Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 9

Até que não foi tão difícil entrar no quarto do Artur. Pedi que a Isabel ligasse, se passando por minha mãe e liberasse meu acesso. O médico não era o mesmo da manhã, portanto não tinha sido quem recebera a ordem direta de Rosemary Ferri, o que já era um ponto pra mim. 

Quando entrei no quarto, o Artur mexia no celular. 

– O que você fez, seu idiota? – Disparei.

– Eu achei que ia morrer, Gabriela, eu contei com isso. – Respondeu, ainda com os olhos no aparelho. 

– Mas não morreu e agora o estrago tá feito. Tá todo mundo ensandecido. – Minha voz estava saindo mais irritada do que eu gostaria. – A polícia já veio falar com você?

– Ainda não. Ouvi quando a mamãe mandou o médico dizer que estou sem condições de falar. – Explicou, envergonhado. – Um policial queria ficar ai na porta, mas ela deu um jeito. 

“Dá um jeito” pra minha mãe era o mesmo que “pagar”, “chantagear”

– Melhor mesmo, depois do que você fez no instagram, tá mais do que provado que não deve ver ninguém. 

– Foi eu, Gabriela. – Mais uma vez ele repetiu as palavras da noite anterior, mas dessa vez, me encarava com firmeza. 

– Eu não consigo acreditar, Artur, simplesmente não consigo. 

Algo que identifiquei como um traço de esperança passou em seu olhos. 

– Porque? 

– Não é só porque você é meu irmão, pra mim, as coisas só não batem. Por exemplo, como você decidiu fazer isso e porque assume pro mundo inteiro? 

– Eu já disse! – De repente ficou impaciente, e isso só me mostrava que tinha alguma coisa muito errada, o Artur quase nunca se chateia comigo. – Eu não aguentava mais ele! Estou de saco cheio dessa vida de mentira que temos, não aguento mais fingir que sou feliz, que sorrio de verdade ou que me sinto bem! Eu estou péssimo, quebrado por dentro e ninguém se importa! – Quis interromper para dizer que me importava, mas ele parecia ter tanta necessidade de colocar tudo pra fora de uma vez que deixei que continuasse. – Eu me corto desde os 13 anos de idade e a mamãe trata isso como se fosse apenas uma fase. O máximo que ela pode fazer é me internar em uma clínica e dizer para o mundo inteiro que estou viajando. 

Eu o entendia. Não podia discordar dele ou dizer que estava fazendo drama. Para quem estar de fora acha que não temos motivos para reclamar da vida, que tudo pra gente é perfeito e digno de inveja, mas quem vive de perto sabe que não é bem assim. 

Minha situação não era tão crítica quanto a de meu irmão, mas eu não estava longe de ficar assim. Ter que carregar o título de adolescente perfeita e ter que está sempre disposta a satisfazer todas as expectativas que colocam em você é uma cruz pesada demais para se carregar. 

Mas chegar ao ponto de matar nosso pai… esse não era o estilo do Artur, ele nunca foi violento com os outros. Se automutilar é mais a cara dele, tanto é que tinha esse hábito há anos e quando nossa mãe descobriu, mandou ele para um “retiro”.  

O telefone dele tocou, antes que rejeitasse a chamada vi quem estava ligando. 

– Porque você não vai atender? – Eu quis saber, abismada. 

– Só estou cansado. – O Artur nunca estava cansado o bastante para falar com a Manoela. 

– Onde ela tava quando fui te encontrar ontem? – Fiquei curiosa. 

– No quarto, dormindo. – Ele respondeu tão rápido que me pareceu ter pensado naquela resposta tão simples por algumas horas. 

– Ela viu que você não estava bem e mesmo assim foi deitar? – O tom de acusação foi incontrolável. – Sua namorada tem noção do que você fez?

– Sim, Gabriela, ela sabe, e só foi dormir porque não se sentia bem. – Há alguns dias que a Manoela andava sentindo muita dor de cabeça, quase não estava mais indo lá em casa. Eu e minha mãe chegamos a desconfiar que ela estivesse grávida, mas descartamos a possibilidade assim que o Artur gritou para todos os vizinhos que não ia ser pai e que parássemos de neurose, caso contrário ele iria embora. 

Nossa mãe tomou essa reação como verdade, mas eu confesso que cheguei a pensar que eles tivessem abortado a criança. 

– Me disseram que os pais dela que te acharam no sofá. – Ele assentiu e eu continuei. – De quem era a arma? – Eu sabia que o revólver do meu pai ficava guardado em um armário com senha. 

– Do Tiago. – Meu irmão não me encarava, olhei para suas mãos e percebi que seguravam, trêmulas, o celular. Eu sabia quando meu irmão estava mentindo. Ele sempre olhava para as mãos. Era um tique tão fácil de ser percebido quanto uma barata voando. 

– Achei que o pai da Manoela fosse cuidadoso o suficiente para esconder uma arma, ainda mais que ele também tem um filho de 8 anos. – Tentei não soar muito acusatória, alguma coisa estava errada ali, e eu ia descobrir. 

– O que você tá querendo dizer, Gabriela? – O tom revoltado chamou minha atenção, tentei falar, mas ele impediu. – Já disse que foi eu! 

– Ok, Artur, foi você, então me diz o que vai acontecer agora? Você vai tentar se matar de novo? Vai ser preso? O que vai ser da gente?

Ele abriu a boca para responder alguma coisa, mas fomos interrompidos. 

– Com licença. – Uma mulher baixa, branquela e gorducha entrou no quarto. –  Está na hora do seu remédio. Esperamos ela entrar e injetar um líquido amarelo no soro, quando pensei que tinha acabado e eu poderia continuar assunto disse: 

– Você precisa descansar, esse remédio vai te dá sono. 

Fiquei com raiva. Aparentemente o Artur não estava sentindo nada, precisava mesmo tomar aquilo naquele momento? 

Por outro lado, ele pareceu aliviado de não ter que continuar a conversa e assim que ouviu isso foi logo fechando os olhos. Sem dizer mais nada, eu saí do quarto. Por enquanto, aceitaria o seu silêncio, mas jurei descobrir o que estava me escondendo.

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