Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 13

Era a terceira vez que eu ia àquela boate, fazia só 3 meses que ela tinha sido inaugurada, e não tinha caído nas minhas graças nem dos meus amigos, mas era o que tinha pra hoje. 

Sai da lanchonete tão cega de raiva que a primeira coisa que pensei foi em provar pra qualquer idiota que eu tenho amigos. Liguei pra Isabel e mandei ela chamar todo mundo. Ela alegou que era melhor não, “eu ainda nem tinha respondido as mensagens de condolência no grupo da gente, ficaria muito feio aparecer chamando pra sair”. 

Ignorei a repreensão, e disse que se ela não fosse, eu iria só. Cedeu, talvez preocupada com o fato de eu sair sozinha, com tudo o que estava acontecendo. 

– Eu odeio esse lugar. – O Vitor reclamou, pela quinta vez. 

– Mas é a única que abre todos os dias. – Argumentei, emburrada e ele me deu um beijo estalado no rosto. Bebi um gole do coquetel de morango e voltei minha atenção pra pista de dança. – Vamos dançar? 

– Vamos! – A Isabel respondeu, já alta do álcool e cheia de animação. – Mas antes quero ir ao banheiro. – Puxou meu braço, sem dá tempo de ir eu dizer não. 

Quando nos afastamos o suficiente do Vitor, ela disse o que segurava a noite toda.

– O que deu em você?

– Qual foi, amiga? – Me fiz de desentendida. 

– Seu irmão tá no hospital, Gabriela, seu pai e sua cunhada mortos, o mundo está desabando na sua casa e você sai pra boate. – Vomitou na minha cara. Quando bebia, criava coragem para falar. 

– Por isso mesmo, Isabel, eu vim me divertir. Amanhã vou ter um monte de merda para enfrentar, posso querer ficar com meus amigos só pra esquecer por um momento? É crime? 

– Não é crime, mas é errado, se alguém te ver, vão te julgar. – Advertiu, parecendo realmente preocupada. 

– Eles já estão me condenando sem nenhum motivo, pois que agora tenham. – Aquelas repreensões estavam me deixando de saco cheio, mais do que quando cheguei, e motivada pela raiva, peguei meu celular e gravei um storys do ambiente, com a legenda: Só uma festa pode fazer alguém esquecer da dor. Ignorei o olhar reprovador da Isabel, pelo menos agora todos teriam um motivo para falar de mim. 

Quando voltamos do banheiro, fomos direto dançar e encontramos o Vitor se esfregando em uma garota. Fui dominada por uma onda de ciúmes, não que tivéssemos algo sério, mas eu não gostava de ser dispensada quando estava por perto. 

Me aproximei e cutuquei o ombro dele, que me olhou assustado assim que me viu. 

– Gabriela! Tava te esperando pra dançar. – Disse, virando o corpo todo pra mim e dando as costas pra garota loira e baixinha que já estava grudada no pescoço de outro cara. 

– Percebi. – Respondi, tentando não parecer enciumada. 

Começamos a dançar e ele fez que ia me entregar um comprimido que tinha guardado no bolso, mas recuou e colocou a droga na própria boca. Deu um sorriso malicioso e eu sabia o que queria que eu fizesse. 

Envolvida pelo ritmo da música, pelo álcool que já tinha bebido e pela necessidade insana de esquecer meus problemas, me aproximei da boca dele e taquei um beijo, como se eu precisasse disso para viver. 

O toque de sua língua era o mesmo de sempre: frio e saboroso. Não demorei para encontrar o comprimido e transferir para minha boca. Me afastei alguns centímetros para engolir sem dificuldade e logo voltamos a nos beijar. 

Pela rapidez com que as mãos do Vitor passavam por todo o meu corpo e por está me beijando como se fosse arrancar minha língua, eu sabia que o êxtase já tinha sido ingerido por ele antes do meu retorno do banheiro. 

Me afastei para dá um tempo para o Vitor se acalmar, afinal estávamos rodeados de pessoas, e comecei a dançar. Ele seguiu meus passos, seus olhos passando por todo o meu corpo e parando desejosos nos meus peitos. Estranhamente eu notei que ele não me olhava nos olhos, quase nunca, até nas poucas vezes que conversávamos, sua atenção sempre era voltada ao que eu tinha para oferecer. 

Lembrei do Mateus. Mesmo com o nervosismo de ter encontrado o corpo da prima, ele enxergou que tinha alguma coisa errada comigo, e quando me questionou, me encarou, demonstrando interesse no que eu tinha para falar. 

Afastei o pensamento, eu estava ali justamente porque tinha ficado com raiva dele e queria provar que sua teoria era mentirosa: eu tinha amigos. Voltei a beijar o Vitor, dessa vez com mais avidez. O comprimido já começava a fazer efeito, e minha mente ia a mil casando perfeitamente com a adrenalina que começava a correr por todo o meu corpo. 

Eu queria gritar, queria beijar, queria dançar. Queria fazer tudo ao mesmo tempo. De repente o mundo ficou bom, viver se tornou legal e dançar agarrada ao pescoço do Vitor me pareceu a melhor coisa do mundo. Eu amava aquela sensação de liberdade, aquele poder de esquecer a vida real e mergulhar na fantasia da noite. 

Comecei a curtir de fato a festa e quando a língua do Vitor encontrou minha orelha, eu sabia que precisávamos ir á um lugar reservado. 

– Vamos sair daqui. – Sussurrei em seu ouvido e ele me ignorou, envolvido pelo trabalho excelente que fazia com a boca. – Vitor… – Murmurei. – Tem gente aqui. – A droga não tinha tirado meus sentidos reais por completo, mas a julgar pela excitação do meu amigo, a noção dele já tinha ido embora por completo. 

Forcei ele a se afastar de mim e encarei seus olhos profundos e cheios de desejo – neste momento, um certo par de olhos sinceros e preocupados veio a minha mente, mas eu não sabia de quem eram. Afastei o pensamento e fiz sinal com a cabeça para irmos a um lugar mais reservado. Ele entendeu o recado e me seguiu. 

A cada passo meu coração acelerava mais ainda. Eu estava elétrica, ligada a tudo o que acontecia à minha volta, e todas aquelas pessoas dançando despertava um sentimento de alegria em mim que eu não sabia explicar. Eu me sentia bem, leve, feliz. 

Sem que eu percebesse, o Vitor me puxou de uma vez para baixo das escadas que dava pra parte de cima da boate, onde ficava o camarote sempre que tinha show. 

– Ai! – Dei um gritinho com o susto, mas antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, suas mãos abriam o zíper do short que a Isabel tinha me emprestado. Dei um gemido de prazer quando ele me tocou e usei minha boca para beijar seu pescoço, causando arrepios nele. 

A música, o escuro, o corredor apertado e as pessoas à pouco metros de nós, eram a combinação perfeita para deixar tudo mais delicioso. Eu queria fazer aquilo durar mais, queria que aquela sensação de prazer não acabasse nunca. Porém os planos do Vitor eram diferentes. Meu parceiro logo baixou a própria calça, tirando antes um preservativo do bolso, e começou o trabalho. 

Menos de três minutos depois, ele já tinha acabado, e eu ficado completamente na mão. Parei de beijar sua boca, sentindo o fogo do meu corpo se transformar em ódio. Ele nunca tinha sido tão rápido. 

Ele se afastou do meu pescoço, tirou a camisinha, jogou fora e começou a fechar a bermuda. 

– Que merda foi essa? – Gritei, por conta da música e da raiva. Ele me olhou confuso e com um olhar perdido. 

– Você não gostou? – Parecia chocado. 

– Eu não consegui sentir o gosto! – A adrenalina que eu sentia antes, se transformava em um sentimento estranho, confuso. Não sei se era angústia ou mágoa. 

– Mas, eu achei… 

– Achou errado, Vitor! – Interrompi e empurrei ele com uma força desconhecida,  vi quando se segurou na parede para não cair. 

– Você tá louca? – Pegou meu braço com força e me virou pra ele. Pela primeira vez ele me olhou nos olhos, mas isso não me causou o conforto que eu queria, pelo contrário, vi que estava com raiva tanto quanto eu, ou mais. 

– Se você me bater de novo, eu vou gritar! – Ameacei confusa. Ele tinha me batido?

– Ninguém te ouve, sua idiota! 

De repente, eu quis sair dali. Não me sentia mais bem, leve ou feliz. A excitação tinha se transformado em ódio, o fogo em força e eu queria bater na cara do Vitor até ele sangrar. Fiquei confusa comigo mesmo, eu nunca tinha pensado daquele jeito. Já tinha me drogado antes, várias vezes, mas meus sentimentos nunca tinha ficado tão perturbados.  

– Eu vou embora! – Gritei, assustada com meus próprios pensamentos. 

– Vá, louca! Você me trouxe aqui, me agarra e agora fica dando piti! – Ouvi ele gritar atrás de mim, mas não respondi. Estava determinada a sair dali, e só não fui embora sozinha porque encontrei a Isabel no meio do caminho, cambaleando e zonza de prazer, gritando para quem quisesse ouvir que tinha acabado de dar o melhor beijo da sua vida. 

Enquanto esperávamos o Uber, eu olhei, um barulho de discussão chamou minha atenção e vi que dois caras brigavam e estavam prestes a se esmurrar. Mas não foi só isso que eu vi, atrás deles, olhando pra mim e dando um meio sorriso tinha um garoto magricela e esverdeado, com os dentes tão amarelos quanto o sol. Cada célula do meu corpo tremeu e eu quase senti o cheiro de morte. 

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