Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 15

O velório foi como eu imaginei: um circo. A única coisa que eu não esperava ali era ver os dois policiais do dia anterior. Eles não falaram comigo, mas através dos óculos escuros eu vi o quanto observavam a família desolada. 

A imprensa veio em cheio, mas claro que a pauta não era o choro desesperado de Rosemary Ferri, nem a filha reclusa ou o assalto que a deixara com o rosto desfigurado. O tema principal eram as suspeitas que rondavam a morte do meu pai e a ida do meu irmão ao velório. 

“Seria Artur Ferri tão frio ao ponto de vim pro enterro do pai que ele diz ter matado e chorar?”; 

“A mãe do garoto nega o envolvimento dele na morte do marido, mas se não foi o Artur, que chegou a confessar no instagram, quem foi?”; 

“Manoela … se matou na tarde de ontem, estaria também envolvida na morte do sogro ou Artur fez tudo sozinho?” 

Me perguntei porque minha mãe não dava um jeito de tirar aquelas víboras de lá. Passei o velório inteiro sentada no sofá, observando pessoas se aproximarem e se afastarem do caixão, algumas choravam – a maioria nunca tinha saído mais de uma vez com meu pai –, outras murmuravam alguma coisa, e aqueles que eram empregados há mais tempo da Art’s Ferri davam uma risada disfarçada. Assim como em casa, meu pai devia ser um monstro lá. 

O Artur ficou o tempo todo do meu lado. Não falamos uma palavra, não precisávamos, eu sabia que ele estava com nojo daquilo tanto quanto eu. Para me distrair, fiquei imaginando como conseguiria a foto de volta sem dá nenhuma vantagem ao Mateus. 

Quando fizeram menção de que já estava na hora de enterrar o corpo, esperei o Artur se levantar para que eu o seguisse, mas isso não aconteceu. 

– Você não vai acompanhar? – Perguntei. 

– Pra quê? Não quero ver a mamãe fingindo desespero. Nenhum de nós três suportavamos ele, eu fiz um favor pra todos nós. 

– Artur…

– Para, Gabriela, eu já disse que foi eu. – Me perguntei porque eu não conseguia acreditar, aquelas fotos na minha bolsa provam que o ser humano é capaz de fazer coisas horrendas e depois ainda colocar um sorriso no rosto. Meu irmão não sorria, parecia perturbado com o que dizia ter feito, então porque eu não acreditava? Que motivos ele tinha pra mentir e correr o risco de ser preso? 

– Você tá reagindo muito bem ao que aconteceu com a Manuela. – Mudei de assunto, imaginando que ou a mamãe já tinha contado ou ele tinha visto na internet. 

– Ela conseguiu o que queria. – Disse, com uma voz mórbida e aquela revelação me pegou de surpresa. As poucas vezes que vi a Manuela, achei ela uma garota cheia de vida, apesar de ser reclusa e metódica. Não tinha sinais visíveis de ser suicida. 

– Eu não fazia ideia de que ela queria se matar. – Falei, tirando o óculos escuro. 

– Motivos ela tinha de sobra. – Meu irmão me encarou ao dizer isso e senti um arrepio diante do seu olhar sombrio. 

– Quais? – Sussurrei. 

Ele abriu a boca para falar, mas voltou a fechar. Levantou, foi até o bebedouro, bebeu água e trouxe pra mim. 

– Vai cuidar do seu rosto assim que sairmos daqui. – A mudança de assunto me deixou confusa, mas logo voltei a prumo. 

– Quais eram os motivos dela? – Insisti, depois de beber a água de uma vez. 

– Você sabe como é…os mesmos que a gente. – Respondeu, pensativo. 

– Família? – Aquilo não fazia sentido. A família Sanges parecia viver em um eterno limbo de amor. Eles viviam planejando almoços e jantares, além de fazerem viagens todo mês. 

– Sim, mas nada que valha a pena saber. – Disse e voltou a se levantar, dando o assunto por encerrado. 

Mandei uma mensagem pra Isabel perguntando se ela estava viva. O uber tinha deixado ela primeiro em casa e estava tão bêbada que acho que levou quase uma hora pra subir o elevador. Voltei pro instagram e respondi a mensagem do Mateus. 

“Onde nos encontramos, seu idiota? Não faça nada sem falar comigo.”

Ele estava online. Para quem criticava meus usuários, ele até que era bem ativo. 

“Estou saindo do IML, pode ser no shopping Flamboyant?” Ele estava louco se achava que eu ia tratar de um assunto tão sério em um lugar público. 

“Não, na minha casa, conversamos na área de leitura do prédio.”

Ele demorou alguns minutos para responder e isso fez meus dedos tremerem de nervoso. 

“Ok, manda o endereço.”

Enviei e disse que podia ser umas 19h. Ele deu um joinha e o online desapareceu. 

Antes de sair totalmente da conta, fiquei tentada a olhar as mensagens, e quase chorei quando li um “fica bem, estamos enviando energias positivas pra você e sua família” em meio a tantas acusações de “vagabunda; assassina… matou o próprio pai junto com o irmão”. 

Tinha também: “Mereceu ser assaltada, a surra foi pouca, deveria ter morrido!” e “Os ricos são tudo gananciosos, quanto mais tem mais querem! Raça desgraçada!” 

Sai rápido do aplicativo, antes que as lágrimas rolassem. Eu não conseguia acreditar no quanto as pessoas eram ruins. Dias antes elas queriam saber da minha vida, como eu tava e o que fazia, porque agora me jogavam na cruz? 

Quando estava prestes a me levantar para pegar mais água e tentar acalmar o reboliço no estômago e a angústia no coração, um repórter se aproximou. Ele tinha um celular apontado em minha direção e soube na hora que iria gravar tudo o que eu disesse. 

– Porque você e seu irmão não se aproximam do corpo? – Questionou, sem disfarçar o tom acusatório. 

Tentar passar por ele, mas não consegui, seu corpo bloqueou minha saída. 

– Sua mãe afirma que não foi o Artur que matou o Santiago, então quem acham que foi? Onde foi o assalto? Seu rosto está muito machucado, quantos caras eram? –  Pensei em continuar calada, mas um pensamento mudou minha estratégia. Não era vingança que eu queria? Então estava na hora de começar, eu só precisava ter cuidado para não prejudicar o Artur.  

– Minha mãe pediu para que eu e meu irmão não chegássemos perto do caixão. – A guerra estava declarada e para deixar a coisa mais real, tossi, como se estivesse tentando segurar o choro. 

– Porquê? – Perguntou o repórter, ávido por mais detalhes. 

A resposta surgiu com tanta naturalidade em minha mente, que me assustei. 

– Ela não deu nenhuma explicação, apenas ordenou. Acho que quer nos proteger, sabe? – Funguei e o jornalista chegou mais perto. – As pessoas podem dizer coisas cruéis. 

– Que tipo de coisas? – Insistiu, mas dessa vez eu consegui passar por ele. O repórter já tinha o que ninguém mais tinha e eu minha vingança. Pensei em acrescentar que a história do assalto era mentira, mas seria demais afrontar Rosemary Ferri assim. O q ue eu tinha falado não ia causar tantos danos assim, então estava tudo bem. 

Sai da sala e ele me seguiu fazendo mais um milhão de perguntas, porém não dei atenção. Procurei o Artur, mas não o encontrei,. Olhei para longe e vi várias pessoas ao redor do túmulo do meu pai. Os coveiros jogavam terra pra fechar a cova e foi quando me dei conta de que nunca mais eu veria ele. O homem que eu desprezava e odiava, mas não podia negar que por muito tempo, tinha sido o homem que eu venerava e admirava. Um dia eu já quis ser como ele. 

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