Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 5

Apesar de estar escuro e de nunca ter ido à casa da Manuela, eu não tive dificuldades de encontrar a porta de entrada. Um caminho de pedra rodeado por flores me guiava. 

A porta grande e branca estava entreaberta e entendi aquilo como um convite. Entrei, e de início, não vi ninguém. A luz da sala estava acesa, passei os olhos, vi uma mesa enorme ao lado, e imaginei que ali deveria ser a sala de jantar. Uma escada mostrava onde deveria ser os quartos. 

Receosa, entrei. Meu irmão estava ali em algum lugar, eu precisava encontrá-lo. 

– Manu? Artur? – Chamei, não muito alto. 

– To aqui. – Uma voz abafada chamou minha atenção e só então percebi que meu irmão estava sentado no chão, na frente do sofá. Me aproximei e a cena que eu vi me assustou mais do que ter presenciado o nosso pai ter um ataque mortal de tosse e babar do meu lado. 

– Artur, o que aconteceu? – Meu irmão estava abraçando as pernas e com o rosto encostado nos joelhos. Ele se balançava para a frente e para trás. Diante dele, uma mesinha de centro, cheia de revistas espalhadas, copos vazios e uma garrafa de tequila pela metade. Além disso, o canivete suíço que tinha sido do meu avô. 

– Você já sabe… – Fiquei em dúvida se ele se referia ao nosso pai ou à sua suposta tentativa… Engoli o pensamento e perguntei de novo.  

– Artur, o que aconteceu? – Devagar, me aproximei e sentei no sofá. 

– O papai… – Ele parecia prestes a soluçar. – Ele… você não sabe? 

– Eu não sei direito… – Comecei, tentando não parecer tão insegura. – Eu estava lá do lado dele e de repente ele começou a tossir. Achei que tava querendo chamar a atenção, mas aí ele ficou sem ar e começou a babar. Depois disso, tudo parece um borrão… Quando eu vi ele estava com os olhos arregalados e parecia não respirar. 

Meu irmão tirou a cabeça do meio das pernas e olhando fixo pro chão soltou as palavras que me tiraram o ar. 

– Fui eu. – Ele não hesitou. 

Depois de alguns segundos tentando assimilar o que tinha ouvido, consegui abrir a boca. 

– Você o que? – Perguntei, pausadamente. 

– Foi eu que o matei. – Ele parecia tão seguro do que dizia que cheguei a pensar que tinha enlouquecido. 

– Você bebeu demais, Artur…

– Gabriel., – Ele chamou meu nome do mesmo jeito que fazia quando éramos pequenos e ele ia me repreender por alguma coisa. – Eu matei o papai, foi eu! 

– Para com isso, Artur, você está me assustando! – Levantei do sofá e isso me deu uma posição de superioridade. Meu irmão parecia tão frágil sentado naquele chão, tremendo, com um canivete e bebida na sua frente.

– Eu envenenei ele! Fui eu! – Por alguns segundos me pareceu que queria afirmar aquilo mais pra ele do que pra mim.  

– De onde você tirou isso, Artur? – Eu não conseguia deixar de pensar que ele tinha enlouquecido. 

– Nós dois o odiávamos, a mamãe também não o suportava. Ele era um ser asqueroso e implacável, um idiota que nunca lembrava da gente. Eu cansei disso e resolvi colocar um ponto final. – Ele não me encarava em nenhum momento, mas falava de um jeito tão frio e firme que parte de mim começava a acreditar no que dizia. 

– Mas você nem estava lá… – Argumentei com a voz fraca. Aquilo não podia ser verdade. Meu pai era mesmo tudo o que o Artur disse e muito mais, porém o meu irmão não é um assassino…

– Paguei alguém para envenenar sua bebida.

– Artur, você está dizendo asneiras, está bêbado. 

– Eu estou lúcido, Gabriela! Sei muito bem do que estou falando! – Agora ele gritava, coisa que nunca fazia comigo. 

– Você usou drogas? 

– Quê? Tá maluca? 

– É a única explicação para você está dizendo essas coisas sem sentido! Aliás, o que você tá fazendo aqui na casa da Manuela, deveria está na festa! Nós devíamos está lá, principalmente agora! A mamãe precisa de nós! Amanhã o mundo inteiro vai está falando! 

Meu irmão se levantou diante das minhas palavras e começou a gritar mais alto ainda.

– A mamãe sabe muito bem se virar sozinha! Você tá igual a eles, Gabriela? Desde quando se preocupa com o que os outros pensam? 

– Desde o momento que meu irmão enlouqueceu e me chamou na casa da namorada para dizer que matou nossa pai! 

– É a mais pura verdade! Eu fiz um favor ao mundo mandando aquele demônio para o inferno! – Sua voz estava carregada de um ódio que eu nunca tinha visto. Eu sabia que o Artur odiava e desprezava nosso pai, mas nunca tinha percebido a profundidade desse rancor. 

– E agora o que acontece? – Resolvi jogar o jogo dele, mesmo sem ainda acreditar naquilo. – As pessoa descobrem e você vai preso? – Ele não mudou de postura diante das minhas palavras. – Não pode ser verdade… – Murmurei, incrédula. 

– Infelizmente é, Gabriela. – Ele sentou no sofá, com as mãos na cabeça, a imagem do fracasso.

– Artur, o que você fez? – Falar parecia me exigir um enorme esforço. – Você tem ideia da loucura que vai ser? – Minha cabeça começou a girar ou eram as coisas na sala? De repente o Artur virou 2, mas eu ainda consegui falar. – Você… você destruiu sua vida, nossa família. 

– Família? Nós nunca fomos uma, Gabriela. – E ouvindo isso, eu sentia que ia desmaiar. Sentei na poltrona atrás de mim e meus olhos começaram a vacilar, mas não fecharam com tempo o suficiente para me impedir de ver meu irmão tirar uma arma escondida atrás da almofada no sofá e dá um tiro na própria cabeça.

Continua…

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