Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 4

Depois do reencontro, achei melhor sair dali, caso contrário, o arrepio e a sensação de escuridão não passariam. Era sempre assim quando o Trix estava por perto. Ele me fazia companhia? Sim, mas não posso negar que um clima de trevas o rodeava, e isso me assustava um pouco, por mais que eu tentasse disfarçar. 

Com passos trôpegos, desci do salão sem olhar pra trás. Provavelmente aquele era a última vez que eu via meu pai, mas não me importei, eu queria ir embora. Nunca tinha visto a morte tão de perto, ainda mais de maneira tão repentina, e isso me deixou sem rumo. Sem saber o que fazer.

Em um minuto eu me preparava para atormentar meu pai, assustá-lo, e no outro ele estava agonizando na minha frente. Somos mesmo assim tão frágeis? 

O vazio no meu peito ganhou uma nova dimensão. Ele agora estava no meu coração. 

– Gabriela? – Me virei para ver quem tinha impedido minha saída total daquele prédio. – Aonde você vai? – Era o Mateus. Porque ele se importava pra onde eu ia? Eu nem conhecia aquele garoto. 

– Acho que pra casa… – Por mais que quisesse, não consegui soar convincente.

– Nesse estado? – Confusa, olhei para o meu corpo, para ver se tinha alguma coisa errada, não vi. – Pálida e assustada. – Explicou, com uma voz de quem é entendedor das coisas. Neste instante foi a primeira vez que odiei ele. Eu não suportava pessoas que achavam que sabiam de tudo. 

– Sim, algum problema? – Devolvi. 

– Só acho que você não tem condições de sair sozinha, porque não chama a Isabel para ir com você? – Sugeriu, com um tom carregado de uma preocupação desnecessária. 

– Fica na boa, eu sei andar sozinha. – Falei, impaciente. 

– Gabriela, você está em choque…

– Cala a boca! – Ele calou, visivelmente assustado. – Ninguém sabe como eu estou, ninguém quer saber como eu me sinto de verdade, então pode parar de fingir que se preocupa. Você acabou de me conhecer, não precisa ficar fazendo o que manda a etiqueta.  – Minha vontade era de acrescentar que nem mesmo eu sabia como me sentia. 

Um silêncio se instalou entre nós, e só foi quebrado porque algumas pessoas começaram a aparecer. O barulho de flash também me despertou e eu sabia que se continuasse encarando o Mateus, amanhã nossa foto estaria estampada nos jornais com alguma fofoca maldosa. 

Repórteres surgiram igual mosca e eu entrei em pânico. Odiava a imprensa, ela era um degrau que meus pais usavam para reafirmar a ideia de família perfeita. Eles eram o dono do circo, e a mídia vendia os ingressos. 

“Gabriela Ferri, você tem ideia do que aconteceu lá dentro?”

“Como você se sente?”

“Quem é esse garoto? Seu namorado?”

Repórteres pareciam urubus em cima da carniça, e isso me deu vontade de vomitar. Eles iriam lucrar com a minha suposta perda. Eles iam me pintar conforme vendesse mais jornais. 

– Vem comigo. – O Mateus se aproximou e me guiou para a tão desejada porta de saída. Os jornalistas vieram atrás e eu sabia que isso era um péssimo sinal. O que eles queriam comigo? O choro falso da viúva não era mais interessante do que uma adolescente saindo sorrateira com um garoto?

Paramos na entrada do portão de ferro da empresa e por sorte, o Sandro, motorista da minha mãe já estava de prontidão. 

“Gabriela, fala com a gente!” – Insistiam enquanto eu esperava o Sandro se aproximar.  

– Entra. – Ordenou, e quando eu já ia murmurar um “obrigada”, não por agradecimento, mas por etiqueta, ele se enfiou no carro também. 

– O que você está fazendo? – Quase gritei, me encolhendo no banco para não ver os flashes. 

– Posso ter acabado de te conhecer, mas não sou covarde e irresponsável para deixar uma garota que acabou de perder o pai sair sozinha, sem nem ao menos saber para onde vai. – Ele falava como se fosse meu guarda costas, e isso me irritou. Eu não precisava de proteção, eu sabia me virar. 

– Senhorita, o que aconteceu? – A voz robótica do Sandro escondia o susto que ele deve ter tomado com aquele informação. 

– Só dirigi, Sandro. Me tira daqui. – Ele hesitou, apesar de ser treinado para seguir ordens, o motorista era fiel a minha mãe há mais de 15 anos, e fazia de tudo para não decepcioná-la, principalmente quando se tratava das minhas loucuras. 

Optei por não responder ao insulto. Minha mente estava confusa e zonza, em parte por causa do álcool. Eu sentia como se tudo aquilo fosse um filme, nada parecia real. Tinha a sensação de que quando chegasse em casa tudo estaria acabado. 

Meu telefone tocou, me assustando. O nome na tela não me surpreendeu, a notícia do que tinha acontecido já devia está na mídia, na internet… Eu era filha de Santiago Ferri, e não tinha certeza de nada, não sabia se ele estava realmente morto, mas a imprensa, o mundo já sabia. 

– Você não vai atender? – Não respondi. Deslizei o botão verde pro lado e coloquei o celular no ouvido. 

“Preciso te ver.” A voz do meu irmão estava trêmula, chorosa. 

“Onde você tá?” 

“Na casa da Manoela…” Ele me pareceu abalado e eu não consegui dizer que não iria. 

Falei que chegava em 15 minutos e mandei o Sandro mudar de caminho. Mais uma vez ele hesitou, mas obedeceu. 

– Vai ficar tudo bem… – Sua voz era insegura, e eu sabia que só estava dizendo aquilo por educação. Era sempre assim, as pessoas nunca sabem o que dizer diante de tragédias, então ao invés de optarem pelo silêncio (que é uma ótima opção, já que não machuca, não ilude, não mente, não engana), acabam falando os clichês que no fundo todos sabemos não passarem de conveniência. 

 

– Olha, não precisa falar nada, ok? – Minha voz soou mais ríspida do que eu planejei. – Foi legal da sua parte me ajudar a fugir dos jornalistas, mas foi só isso, beleza? 

– Caramba, você realmente é osso duro de roer. – Disse, sem parecer nem um pouco abalado com minha grosseria. 

– Tá me chamando de cachorro? – Perguntei, em um tom raivoso.

– Não! – Se apressou em afirmar, mas já era tarde, eu já tinha interpretado a ofensa do meu jeito. – Você só não é aquele doce todo que parece no instagram, muito menos aquela autossuficiência. 

 

Então ele era meu seguidor. A possibilidade de ter me revelado sem máscaras me assustou, tentei recuperar o controle e manter a compostura.  

– Olha, eu só estou nervosa com…

– Para com isso. – Me interrompeu. – Eu não sou seu fã, não precisa se preocupar em manter as aparências comigo. Pode se mostrar sem nenhuma máscara, eu sempre soube que elas existem. – Seu tom não era acusatório, estava mais para um terapeuta querendo deixar claro que em sua sessão o paciente não seria julgado. 

– Você é maluco, garoto! – Falei com o máximo de desprezo que consegui. 

– Chegamos. – Sandro anunciou, nos impedindo de continuar a discussão. 

A Manuela morava em um bairro de classe média de Goiânia. Sua casa tinha dois andares e ficava em frente ao uma pracinha super limpa e bem conservada. A grama de lá parecia que nunca tinha sido tocado por algum pé. O engraçado era que sempre tinha gente lá. Crianças, namorados, amigos… A pracinha nunca ficava vazia. Eu sabia disso porque já tinha ido buscar o Artur lá com minha mãe e sempre o pegávamos no mesmo banco de sempre. A garota nunca tinha nos mandado entrar. Eu também não fazia questão… 

– Não precisa me esperar, Sandro, pode voltar para pegar minha mãe. 

– Ok. – O infeliz não conseguiu nem disfarçar o sorriso de alívio. 

– Você quer que eu vá com você? 

– Pra onde? – Perguntei, confusa, já abrindo a porta. 

– Ué, você não sabe pra onde vai? – Ele pareceu mais confuso ainda, e me seguiu, saindo do carro. 

– Pode ir embora, garoto, eu não preciso de segurança. 

 

Vendo que a discussão provavelmente se estenderia, o Sandro deu partida sem pensar duas vezes. 

– E eu não quero ser seu segurança, só estou tentando ajudar. 

– Eu não preciso de ajuda, vai embora! 

– Essa é a sua casa? – De repente, entendi o que estava acontecendo ali. O Mateus não passava de um metido a herói. Ele tinha visto que eu estava em apuros, ao menos era o que pensava, e tentou me ajudar, ser o grande salvador da Gabriela Ferri, logo depois de ela ter presenciado a morte do pai. 

– Não, mas vai embora agora! – Gritei, já apertando a campainha. Ele deu um pulo pra trás, assustado com o volume da minha voz e levou alguns segundos para finalmente ceder. 

– Ao menos me diz se aí está alguém que você confia. – Me perguntei se aquele garoto era louco. Bem que ele podia ser. Um verdadeiro lunático, querendo me perseguir. 

Apesar dessa constatação, eu não conseguia sentir medo do Mateus. 

– Ai dentro tem alguém que mataria por mim. – Falei, cheia de certeza. – Não se preocupe, pode ir embora. 

– Não antes de você entrar. 

Eu não tive tempo de responder mais, o portão era automático e se abriu sozinho. Eu me virei e entrei sem olhar pra trás e agradecer. Algo me dizia que eu tinha agido errado, apesar de ter acabado de conhecer aquele garoto, ele me pareceu muito diferente, sei lá… ele tinha uma paz, uma calma… Por alguns instantes de completa insanidade eu desconfiei que talvez, só talvez, ele não fosse bonito apenas por fora, mas por dentro também. 

 

Continua…

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