Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 10

Eu sabia onde tinha que ir e não pensei duas vezes quando chamei o Uber. No carro, resolvi gravar alguns storys. Eu precisava me manter de pé diante das pessoas, principalmente daquelas que queriam o mal da minha família. Então, respirei fundo e gravei 3 vídeos dizendo um obrigada a todos aqueles que estavam mandando energias positivas para minha família, e desejando coisas boas aqueles que só tinham veneno para soltar. 

Finalizei o vídeo com um sorriso no rosto, mas quis chorar quando senti o olhar acusador do motorista ao perceber que tudo era fingimento. Por mais que tentasse, não conseguia fingir sem a câmera na minha cara. A única coisa que me ajudava a manter o controle era o calmante que eu tinha tomado, logo o efeito passaria e me amaldiçoei por não ter trazido outro. 

Cogitei chamar o Trix caso as coisas saíssem do meu controle, e só em pensar no nome dele já me senti menos sozinha. Novamente um calafrio percorreu meu braço e eu soube que ele estava ali, mesmo que eu não o visse. Não que eu o meu amigo, que tinha subido para a categoria de anjo da guarda, aliviasse os sentimentos ruins que eu eu sentia, mas ele ao menos me fazia companhia. 

De repente, um pensamento me ocorreu. Será que eu enlouqueci? Estou dentro de um carro, indo até à casa da namorada do meu irmão tentar descobrir porque ele supostamente matou nosso pai. É como se tudo isso fosse um pesadelo. E no meio de toda essa loucura o que não me deixa pirar é um ser imaginário que tem uma aparência horrenda, mas se diz ser meu único e verdadeiro amigo. 

Constatar isso me fez tremer. Será que desde os 10 anos que sou louca? Tentei controlar a vontade de chorar e respirei fundo, o ar parecia querer me faltar. Eu não só via, mas ouvia e sentia o Trix, então não tinha como ele não ser real, ao menos pra minha cabeça. 

Faço terapia desses os 11 anos, foi quando minha mãe me pegou falando sozinha pela primeira vez. No começo ela achou que era coisa de criança, mas quando percebeu que pra mim o Trix era real, ela ficou com medo e me colocou na sala de um psicólogo uma vez por semana.  

Faz um ano que não visito o Dr. Santos. Parei quando criei coragem suficiente para dizer que não aguentava mais ir pro consultório dele fingir que minha vida era perfeita. Minha mãe não dizia claramente, mas nas entrelinhas deixava nítido que estava proibida de abrir a boca demais. 

Até para o médico eu tinha que fingir. Não podia dizer que a minha cabeça era ferrada por causa de um pai ausente ou que me sentia só porque ninguém na minha família se importa comigo de verdade. 

Eu até que gostava do Dr. Santos, mas gostar não me dá liberdade de confiar, e eu morria de medo dele vazar alguma informação da terapia e depois minha mãe me desprezar mais ainda. 

– Tá tudo bem? – A voz do motorista me assustou e me trouxe de volta para a realidade. 

– Sim, só senti um mal está, mas passou. – Menti, sabendo que deveria está tão branca quanto neve. Achei melhor voltar a atenção para o celular. 

Fugindo dos comentários, fiz mais uma postagem no Instagram, dessa vez uma foto com minha família, com a legenda: “Não importa o quanto tentem, jamais nos atingiram. Meu coração está com você, pai. #Ferrisprasempre”. 

Não me importei se isso era mentira, eu só não daria o gosto aqueles doentes de nos maltratar. Não importava o quanto meu irmão esteja errado, ninguém tem o direito de julgá-lo. E também, confesso que me pareceu ser o certo a fazer, postar uma foto como se eu sentisse falta do meu pai.

Quando o carro parou, senti o olhar desconfiado do motorista e jurei dá uma estrela por sua indiscrição. Ele só tinha que me levar até o meu destino e não se meter na minha vida ou me olhar estranho por qualquer coisa que fosse. 

Praticamente pulei do carro, a rua estava vazia, aliás, ali vivia assim, só à noite que ficava mais movimentado porque os pais levavam as crianças para a pracinha. 

Apertei a campainha e enquanto esperava senti uma sensação muito estranha. Um vento gelado bateu no meu rosto e senti todo o meu corpo endurecer. Em um ímpeto olhei pra trás, tive a impressão de está sendo seguida. Me afastei um pouco do portão e olhei na rua, não vi ninguém, continuei achando que tinha alguém me vigiando. 

Apertei a campainha impaciente e em menos de um minuto o portão se abriu. O rosto pálido e assustado do Mateus piorou quando me viu. 

– O que você está fazendo aqui? – Gritei. 

– A Manoela é minha prima. – Explicou com a voz embargada e carregada de angústia. – Preciso que você entre, vem me ajudar! – Ele não esperou minha resposta, já foi me puxando pelo braço. Meu corpo reagiu com uma pequena eletricidade diante do seu toque gelado. 

– O que aconteceu? O que você tá fazendo aqui? 

– Eu cheguei e ninguém abriu o portão. – Começou a explicação. – Peguei a chave reserva e quando entrei ela estava morta! – Ele terminou de falar no mesmo momento que entramos na sala e eu vi o corpo da Manuela estirado do lado do sofá. 

– Meu Deus! – Gritei, virando o rosto diante de uma Manoela inerte e com um olhar em pânico, vidrado em alguma coisa no além. 

– Eu já chamei a ambulância, mas não sei como dizer aos pais dela. 

– A verdade? –Tentei não soar tão irritada, precisava manter a calma. 

– Mas como Gabriela? Ligo e digo do nada que a filha deles se matou ou espero chegarem de viagem? – Ele estava angustiado, apesar de está tentando manter uma pose de equilibrado, parecia prestes a chorar. 

– Pera aí, os pais dela não chegaram ainda?

– Claro que não! – Era nítido o esforço que ele estava fazendo para controlar o tom de voz. Tentei manter a calma, a situação não permitia que eu desse vazão aos questionamentos que surgiam. – A ambulância está demorando muito. – Começou a andar de um lado para o outro, evitando o corpo da prima, comecei a me incomodar.  

– Faz quanto tempo que você ligou?

– Alguns minutos antes de você chegar. 

– Para de ficar feito barata tonta! – Explodi. 

– Não acredito que diante dessa situação é com isso que você se incomoda! Minha prima está morta, Gabriela!

– Eu tô vendo, mas ficar feito galo de um lado pro outro não adianta, temos que manter a calma. – Agradeci mentalmente ao calmante, que ainda fazia efeito. 

Ouvimos o barulho das sirenes e o Mateus correu para o portão. Enquanto ele ia receber os médicos, me aproximei do corpo da Manuela e me abaixei. 

Apesar de ser minha cunhada há quase 8 meses, não tínhamos intimidade. O Artur praticamente não levava ela lá em casa, e a única coisa que eu sabia sobre a Manuela era que ela era uma nerd estranha que não falava com ninguém, metida a perfeitinha. O namoro dela e do Artur sempre me pareceu algo completamente sem sentido.  

Depois do namoro, ele parou de pra festa toda noite, deixou a vida de galinhagem, como quase não ficava em casa, parou de brigar mais com nossos pais e sempre ia de bom grado para os eventos sociais. Associei essa mudança ao relacionamento, e apesar de serem coisas boas, eu a odiava um pouco. O Artur não me dava mais atenção. Ela tirou de mim a única companhia que eu apreciava de verdade. 

Meu irmão tinha tentado se matar, meu pai tinha sido envenenado e agora a Manuela estava morta. Era tão fácil assim acabar com tudo? Era tão simples tirar acabar com a vida? Me perguntei do que adianta ter tanto dinheiro, fama e amigos se na hora de partir nada disso pode garantir mais um tempinho aqui na terra. 

Me levantei quando ouvi vozes e antes que o Mateus entrasse na sala com os médicos eu o vi. O Trix estava atrás das cortinas, do lado do sofá e olhava satisfeito para o corpo inerte da Manoela. O rosto infantil deixava tudo mais assustador. Senti um arrepio no corpo inteiro e pela primeira vez eu senti medo de verdade do Trix. 

O jeito como ele olhava para a Manuela, era como se ele sentisse prazer em vê-la daquele jeito… 

“Todo mundo está morrendo, mas eu vou te proteger… Eu sempre esquecia como era ouvir aquela voz rouca e profunda, que não casava com o rosto e tamanho de uma criança de 7 anos. O Trix sumiu e me senti só novamente. O efeito do remédio já estava passando e o pânico se instalando. De quem exatamente ele ia me proteger, ou do quê? 

Tonta, abri espaço para os paramédicos e me sentei no sofá. Eles começaram a tentar reanimar minha cunhada, mas eu sabia que era em vão. 

Comecei a suar a frio com a perspectiva da minha própria morte. Meu coração estava acelerado e minhas mãos tremiam. Forcei minhas pernas a se levantarem, eu precisava sair dali e tomar alguma coisa. Tinha que me controlar, precisava está com condições de contar para o Artur que sua namorada se matou. 

Não precisei andar muito para achar a mesa de bebidas. Ficava em um armário, próximo a mesa de jantar, na própria sala. Sem cerimônia e com os dedos gelados, peguei um copo e enchi do que me pareceu ser uísque. Bebi de uma vez e depois coloquei mais uma. 

Enquanto o álcool passava rasgando minha garganta e penetrava minhas veias, dei, literalmente, as costas para a tentativa de salvação que estava acontecendo. Eu não queria ver aquilo, queria esquecer a imagem da Manuela morta e queria apagar mais ainda da memória o aviso do Trix, por algum motivo desconhecido, a promessa dele não me trouxe segurança, mas angústia. 

Subi as escadas, sem saber especificamente porque estava indo naquela direção, e comecei a procurar o quarto da minha cunhada. Acho que para ver se achava alguma coisa do Artur, não sei… O uísque estava começando a afetar minha capacidade de raciocínio.

Quando pisei no último degrau, cheguei a um corredor cheio de vasos, tapetes e quadros. Uma luz amarela iluminava tudo e mostrava com riqueza de detalhes a perfeição com que tudo tinha sido feito. Vi duas portas, uma de frente para outra e imaginei que fossem quartos, me aproximei de um deles para ver se era o da Manoela, mas antes que eu chegasse perto da porta, vi uma mesa daquelas de pé de espelho e em cima tinha tinha uma caixa de madeira, do tamanho de um sapato. 

O que me chamou a atenção não foi o objeto em si, mas que ele estava todo sujo de sangue por fora e quando cheguei perto, vi que tinham várias fotos dentro. Não pensei duas vezes, comecei a mexer com cuidado para não tocar no sangue. Não sei exatamente quantas fotos tinham, perdi a capacidade de contar quando vi que a primeira e justo a que estava virada pra cima era do meu pai. 

Não foi a imagem de Santiago Ferri que me fez ficar tonta e cair, mais o que ele fazia na foto. Meu pai estava tendo relações sexuais com uma menina que não devia ter mais do que 12 anos, e que dormia profundamente, como se estivesse dopada.

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