixo, só lembra de mim na hora das fotos ou entrevistas. 

Uma vez um repórter do Papeando, um dos principais Instagram’s de fofoca do Brasil, perguntou se ela tinha me trocado por uma versão loira. Minha mãe hesitou por alguns segundos antes de responder, deu uma risadinha e disse: “Jamais, minha filha é única”. Mesmo assistindo à cena pelo story do Ig, vi a mentira escorrendo em seus lábios. 

– Você vai fazer todo mundo se atrasar, maninha. – O Artur adentrou no meu quarto, me distraído das lembranças. 

– E desde quando você voltou a se importar? – Meu irmão sempre foi mais adepto dos eventos de família do que eu, mas de uns meses para cá, mais especificamente quando começou a namorar Manuela Sanges, a garota mais nerd e estranha da escola, ele deixou de ligar. Para o desespero dos meus pais. 

– Eu não estou nem aí para essa merda toda, mas hoje é diferente, o papai vai comemorar um negócio importante, ou você já esqueceu que esse contrato com a Deah salvou a empresa? 

– Você devia era se esforçar mais para esconder a ironia na voz. – Alfinetei e meu irmão não disse nada. Jogou um travesseiro na minha cara e saiu do quarto. 

Respirei fundo e me levantei. Em partes, o Artur estava certo, nós tínhamos que comparecer a essa maldita festa. O negócio era importante, dois dias atrás minha mãe me obrigou a dar de presente para o meu pai uma garrafa de Dom Pérignon Vintage, o champanhe preferido dele. 

Antes de entrar no banheiro, lembrei que ainda não tinha curtido a foto que ele postou no Instagram com a bebida, me agradecendo e me marcando. Fiz isso rapidamente, e digitei um comentário padrão de “eu te amo, pai”. 

Resolvi fazer um story antes de tomar banho e pedi ajuda aos meus seguidores para escolher meu look. Eu sempre fazia isso quando não estava a fim de me arrumar. Postei uma foto com dois vestidos, um preto tomara que caia e um rosa com um decote delicado na frente. Fiz uma enquete e deixei rolando até terminar a chuveirada. 

Dei um pulinho pra frente quando olhei no espelho, não sei se pelo meu rosto cansado, por causa da noite mal dormida, ou do susto da sombra que apareceu atrás de mim. É sempre assim, não importa se já faz mais de 5 anos que eu convivo com o Trix, eu sempre me assusto quando ele chega. 

– O que você quer agora? – Não fiz questão de esconder o mau humor. 

– Nada demais… – Sussurrou no meu ouvido, tão baixo que eu quase não compreendi. – Só vim te lembrar que eu estou aqui para o que você precisar. 

E foi com aquelas palavras que eu tinha certeza: Algo de muito ruim ia acontecer naquela noite.  

 

 

 

 

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