Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 8

Antes do médico entrar no quarto e me dá alta, alegando que tinha sido apenas uma queda de pressão por conta de estresse, minha mãe ligou. 

 

Ela disse que não poderia ir me vê, estava resolvendo as coisas do enterro e pediu que eu fosse direto pra casa. Além de destacar que eu estava proibida de ver o Artur. Meu irmão estava “muito abalado com o que tinha acontecido e falando coisas sem sentido”. 

“Não fale com ninguém.” Ordenou, antes de desligar. 

“Entendi, mãe.” Murmurei. Eu estava chateada por ela não ter ido me buscar. O que era tão burocrático assim em uma morte que estava tomando todo o tempo dela? 

“Se alguém ligar lá pra casa, não atenda, a imprensa tá alucinada, fazendo um circo em cima da morte do seu pai. Não faça nenhuma besteira, Gabriela, já tenho que me preocupar com seu irmão, não me decepcione.”

A preocupação dela era só com o Artur. Respirei fundo. Sempre foi assim. O Artur era o sensível e dramático, o cafajeste, o típico filhinho de papai que pode manchar a imagem de família perfeita. 

E eu? Eu era a patricinha que vivia em festas, mas que fazia de tudo para ter uma vida milimetricamente planejada e controlada por mim mesma. Comigo nada poderia sair dos eixos, as pessoas não esperavam que eu fosse explodir. 

“Mãe, não precisa se preocupar.” Falei, me sentindo de saco cheio. 

“Mais tarde vou pra casa e conversamos. O Marconi vai jantar com a gente, precisamos resolver alguns assuntos da empresa. 

Meu pai não tinha sido enterrado ainda, mas a prioridade era o dinheiro. 

Desistiu sem esperar meu tchau. Era sempre assim. Ela dizia o que queria e se mandava. Quando aparecia, tinha que está tudo conforme sua ordem. 

Respirei fundo e saí do quarto, a Isabel já me esperava no estacionamento com o pai dela. Fui andando a passos lentos, eu não gostava muito do Eduardo Valle. Ele é legal, me trata bem, não suporta a presença da própria filha, e o desprezo que ele trata ela, me irrita. Eu desconfio que a Isabel ressuscita lembranças da esposa morta.  

Não que ele ou a Isabel tivesse me dito isso alguma vez, mas não era precisa ser um gênio da psicologia para saber disso. O Eduardo perdeu a esposa no parto da primeira filha do casal, filha que ele não queria, – essa parte a Isabel me confessou, depois de uma noite de bebedeira -, e desde então deixa a menina nas mãos das empregadas. 

O Eduardo vive viajando, nunca atende as ligações da Isabel ou aparece nas datas importantes, nem mesmo no aniversário dela.

Eu admiro a Isabel. Minha amiga consegue lidar muito bem com a solidão, pelo menos melhor do que eu. É claro que ás vezes ela chora sem motivo e faz mais drama do que uma situação exige, mas eu não a culpo. As únicas pessoas que convivem com ela dentro de casa são as empregadas, que mais parecem robôs. O Eduardo só fica em casa no final de semana, nos outros dias chega super tarde. 

A Isabel diz não ter ódio dele e eu acredito. Acho que pior do que rancor, minha amiga guarda carência. 

– Se precisar, pode me ligar. – A Isabel disse, me tirando das minhas análises e me alertando de que já tínhamos chegado na minha casa. 

– Ok, amiga. – Antes de sair do carro, lembrei de agradecer. – Obrigada, Eduardo. 

Ele murmurou um “de nada” tão inaudível que eu achei ter imaginado. 

Eu moro em uma cobertura de um prédio de 22 andares, que fica de frente pra uma pracinha cheia de árvores – como você pode perceber, Goiânia é cercada de verde –, e com tudo dentro: academia, piscina, espaço para leitura, salão de festa, todas essas coisas que condomínios caros tem. Porém eu odeio esse lugar. 

Não o prédio em si, mas tudo o que ele representa. Primeiro, eu odeio altura, quanto mais alto é alguma coisa, mais eu quero me distanciar. O céu pra mim é algo inalcançável, e detesto tudo o que parece fora do meu controle. 

Segunda razão pelo qual odeio meu apartamento é a quantidade de grades. Os moradores do condomínio são ricos lunáticos que vivem com medo de serem sequestrados, por isso a segurança é extremamente reforçada. Já tentei por vezes sair à noite, escondido da minha mãe, mas os porteiros barram, alegando que sou menor de idade e só posso passar do portão para calçada com autorização de um responsável. Eu realmente me sinto em uma prisão. 

E a terceira e última razão pelo qual odeio o Viles Clube é o fato de ser minha casa. Pra mim, casa não é sinônimo de lar, de aconchego e paz, mas sim de brigas, separação e mágoas. É um lugar onde todos podem revelar quem são de verdade, e nem sempre o que tem por trás da máscara é tão bonito e agradável. Ás veze machuca, faz cortes que levam anos para cicatrizar. 

– Olá, Gabriela, a senhora Rosemary pediu que eu preparasse um lanche para você. – A Cristina disse, de forma robótica, assim que entrei em casa. Percebi que seu rosto estava mais pálido e assustado do que de costume. 

– Valeu, mas não to com fome, vou tomar um banho, estou imunda. 

Assim que entrei em baixo do chuveiro, comecei a repassar os acontecimentos das últimas 48 horas. Todas as cenas ficavam claras na minha cabeça. Cheguei na festa, bebi, fique com raiva, subi no palco para envergonhar ou ao menos meter medo no meu pai, ele começou a engasgar, perdeu o ar e depois ficou com os olhos arregalados, olhando pra mim. 

Vi o Trix, fugi dali, cheguei na casa da Manoela e encontrei o Artur com uma arma na mão, ele disse que tinha envenenado nosso pai, fiquei tonta e meu irmão tentou dá um tiro na própria cabeça. Fui parar no hospital e fiquei desacordada por horas. 

O que estava acontecendo com minha vida? Ela sempre tinha sido uma merda, mas esse primeiro fim de semana das férias de julho me surpreendeu, só não sei se foi de um jeito bom. 

Eu deveria está feliz pela morte do meu pai? Parte de mim, dizia que sim, afinal de contas, eu o odiava. Viver sem ele significava ter menos um hipócrita doente do meu lado. Se eu conseguisse ser indiferente, não teria desejado sua morte tantas vezes, e agora que ela tinha chegado eu não conseguia me sentir aliviada. 

Na verdade, eu me sentia bem angustiada. Talvez não por perdê-lo, mas pelas circunstâncias que rodeavam esse fato. E se o Artur não tiver enlouquecido e realmente envenenou ele? Vai ter que pagar na Justiça ou minha mãe vai dá um jeito de livrá-lo? Ainda que ela consiga limpar a barra do Artur, eu vou conseguir viver sabendo que ele é um assassino? Mesmo que a morte tenha sido do pai que tanto nos desprezou…?

Meu coração pareceu ficar menor, e identifiquei um sentimento que há muito tempo eu tinha aprendido a ignorar: insegurança. O que seria de mim dali pra frente? O que seria da minha família? Como as pessoas nos veriam sem meu pai? Fosse ruim ou péssimo, para o mundo, Santiago era a parte central da família Ferri. Sem ele éramos só os filhos do dono da Art’s Ferri. 

Justiça seja feita. Se não fosse pelo trabalho duro do meu pai eu não tinha construído nada no instagram. Apesar de não produzir conteúdo, eu tenho uma quantidade considerável de seguidores que querem saber o que a herdeira de uma das maiores empresa de publicidade do país anda fazendo, e isso me rende boas propagandas. 

E o que acontece agora com o Artur? E se caírem em cima dele como vampiros e meu irmão não aguentar a pressão? 

As possibilidades me atingiram em cheio e pela primeira vez em muito tempo, me permiti chorar, só não sei se por meu pai, por meu irmão ou por mim. Apesar do drama, conseguir respirar fundo e não deixar que as lágrimas rolassem por mais de 5 minutos. Terminei meu banho, me troquei e fui para o único lugar que me fazia esquecer meus problemas: o Instagram. 

Assim que entrei na minha conta, me arrependi. Vários comentários nas minhas últimas fotos diziam que meu irmão era um assassino. Antes de abrir, achei que tinha lido errado ou que tinha enlouquecido. Aquelas eram as mesmas pessoas que me elogiavam e veneravam? Eram os mesmos seguidores que queriam ter minha vida? 

Abrir e fechei meus olhos umas 4 vezes, bebi um copo com água que a Cristina tinha deixado na mesa de centro e voltei a ler os comentários. 

“Playboy interesseiro. É isso o que seu irmão é.”

“Esses filho de gente rica são tudo uns malditos, uns mal agradecidos.”

“Seu irmão matou o pai só pra ficar com a grana, você é a próxima.” 

A cada palavra que eu lia meu mundo desabafa. Comecei a tremer, as lágrimas ameaçaram voltar, meu coração acelerou e eu achei que estava tendo um ataque de pânico.  

Pensei em parar de ler, mas eu simplesmente não conseguia, precisava entender o que tinha acontecido. 

Com as mãos tremendo igual vara verde, voltei para as notificações e vi que tinha várias marcações. Cliquei em uma que me levou direto para uma postagem do Artur, que tinha sido apagada. 

Corri nas minhas mensagens e o que eu imaginei me esperava ali: prints. Milhares de pessoas me enviaram o print da postagem dele. Assim que eu abri, o copo com água caiu no chão, se espatifando e fazendo a Cristina aparecer na minha frente igual uma bala. 

 – O que aconteceu? – Assim que viu o copo quebrado, voltou lá pra dentro, mas não sem antes alertar: – Melhor você não se levantar para não se cortar. 

Eu não me importava. Não estava nem aí se ia ou não me machucar. A imagem da minha frente tinha não só abalado, mas destruído o pouco de estrutura que me restara. 

O Artur tinha postado uma foto com a arma apontada para sua cabeça. A legenda? “Vou me matar em 5 minutos, não vejo mais motivos para viver. Tirei a vida do meu próprio pai. Eu envenenei ele”

Aquilo era um pesadelo, só podia ser. Pisquei várias vezes para se ver se acordava, cheguei a encostar meu dedão do pé em um caco de vidro e a pressionar um pouco só para sentir a dor e vê se era mesmo real. 

Comecei a abrir mensagem por mensagem e a maioria era a imagem do print com algum comentário maldoso em baixo, algumas tinham só a mensagem. 

“Ninguém presta na sua família, todo mundo tem que morrer.”

“Você já sabia que seu irmão era um doente?”

“Como você se sente sendo irmã de um assassino, não tem medo de morrer?” 

“Vocês são todos uns vermes.”

“Artur Ferri é um mimado homicida, tem que queimar no inferno.”

Senti uma dor profunda no peito. Não, não era dor, era mágoa. As mesmas pessoas que comentavam elogios nas minhas fotos agora estavam atacando minha família sem nem ao mesmo saber os motivos do meu irmão – não que tivesse algum que justificasse, mas ninguém tentava saber o porquê.

Não queriam saber se ele estava doente e precisando de ajuda, se meu pai era um hipócrita, um manipulador. O objetivo era atacar. 

Eu já tinha ouvido histórias de amigos que sofreram cyberbully, mas eu mesma nunca tinha presenciado. Dificilmente comentavam coisas negativas em minhas fotos, e quando faziam nunca era algo muito pesado. 

Senti vontade de vomitar e assim que a Cristina apareceu com a vassoura, eu pedi que me trouxesse um dos calmantes da minha mãe. Era isso ou uísque. Desejei que o remédio tivesse o mesmo efeito neutralizador que o álcool. Apesar de odiar meus pais, minha vida e ter nojo de tudo ao meu redor, eu não sabia lidar com sentimentos mais profundos que esses. 

Para ser bem sincera, eu já estava acostumada com isso, mas com aquela dor aguda não. Me perguntei como as pessoas conseguiam ser tão cruéis. As mesmas pessoas que me idolatram.

Senti vontade de chorar de novo, uma angústia encheu meu coração e eu achei que fosse explodir. Por sorte, a Cristina chegou com o calmante e eu joguei na boca o mais rápido que pude. 

– Você quer que eu ligue pra sua mãe? 

– Não precisa, ela tá resolvendo tudo e eu to bem. – Menti. – Quero ficar sozinha.

A empregada murmurou alguma coisa, mas eu não ouvi. Já medicada, peguei o celular novamente e pedi um Uber. Eu ia voltar para o hospital e falaria com meu irmão, com ou sem permissão. 

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