Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 11

Como se aquilo fosse um tumor, joguei a foto para longe e tombei. Não, eu não tombei, eu fiquei tonta e de fato cai no chão. Tudo começou a girar e a bebida ameaçou voltar. 

Fechei os olhos e comecei a inspirar e respirar, eu precisava me levantar dali, não podia ser vista naquela situação, jogada no chão como um animal abandonado. Fiquei quase 3 minutos lutando contra o pensamento de que desmaiaria e por fim consegui abrir os olhos sem sentir que o teto ia cair em cima de mim. 

Comecei a pensar que tinha imaginado coisas, que não era meu pai naquela foto, fiquei repetindo baixinho que o álcool não tinha caído bem e eu estava delirando. Só tinha um jeito de saber. 

Devagarinho me levantei, a tontura persistiu, só que mais leve, e fui direto pegar a foto que estava jogada próxima à porta de um quarto. Olhei novamente e quase gritei quando vi que eu não tinha imaginado nada. Meu pai estuprava uma criança. De novo, meu estômago embrulhou, e fechei os olhos para não ver mais aquilo, mas tudo piorou quando uma constatação mudou tudo. 

Se alguém mais visse aquela foto minha família estava perdida. Eu precisava tirar aquilo dali e esconder, pelo menos até ter certeza do que era. Tremendo da cabeça aos pés, e suando, corri até a caixa e procurei para ver se tinha mais alguma imagem do meu pai. Comecei a ouvir passos na escada e vi que não daria tempo de procurar, então peguei todas as fotos e escondi no meu short. Dividi nos dois bolsos para não fazer muito volume. 

– Achei que você tivesse ido embora. – Mesmo sabendo que alguém estava subindo, a voz do Mateus me fez pular. 

– Que susto, você é idiota? – Gritei. 

– Precisamos descer, tem polícia lá em baixo e eles querem falar com a gente. – De repente, ele pareceu muito cansado. 

– O que eles querem? – Não entendi porque a polícia estava ali, se nem os pais da menina sabiam ainda. 

– Eu não sei, Gabriela, podemos descer? – O tom de voz do Mateus me irritou. Eu sabia que ele estava transtornado, eu também estava – talvez até mais, agora – porém ninguém tinha o direito de falar daquele jeito indiferente comigo, ainda mais ele, que eu mal conhecia. 

– Vá na frente, quero ver se tem alguma coisa do meu irmão no quarto da Manoela. – Uma expressão confusa passou em seu rosto e senti que ele não engoliu a desculpa.

 

– Não demore. 

Esperei quase um minuto para me mexer, queria ter certeza que ele já estava lá em baixo, e abrir a porta que ficava do lado do armário. A decoração de Ben 10 deixava claro que aquele quarto era do Pedrinho, o irmão da Manuela. Fechei a porta rapidamente, sem querer perder tempo e abri a segunda opção. Como eu já esperava, era o quarto da Manuela e estava de pernas para o ar. 

Literalmente parecia que tinha passado um furacão ali. Tudo estava revirado, as roupas espalhadas no chão e na cama tinham sapatos, livros e maquiagens espalhadas. Me perguntei que motivo a Manuela tinha para fazer aquilo e foi quando vi que no espelho que ficava em frente a sua cama tinha escrito (do que provavelmente era batom vermelho): “Nós vamos pegar toda a sua família, é melhor se calar.” 

Dessa vez não consegui sufocar o grito e antes que eu pudesse saber o que realmente estava se passando o Mateus se materializou na minha frente, junto dele, mais dois homens. 

– O que aconteceu? Porque você gritou? 

Eu não precisei responder, e nem tinha condições, estava ocupada me segurando na cama para não desmaiar. 

– Mais que diabos aconteceu aqui? – Perguntou abismado um homem, que identifiquei como policial. 

– O que você estava fazendo aqui, garota? – Questionou outro cara, que devia ser o mais velho ali, e o mais feio também. Em contraste com o outro policial, ele tinha estatura mediana, seu rosto era horrendo, tinha traços grosseiros e a boca um pouco torta. 

 –Eu… eu.. – Gaguejei, e seu olhar frio não ajudou em nada minha confiança. 

– Responde, Gabriela. – O Mateus insistiu. 

– Estava procurando o banheiro e entrei na porta errada. – Achei minha saída na mentira. 

– Mas você me disse que queria…

– Cadê a Manuela, Mateus? – Cortei, quando percebi que ia me desmentir na frente da polícia, mas eles nem perceberam o embate entre mim e o Mateus, já estavam avaliando todo o quarto e sussurrando comentários entre eles.  

– Já levaram o corpo dela. – Respondeu, baixando os olhos e com uma voz pesada. Por alguns segundos senti sua dor, mas logo passou, eu tinha que sair dali. Toda aquela atmosfera pesada estava me deixando com falta de ar e ficar naquele quarto, olhando aquela bagunça e lendo a ameaça à família Sanges estava me deixando mais tonta ainda. A sensação que eu tinha era de que ia desmaiar a qualquer momento. 

– Você tá bem? – O Mateus se aproximou de mim, e eu me afastei, indo em direção da porta. 

– Preciso sair daqui. – Murmurei. 

– Você tá pálida, Gabriela, vou pegar um copo com água. – Sua expressão tinha os mesmos traços de preocupação da noite que ele me ajudou a fugir da Art’s Ferri. 

– Não precisa. – Ignorei, não queria ninguém fingindo se importar ou sentindo pena de mim. 

– O que você dois estão conversando? – O policial mais alto e charmoso chamou nossa atenção. 

– Só estou dizendo que ela está pálida. – Admitiu o Mateus, envergonhado. 

– Isso aqui é uma cena de crime, vamos descer e conversar lá em baixo. – Ordenou o mais velho. 

– Conversar o que? – Perguntei parecendo desconfiada, mas a verdade era que aqueles dois, principalmente o rechonchudo, me dava medo. Ele tinha o olhar de um leão faminto. Eu me sentia a presa. 

– Tá preocupada com alguma coisa, garota? – O moreno charmoso questionou e me lançou um olhar quase tão frio e sombrio quanto o do colega. 

– De jeito nenhum, só acho que somos menores de idade e não podemos ser interrogados sem a presença de um responsável. – Joguei, sem saber se aquilo era verdade ou invenção dos filmes. 

– Quem falou em interrogatório? Só vamos conversar. – Com aquela resposta eu entendi: eles desconfiavam de mim e do Mateus, quer dizer, daquele jeito que me avaliavam, eu tinha certeza que suspeitavam ao menos de mim. 

Optei por não dizer mais nada e descermos as escadas mais rápido do que eu gostaria. Cada passo parecia pesado demais e despertava uma dor de cabeça pontuda. Pensei em passar no armário de bebidas e tomar mais uma dose de uísque, mas imaginei que não cairia bem. Ao invés disso, empurrei as fotos mais fundo nos bolsos e torci para que não vissem. 

Quando chegamos na sala, sentei no sofá grande com o Mateus, ao lado de onde o corpo da minha cunhada tinha estado há poucos minutos e isso aumentou o enjoo. Percebi que o Mateus também não estava confortável pela forma como começou a estralar os dedos e a cruzar e descruzar as mãos. 

Cada policial sentou e em uma poltrona, ao nosso lado e o mais velho começou falando.

– Eu sou o delegado Roger Ferreira, fui designado para chefiar as investigações sobre a morte do seu pai, Gabriela. – Falou em um tom tão natural que parecia dizer apenas que tinha ganhado alguns kgs. – Não sei se sua mãe te falou isso. – Acrescentou diante do espanto no meu rosto. Eu não fazia ideia de que já tinha uma investigação sobre meu pai. – E esse é meu colega e melhor policial da minha equipe, Felipe Plínio. 

A apresentação era só pra mim, então, no automático, assenti, confirmando que tinha entendido. 

– Primeiro, o que vieram fazer aqui? – Fiquei na dúvida se eu ou o Mateus deveria responder. Ele foi mais rápido. 

– Meu tio Leonardo me ligou e pediu que eu viesse ver se estava tudo bem, porque desde ontem ele tentava falar com a filha e não conseguia. – O Mateus disfarçava bem, ou talvez por eu está tão perto, percebi que sua voz estava levemente trêmula. – Toquei a campainha e liguei no celular da minha prima, mas não tive resposta. Lembrei da chave reserva e abri o portão… 

– Onde ficava essa chave? – O Felipe questionou. 

– Escondida atrás do interfone. 

Estranhamente aqueles policiais não anotavam nada, e se não faziam isso eu só conseguia enxergar um motivo: estavam gravando a gente. 

– Continue. – Roger ordenou e o Mateus obedeceu. 

– Entrei em casa e vi a Manuela estirada no chão, sangrando muito. Corri até ela e comecei a sacudir seus ombros. Quando … – Neste momento ele gaguejou e baixou os olhos pela primeira vez. Me pareceu que ia chorar e apenas por esse motivo não encarava mais os ouvintes. 

– Quando o quê? – O Roger incentivou. 

O Mateus engoliu em seco e continuou com certa dificuldade de manter as mãos paradas. 

– Vi que ela tava morta, mas mesmo assim liguei pra emergência. Sei lá, achei que podiam reanima-lá. 

– Entendo…. E você, Gabriela, o que veio fazer aqui? Pelo que entendi, você chegou antes da ambulância. 

Eu tinha duas opções: falar a verdade ou proteger minha vida daqueles sanguessugas que pareciam ter como único objetivo descobrir se eu escondia alguma coisa. 

– Eu vim vê minha cunhada, queria saber mais sobre a recaída do Artur. – Optei por não entregar muito o jogo. 

– E quando viu sua cunhada morta foi direto procurar um banheiro? – O sarcasmo na voz do delegado era indiscutível. 

– Passei mal, não é fácil ver alguém morto. – Respondi, mal criada. 

– Entendo… – Notei que aquela era a palavra preferida do Roger e jurei nunca mais usá-la. – Ainda mais depois de presenciar a morte do pai, né…  – Apesar de não ser uma pergunta, o tom deixava claro que ele esperava uma resposta, que eu não dei. 

– Mateus, nós queremos contar aos pais dela, que horas eles chegam de viagem? – O Felipe questionou quando viu que eu deixaria o seu chefe no vácuo. 

– O voo está previsto para chegar aqui 8 da noite. – Já eram quase 19h. 

– Então, vamos daqui para o aeroporto. – O Roger informou, já se levantando e sendo seguido pelo subordinado. 

– Posso ir também? 

– Não. Pedimos que vocês voltem para suas casa, pode não ser seguro até descobrirmos o que aconteceu. 

– Mas ela se matou, não? – Perguntei, parecendo confusa, mas no fundo eu sabia que tinha acontecido algo mais ali. 

– É o que parece, mas vamos descobrir se foi isso mesmo. – Como me encarava quando disse isso, entendi a ameaça. Só fiquei na dúvida se eles achavam que eu tinha feito aquilo. 

– Entraremos em contato. – O Felipe acrescentou e não dissemos mais nada, voltei a sentar enquanto esperava o Mateus deixar eles no portão. Já estava me levantando para pegar mais bebida quando ele voltou. 

– Não podemos ir lá pra cima, é uma cena de crime. – Disse como uma voz abusada. 

– Eu só ia pegar alguma coisa pra beber. – Respondi, mais irritada ainda. 

– O melhor que podemos fazer é ir embora. – Nisso eu tinha que concordar com ele. Já estava com problemas demais para lidar, não queria atrair mais. 

Em silêncio, nos dirigimos para a saída e já lá fora peguei meu celular para pedir um Uber. 

– Deixa que eu peço. – O Mateus segurou minha mão, abafando o celular, e aquele toque me causou arrepios, só não consegui identificar se eram bons ou ruins. 

– Mas não vamos para o mesmo lugar. 

– Vamos sim. – Disse, cheio de certeza. – Vamos comer alguma coisa, temos que conversar. – Ele parecia meu pai querendo me dá ordens e não gostei nada daquilo. 

– Não vou a lugar nenhum com você! – Ele nem me olhou, abaixou a cabeça e começou a mexer no celular. 

– O carro chega em 5 minutos. – Disse, dando alguns passos para ficar na ponta da calçada. 

– Você ouviu o que eu disse? – Gritei. – Não tenho nada pra conversar com você! 

– Gabriela. – Disse, com um tom calmo e me encarando como se pudesse perfurar meus olhos só com um olhar. – Você não me engana, sei que foi fazer alguma coisa naquele quarto além de procurar as coisas do seu irmão. – A certeza com que ele falava era pior do que a ordem que tentava dar. – E sei também que alguma coisa aconteceu nesse meio tempo, já que você estava pálida e tremendo quando subi na primeira vez. 

Abri a boca para responder aquelas acusações, mas para o meu desespero descobri que não sabia o que falar. Ele tinha notado tudo, ele tinha percebido o quanto eu fiquei afetada, e mais, não tinha comentado com a polícia o quanto eu estava estranha. Não que os caras não tenham percebido, mas se o Mateus falasse alguma coisa sobre mim, mas desconfiados eles ficariam. 

– O Uber está chegando, vamos pra algum lugar e você me conta o que aconteceu. 

Quando o carro chegou e eu entrei percebi que estava espantada com a percepção minuciosa do Mateus. Mesmo estando extremamente nervoso por ter encontrado a prima morta, ele me enxergou e viu que eu não estava bem. Me perguntei quem era aquele garoto que eu mal conhecia, mas já via coisas em mim que nem mesmo minha mãe identificava. 

Suspirei fundo e fechei os olhos, sufocando o sentimento de alegria por ter sido notada. Ele era um estranho que se achava o dono da razão e eu odiava pessoas assim. Ele parecia saber todos os meus segredos, eu tinha a sensação que podia ver meu coração e minha alma, e por esse motivo eu precisava ficar longe dele. 

Mas quando o Mateus abriu a boca para, gentilmente, perguntar aonde eu queria ir, percebi o quanto isso ia ser difícil.

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