Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 12

– De quantos copos com água você precisa para se livrar do álcool? 

Ignorei o comentário propositalmente, e peguei o celular para postar um story do sanduíche na minha frente. Eu estava ávida para que todos soubessem – ou achassem – que eu estava bem. 

– Qual é a graça? – Não entendi a pergunta, e olhei para ele confusa, antes de dá o primeiro pedaço no hambúrguer.

– De quê? 

– De fingir para o mundo que está tudo bem, quando não está. – Tentei encontrar acusação em seu tom, mas só senti pena. Isso me enlouqueceu de raiva. 

– Quem disse que eu estou fingindo, Mateus? Posso não ser nenhuma YouTuber ou blogueira, mas meu pai é conhecido e tenho uma quantidade considerável de seguidores que querem saber como eu estou, e eles precisam saber que eu estou bem. – A tristeza em minha voz era evidente até para um surdo, no fundo eu sabia que ninguém se importava como eu estava, eles só queriam acusar meu irmão e atingir minha família. 

– Seguidores, mas não amigos. 

– Eles gostam de mim. – Murmurei, parecendo uma garotinha de 5 anos. 

– Não, Gabriela, eles gostam da sua vida. Eles querem ser você, ter o que você tem. Isso é a graça das redes sociais: olhar como a grama do vizinho é mais verde. 

Bebi mais um copo com água e dei outra mordida no sanduíche enquanto avaliava como aquelas palavras faziam eu me sentir. Raiva. Angústia. Nojo. Desespero. Solidão. Tudo isso parecia brigar dentro de mim pra ver qual desses sentimentos dominaria meu coração. 

Optei pela raiva. 

– Cara, quem você pensa que é para me avaliar desse jeito? Eu não preciso de terapeuta, já tenho um. 

– Você precisa é de um amigo. – Ela falou “um amigo” em um tom mais doce e na hora eu entendi o recado. 

– Quer dizer que você me trouxe até aqui para dar em cima de mim? – Explodi. – Pois saiba que eu não quero nada com você, Mateus, eu tô fugindo de homens, ainda mais garotos imbecis como você. Você só servem para uma ficada de uma noite e pronto. 

Sua boca estava aberta de tão assustado que ficou com minhas palavras e eu me senti vitoriosa, e motivada a continuar. 

– E se você quer saber, eu tenho muitos amigos, vários, inclusive – Eu sabia que tinha que parar, o rosto dele mostrava o quanto eu o atingia com aquelas palavras. Uma sensação de culpa passou pelo meu coração, ignorei, eu mal conhecia aquele garoto, não tinha obrigação de me importar com o que ele sentia. 

– Eu não te trouxe aqui pensando em beijar você. – Começou olhando bem nos meus olhos. – Minha prima acabou de morrer, a última coisa que passa pela minha cabeça é dá em cima de uma garota que eu mal conheço. – Ele deu uma pausa, dando uma mordida em seu próprio hambúrguer, mas desconfio que queria mesmo era me deixar analisar o que tinha dito. 

Preciso dizer o quanto fiquei envergonhada? O garoto tinha encontrado a prima morta com um tiro na cabeça, a última coisa que planejaria era em pegar alguém.  

Ficamos em silêncio por alguns segundos, e comi meu sanduíche sem encarar o Mateus. 

– Eu não quis te magoar, desculpa. – Aquilo me pegou desprevenida, eu não costumava ouvir muito aquela palavra, muito menos usar. 

– Tá tudo bem. – Respondi, olhando para o último pedaço da minha comida. 

– O que aconteceu lá em cima antes de eu chegar? – Perguntou, me analisando. 

– Nada demais, eu fiquei um pouco tonta por conta da uísque. – Menti, sempre fiz isso naturalmente. 

– Eu não acredito nisso, Gabi. – Duas coisas me tiraram do sério nessa frase: a presunção de saber que eu mentia e o apelido. Eu os odiava, pra mim, diminuir o nome de alguém significava preguiça. 

– Não me chama assim, eu não suporto, meu nome é Gabriela. – Falei, rispidamente. 

– Mas é só um ape…

– Eu não gosto de apelidos, Mateus. 

– Ok. Agora responda minha pergunta, por favor. 

–  Eu já falei, passei mal. – Se eu tinha vontade de falar daqueles fotos? Sim, e muita. Eu queria desabafar com alguém, queria que alguém dissesse que eu tinha enlouquecido e aquele não era meu pai. Porém, não podia, se fizesse isso, seria o fim dos Ferri. 

– Gabi, – Olhei feio e ele entendeu o recado. – Gabriela, eu não sou idiota, você estava pálida e tremendo, não me encarava, tinha a expressão de quem ia ser empurrada no precipício, e levando em conta o estado do quarto da Manuela, e aquela ameaça, eu só posso deduzi que você achou alguma coisa antes dos policiais. – Seu tom era de alguém que sabia das coisas, que acreditava fielmente que sua lógica era a certa.  

– Dedução não é certeza, Mateus. – Tentei ser firme, mas minha voz falhou. –  Eu não encontrei nada. 

Ele avaliou minha expressão e para o meu azar não consegui encará-lo. 

– Você tá mentindo. – Concluiu. 

Enchi meu copo de água e enfiei na boca. Aquele garoto me perturbava. Como ele era capaz de saber que eu não estava sendo sincera? Porque ele sabia com tanta precisão como eu me sentia? Isso me colocava em uma posição de exposição, e eu não gostava nada disso, era como se ele fosse capaz de ver dentro de mim, e assim, enxergar toda a podridão que eu guardo. 

– Ei… – Sua voz saiu tão doce, que fez meu coração bater 3 vezes mais rápido. Não olhei, só ouvi, tive medo do que sentiria ou do que ele veria se meus olhos encontrassem os seus naquele momento. – Se eu quisesse te prejudicar, eu teria te enquadrado na frente da polícia, não acha? 

Eu podia acreditar naquilo? Quando se quer prejudicar alguém, dá para fazer muitas formas. Talvez as intenções dele fosse ganhar minha confiança e chantagear minha família depois. Ou jogar de vez tudo na mídia, acusar meu irmão de ter feito alguma coisa contra a Manuela ou ter incitado ela a se matar. 

– Não, eu não acho. – Fiquei na defensiva. – Eu mal te conheço e não tenho nenhum motivo para acreditar ou confiar em você. 

– Acho que nas duas vezes que nos vimos eu já demonstrei mais preocupação com você do que todos os seus milhares de seguidores. – Era verdade, mas eu não daria esse gosto.

– Você tem inveja, é? – Minha voz saiu tão venenosa quanto planejei, e uma expressão ofendida passou em seu rosto. 

– Não, Gabriela. – O tom de pena retornou. – Eu realmente só quero ajudar, você parece querer enfrentar tudo o que está acontecendo sozinha, mas acho que foram coisas cruéis demais para alguém aguentar. 

– Você quer ser meu amigo? – Questionei, com ironia. – Você não me ouviu dizer que já tenho muitos? 

– E cadê eles? – Perguntou, sem nivelar seu tom ao meu. 

– Estou indo encontrá-los agora. Dá licença. – Levantei da mesa, peguei uma nota de 50,00 na capinha do meu celular e joguei nele. Ignorei seu olhar questionador e sai, sem olhar pra trás. 

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