Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 14

Acordei com uma dor de cabeça que fazia até respirar ser um fardo. Enfiei o travesseiro no rosto, tentando evitar a luz do sol que entrava pela minha janela. Amaldiçoei Cristina por não ter ligado o ar condicionado. 

Uma voz ao longe me fez sentir uma pontada mais aguda, quem ousava gritar àquela hora? Apertei o travesseiro com mais força e assim como consegui sufocar a luz e a voz de quem quer que fosse, desejei abafar também a sensação de vazio que tinha no meu coração. 

O buraco no meu peito estava maior naquela manhã e eu me sentia de novo o lixo de sempre, com uma pequena diferença, meu coração estava cheio de um medo angustiante e que parecia ser capaz de me fazer perder a respiração. 

A voz da mulher ficou mais alta e o travesseiro não foi mais capaz de abafar, senti que um martelo se chocava contra minha cabeça. Quando minha mãe entrou no quarto, me surpreendi comigo mesma por não ter imaginado antes que aquela histeria toda era dela. 

– Eu estou tentando segurar a reputação da família e você faz uma merda dessa! – Entrou gritando e puxando com arrogância o lenço do meu corpo. Gritei de raiva e a dor de cabeça elevou o nível. – Eu vou te matar, Gabriela! 

Minha mãe veio pra cima de mim, sem me dá tempo de defesa. Eu ainda estava deitada, o que deu a ela uma chance a mais. Começou a me esmurrar como se eu fosse uma das amantes do meu pai e não sua filha. 

– Mãe, para com isso! – Gritei, tomada pelo desespero. 

– Você é uma maldição! Eu te odeio! – Ela tinha a fúria de um animal selvagem. Seus murros eram fortes e todos direcionados ao meu rosto, eu usava meu braço para me proteger, mas em vão. 

Eu gritava com dois objetivos: primeiro: porque doía; segundo: fazer com que alguém ouvisse e viesse me socorrer, mais o mundo e minha mãe pareciam surdos aos meus apelos. 

– Você enlouqueceu!!!!! 

– Sua imbecil, você não tinha o direito de nos destruir! Eu vou te matar!! – E ela parecia prestes a conseguir isso mesmo. Seus braços não se cansavam e as lágrimas já rolavam copiosamente em meu rosto. 

– O que deu em você, mãe??? – A voz do Artur encheu o quarto e em um segundo ele conseguiu arrancar ela de cima de mim. – Você vai matar a Gabriela, tá louca?

– Era isso mesmo o que eu devia fazer! – Gritou, se soltando do braço dele e me fazendo encolher na cama, mas por sorte ela não veio na minha direção. 

– O que eu fiz foi muito pior! – Meu irmão argumentou e eu não fazia ideia de qual tinha sido meu grande erro, mas também não perguntei. 

– Você tá doente, ela fez de safadeza! – Minha mãe parecia outra pessoa. Era como se alguém tivesse arrancada a mulher controlada e colocado um selvagem dentro dela. Já tínhamos brigado outras vezes e ela já tinha até me batido, quando eu era mais nova, mas nunca foi daquele jeito tão brusco. 

– Mãe, se você deu um jeito na minha burrada, pode consertar a da Gabriela também. – O Artur intercedeu, um pouco mais calmo. 

– Poder não é querer, meu filho, sua irmã não pensou na gente quando foi pra festa. 

Ah, então era isso, o maldito story. 

Ela me encarou, tive a impressão de vê remorso em seus olhos, mas só durou um momento. A fúria a dominou novamente e como uma boa assessora de imprensa, logo achou uma solução paliativa. 

– Você vai gravar um vídeo agora e vai dizer que seu celular foi roubado. – Ordenou, com a voz mais sombria que eu já tinha ouvido. 

Abri a boca pra dizer que jamais faria isso, ainda mais depois daquela surra, mas o gosto de sangue na minha boca, a ardência e dor nos meus olhos me fizeram ficar calada. Do jeito que minha mãe estava descontrolada, qualquer coisa fora do lugar que eu dissesse ia fazê-la me agredir de novo. Se eu já estava com medo de me olhar no espelho, imagine se ela surtasse novamente. 

– Mãe, a Gabriela tá em choque, não faz isso. – O Artur intercedeu, mas ela não cedeu. Sem dizer uma palavra, pegou meu celular no armário, do lado da porta e jogou em cima de mim. 

Eu ainda tremia, o Artur tinha razão, eu estava em choque, se não fosse a dor, eu acharia que o que aconteceu tinha sido com outra pessoa. 

– Fala que você foi assaltada e eles te bateram. – Ordenou, com a voz ríspida, e eu entendi o porquê assim que coloquei a câmera no meu rosto.  

Não consegui conter o grito de susto. Meus rosto inteiro estava vermelho e arranhado. Meu nariz sangrava e meus olhos apresentavam um inchaço que ameaça crescer. 

– Grava logo, Gabriela, eu tenho um defunto pra enterrar. 

– Você me surpreende, mãe. 

– Cala a boca, Artur, você tem que ficar do meu lado, tudo o que eu faço é por nossa família. – Rebateu, na defensiva. 

– Que família, mãe? Só você não enxerga que não existe mais nada de bom nessa casa, aliás nunca existiu. Um marido que trocava de amante mais do que de roupa, um filho que mata o pai, uma filha que odeia todo mundo e vive uma ilusão pros amigos e pras redes sociais, e uma mãe – nessa parte, o Artur deu uma pausa, como se sua grande fala fosse essa e ele queria ter certeza que tinha atenção da minha mãe – que tenta juntar os pedaço de algo que nunca existiu só pra não ter que mostrar pro mundo o quanto a família dela é podre e tudo o que ela vive é uma mentira. 

O tapa foi estralado e pegou nós dois de surpresa. O Artur olhou de mim pra minha mãe e dela pra mim. Seus olhos eram vazios e furiosos. 

– Grava agora, Gabriela. – Ordenou, ainda encarando o Artur. 

Temendo por meu irmão mais do que por mim, eu gravei. A voz quase não saia e o celular caiu da minha mão 2 vezes antes que eu conseguisse de fato segurá-lo. 

Gravei dizendo o que ela ordenara e finalizei prometendo dá uma queixa na delegacia. Me fiz de vítima e disse que só não tinha procurado ajuda ainda porque minha vida tava uma loucura desde a morte do meu pai. 

Fiquei impressionada com a facilidade que tive para fingir quando apertei o botão gravando. Eu me sentia um lixo, era um fato, não queria ser hipócrita daquele jeito e sentia ódio da minha mãe por ter me obrigado. Eu estava tonta de dor, e toda as veias do meu corpo parecia querer saltar pra fora, de tanta raiva que eu sentia da vida, do mundo, das pessoas. 

Porém sempre que eu gravava me sentia vivendo a vida de outra pessoa, me sentia como se de fato tudo o que eu falava fosse real, e dessa vez não foi diferente. 

Assim que postei o vídeo joguei o celular na cama e encontrei apenas minha mãe no meu quarto, não notei quando o Artur saiu. 

– Satisfeita? – Perguntei, com a voz destilando raiva e veneno. 

– Só vou ficar satisfeita se a repercussão desse vídeo consertar a besteira que você fez, sua idiota. – Os olhos não estavam tão pavorosos como antes, mas a agressividade continuava ali. – Se arruma, vamos sair pro enterro do Santiago em meia hora. 

Ela não esperou eu argumentar. Não perguntou se eu queria ir. Apenas saiu, me deixando sozinha.

– Ahhhhhhhhh! – Gritei, me levantando da cama e jogando tudo o que via pela frente na parede: Travesseiro, urso, livro, caixas… Eu estava com ódio, queria mais do que tudo ter outra mãe, outra família. Eu tinha nojo daquela casa, queria vomitar em cima da minha cama e esfregar o rosto da minha mãe lá. 

Quando me vi no espelho, a raiva aumentou. Mais alguns minutos me batendo e ela tinha desconfigurado meu rosto por completo. Comecei a chorar feito uma criança. Isso não era justo. 

Abri meu guarda-roupa e joguei no chão tudo. Sapato, roupas, cadernos… O que eu queria de verdade era avançar na minha mãe e deixar o rosto dela do mesmo jeito que deixou o meu. 

“Tem outro jeito de se vingar…” A voz era tão suave que precisei parar e me concentrar para vê se tinha ouvido direito. “Eu tenho uma ideia, amiguinha.” Ele me chamou do mesmo jeito de quando eu tinha 10 anos. Eu sabia que não precisava responder, ele sabia que eu queria. O Trix sempre teve as melhores ideias para me ajudar a livrar da raiva. 

Uma vez ele mandou que eu desenhasse um boneco em um papel e escrevesse em cima o nome Daniela – era uma menina que estudou comigo na 7ª série e espalhou pra sala inteira que eu tinha mandado nudes para o namorado dela. Era verdade, claro, mas ela não podia ter feito isso, já que também não era das mais santas. 

O Trix mandou que eu furasse a pontinha do meu dedo e marcasse com o sangue no boneco a parte do corpo da Daniela que eu desejava que quebrasse. Escolhi a boca, para ela aprender a não falar besteira. 

Uma semana depois, ela sofreu um acidente, andando de bicicleta, e quebrou vários dentes da frente. Precisou colocar implante e mudou de escola envergonhada. 

“Descobre no que seu pai tava metido e acaba com a reputação dele. Sua mãe vai junto…” O Trix ordenou, me tirando das lembranças. Passei os olhos por todo o meu quarto para vê onde ele estava, mas não vi. Talvez ele quisesse brincar de esconde esconde, só que não me levantei para procurar, estava analisando a ideia, e começava a ver que poderia ser uma boa saída. 

Eu não só me vingaria, mas também ao Artur. Nossos pais nos deram tudo que o dinheiro pode comprar, mas o preço foi alto. Amor, paz, alegria, consideração e respeito não se compram. 

O que mais uma criança preza é a presença dos pais. A mãe é a melhor amiga e o pai o herói. Só que isso foi tirado de mim e do Artur. Nós nunca tivemos referências positivas dentro de casa, e em nossas piores noites quem sempre esteve presente foi a babá – que por sinal mudava toda semana, já que ninguém aguentava nossas mal criações. 

Opinião alheia. Era isso o que meus pais mais prezam. Eles se preocupam com o que os outros pensam e fazem de tudo para mostrar perfeição. Se eles tiraram de mim e do Artur o que mais precisávamos, era justo que perdesse também o que mais buscavam. 

A ideia do Trix era a solução perfeita. Enxuguei as lágrimas, respirei fundo algumas vezes para parar de soluçar, limpei o sangue do rosto e fui pegar as fotos que eu tinha achado. De repente tudo ganhou um novo sentido. Não importava o quanto eu era podre e quebrada por dentro, eu tinha um propósito: destruir minha família, acabar com a fama de perfeição que meus pais tanto lutaram para ter. 

Peguei as fotos de dentro da caixa da gaveta que tinha embaixo da minha cama e contei quantas tinham. Como no dia anterior, as imagens me deram ânsia. Todas a garotas eram crianças, deviam ter entre 10 e 12 anos e todos os homens eram velhos. Eu não conseguia olhar por muito tempo, nem mesmo observei o que faziam com as meninas, as posições, se estavam dormindo ou acordadas. Eu simplesmente não conseguia. Meu estômago revirava, eu ficava enjoada, tonta… Passei as fotos rapidamente e fui direto procurar a do meu pai, o único conhecido, eu tinha colocado todas as outras em cima. 

Pelo menos era o que eu achava. Joguei todas as fotos em cima da cama, no único lugar vazio que tinha, mas não vi a que procurava. Meu coração acelerou e comecei a suar frio. Onde tinha ido parar aquela maldita foto? Com o quarto daquele jeito, era impossível eu achar qualquer coisa. 

Ainda assim, procurei e nada. Olhei embaixo da cama, do guarda roupa, dos armários e não achei. Não estava lá, comecei a refazer meus passos desde a hora que achei. Minha mente estava um borrão e a dor de cabeça não me deixava raciocinar direito. Eu não conseguia lembrar de quase nada da festa… Mas e antes, onde eu tinha ido? 

Depois de muito esforço, lembrei da lanchonete e do Mateus. Eu poderia ter deixado cair nesse meio tempo. Pronto, tudo ia se destruir de vez. Se alguém achasse aquela foto, eu estava lascada. De fato, minha mãe me mataria. 

Suando frio, comecei a sentir falta de ar. Pensei em sair do quarto, mas seria pior, se minha mãe me visse daquele jeito, saberia que tinha alguma coisa errada. Tentei manter a calma e peguei meu celular. Eu não lembrava mais o nome nem o endereço da lanchonete, mas tinha que dá um jeito de voltar lá e vê se tava embaixo do banco. Talvez, muito provavelmente, eu tivesse essa sorte. Tinha que tentar. 

Entrei no instagram e fui direto no da Isabel, tentando desesperadamente ignorar as notificações na minha própria conta. Eu não tinha condições de ler nenhum comentário. Procurei o Mateus na conta dela e achei sem dificuldades. Quando coloquei Dantas apareceu a família inteira dele. Pelo visto minha amiga estava mesmo caidinha pelo Roberto, que devia ser mais chato do que o Mateus.  

Fiquei tentada a olhar o perfil dele e passei o olho rápido nas primeiras fotos. A maioria era com os pais e o irmão, outras de paisagem. Fiquei tentada a olhar tudo, mas não podia perder o foco. Voltei pro início da página e mandei uma mensagem, indo direto ao ponto e pedindo o endereço e o nome do lugar que tínhamos ido. 

Assim que apertei enviar, ouvi o grito da minha mãe dizendo que saia em 10 minutos, e eu soube que precisava correr para me arrumar. Entrei no banheiro evitando o espelho e indo direto pro chuveiro. Desejei que a água lavasse não só o meu corpo, mas meu coração e minha alma. A raiva que eu sentia era tão grande, que eu tinha a sensação que preenchia todo o ambiente. Quando passei a mão de leve no meu rosto e senti o quanto estava inchado desejei do fundo do meu ser que fosse minha mãe sendo enterrada hoje. 

Terminei o banho e percebi que estava chorando, e isso não era bom. As lágrimas faziam as feridas arderem. Passei um hidratante e me perguntei o que ia fazer pra diminuir o inchaço e aquele roxo, mas logo lembrei que não precisava me preocupar com isso. Agora todos pensavam que a surra tinha sido resultado de um assalto, porém logo eu iria poder dizer pra todo mundo que minha mãe era a culpada. 

Aquele pensamento me deu forças. O ódio aumentou, mas também o desejo de vingança. Sai do banheiro renovada e vesti o primeiro vestido preto que encontrei na pilha de roupas em cima da minha cama. Peguei as fotos e joguei todas dentro da bolsa. Eu não podia correr o risco de perder mais nenhuma. 

Minha mãe e o Artur já tinham descido e deixei um recado, pedindo pra Cristina arrumar meu quarto quando chegasse. No elevador olhei o celular pra vê se já tinha resposta e meu coração deu um salto quando vi a nova notificação. 

 

“Não precisa ir até a lanchonete, o que você quer tá comigo.” 

 

Pelo espelho do elevador, vi o quanto fiquei pálida com aquela mensagem.Eu estava lascada, o garoto que sabia ler minha alma tinha agora minha vida em suas mãos.  

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