Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 18

– Bom dia, minha filha. – Minha mãe disse como se nada tivesse acontecido, quando viu que a Isabel se aproximava da mesa do café junto comigo. – Olá Isabel, bom ter você pra fazer companhia a Gabriela, neste momento. – Minha amiga deu um “bom dia” murcho e assentiu com a cabeça, provavelmente lembrando da minha revelação na noite anterior. 

– Cadê o Artur? – Perguntei, assim que sentamos. 

–Tomando banho, vamos pro enterro da Manuela. – Disse, com uma voz pesada, e eu me perguntei se aquela tristeza era real ou só existia porque tínhamos visita. 

– Eu vou também! – Anunciei, e minha mãe pareceu surpresa. 

– Mas você tem visita. – Tive a impressão que ela não queria que eu fosse e isso só me atiçou mais ainda. 

– Ah, não se preocupem comigo, eu já estou de saída porque hoje tenho inglês. 

– Podemos te deixar lá, amiga, no caminho. 

– Fica de boa, Gabriela, eu tenho que ir em casa pegar meus materiais. 

Assenti e não dissemos mais nada referente ao assunto. Minha mãe começou a puxar conversa com a Isabel, como sempre fazia, só que minha amiga estava arredia. 

Terminamos o café, a Isabel pediu um Uber e antes de ir embora, me fez prometer, pela milésima vez, que iria buscar todas as informações possíveis com o Mateus sobre o irmão. 

– Faça isso por mim, amiga. – Suplicou, me abraçando animada. – Eu só não vou porque se ligarem do curso de novo para o meu pai reclamando de falta, ele vai pirar. – Acrescentou, com uma voz tristonha. Eu sabia que era drama. O Eduardo não se importava se a Isabel faltava ou ia para as atividades importantes, ele até reclamava, mas só pra fingir que estava por dentro. Ela só dizia essas coisas porque no fundo não queria decepcioná-lo e desejava a todo custo chamar sua atenção. 

– Então corre, para não se atrasar. – Incentivei e nos despedimos. 

Assim que a Isabel foi embora, minha mãe chamou o Artur, que saiu do quarto com o rosto inchado de chorar. Isso me partiu o coração. Apesar de sermos diferentes, eu sentia como se meu irmão fosse parte de mim, e me doía vê-lo sofrer. 

– Passa mais hidratante no rosto. – Minha mãe ordenou, com uma voz meio pesada. Fingi que não ouvi e ela insistiu. – Filha, passa hidratante para não piorar. 

– Como se você se importasse de verdade. – Falei, mal-humorada. Ela se calou e saímos de casa. 

No caminho, que fez questão de fazer sem motorista, deu mais instruções:

– Não falem com ninguém, principalmente com imprensa. 

– Por mim, eu não ia pra essa palhaçada. – O comentário do Artur me assustou. Era o enterro da namorada dele, que tinha se matado. 

– Vê se você não fica com essa comportamento lá, Artur.– Minha mãe repreendeu, com a voz ríspida. –  A Manuela era sua namorada e acho bom você fingir desespero porque o Tiago está gritando aos 4 cantos que você incitou ela a se matar. – Como eu tinha suspeitado, no dia anterior. 

– Porque ele é um idiota que nunca enxergou como a filha estava infeliz. 

– Vocês são todos uns maus agradecidos! – Ela saiu em defesa do Tiago e da Silvana. – Nos matamos de trabalhar para dar o melhor pra vocês e recebemos o que em troca? Rebeldia e ingratidão! 

– Pagar alguém para limpar a barra do seu filho não é criar alguém direito, mãe. – O que tinha dado no Artur? É claro que eu sabia que os métodos dos meus pais para nos “ajudar” eram errados, mas dessa vez a coisa era séria, porque ele tava sendo contra? Era da liberdade dele que estávamos falando. 

– Dá próxima vez que a polícia me chamar, eu te entrego. – Ameaçou. 

– Dúvido, se eu for preso, você vai junto. – Ele tinha razão e ela se calou. Minha mãe ia fazer de tudo para que provassem a inocência do Artur, caso contrário, toda a máscara dos Ferri caia.

– Mãe… – Chamei cautelosa. – Qual vai ser a defesa do Artur? – Perguntei, mais preocupada com a vida dele, do que ele próprio. 

– O Marconi tá vendo isso, mas muito provavelmente os advogados vão alegar que ele estava sob efeito de drogas quando postou aquela maldita foto. 

– E eu vou negar. – Ameaçou. 

– Por que você tá fazendo isso, seu imbecil? Ela só quer te livrar! – Foi a minha vez de explodir. Era certo que eu odiava minha mãe, mas não queria vê meu irmão preso, não por medo do que os outros podem pensar, mas pela vida dele mesmo. 

– Só vocês não percebem que eu não quero ser livre! Eu matei o papai, porque ninguém acredita? – O Artur parecia prestes a chorar. 

– Eu acredito. – MInha mãe anunciou. – Mas você tem razão, eu não vou deixar um filho meu ser preso, nem que eu mesma tenha que matar pra isso. – Seu tom foi sombrio e me deu calafrio. 

– Mas eu não acredito. – Falei e minha mãe me olhou pelo retrovisor, o Artur abaixou a cabeça. – Eu sei quando você tá mentindo. Todas as vezes que você afirma isso, não me olha. Tem alguma coisa errada nessa história e eu vou descobrir o que é. 

– Gabriela, não mexa no que não é assunto seu. Deixa as investigações para polícia. 

– Que investigação, mãe? Essa que você está pagando para que não tenha? – Minha ironia ofendeu. 

– Não entendi sua indireta, Gabriela, ontem eu estava justamente sendo interrogada por causa do seu pai. 

– Quem falou com você? – Perguntei, curiosa para saber se tinham sido o Roger e o Felipe. 

– O delegado se chama Roger, o outro eu não sei, porque?

– São os mesmos que foram vê o corpo da Manuela. – Minha mãe se remexeu no banco, após ouvir essa informação e tratou de mudar de assunto. 

– Por favor, se comportem, eu não quero a imprensa tendo o que falar de nós. Já basta a merda que você falou ontem de mim, Gabriela. – Me olhou feio, e eu entendi o recado. Ela tinha assuntos mais importantes para tratar do que um boato que eu tinha começado, porém da próxima vez eu não passaria despercebida. 

Chegamos no cemitério, bem mais distante do que o que meu pai tinha sido enterrado, e a primeira coisa que eu fiz foi procurar o Mateus no meio de um monte de gente em volta do caixão. 

A família Sanger não era tão conhecida na imprensa, mas devido as circunstâncias que rodeavam a morte de Manuela somando com as suspeitas do meu irmão e o assassinado do nosso pai, repórteres se aglomeravam no local como formiga.

Eu e o Artur ficamos do lado da nossa mãe e fomos andando juntos até o aglomerado de gente. Antes de nos aproximarmos completamente do caixão, que estava fechado e exposto na área externa do cemitério, o delegado Roger nos interceptou. 

– Bom dia, senhora Rosemary. – Minha mãe deu um pulo para trás ao vê-lo e não conseguiu disfarçar impaciência. 

– O que o senhor quer? Estamos em um enterro. – Relembrou.

– Eu sei, e não precisa se preocupar, não vou fazer nenhuma pergunta inoportuna. Só gostaria de conversa com o Artur, informalmente. – A voz dele era controlada e passava autoridade, se fosse eu, já teria cedido, mas minha mãe é dura na queda. 

– De jeito nenhum! – Protestou e se impôs na frente do Artur. – Vocês só falam com meu filho na presença de um advogado. 

– Ele não é mais menor de idade, acho que pode responder por si só. 

– Eu vou falar com ele, mãe. – O Artur anunciou, surpreendendo a todos nós, inclusive alguns poucos jornalistas que já tinham notado nossa presença. 

– Artur, fica na sua. 

– Mãe, você não manda em mim, eu vou falar com ele, e se você tentar me impedir tem um monte de repórter nos fotografando, te garanto que as notícias não serão boas. – Como uma boa assessora de imprensa, Rosemary sabia que era melhor não atiçar as feras, e a ilusão da transparência era o melhor remédio. – Vamos?

O policial deu um sorriso debochado pra minha mãe e seguiu o Artur. 

– Vai atrás, Gabriela. – Disse, entredentes. 

– Como é, mãe?

– Segue eles e vê se o seu irmão não vai falar nenhuma bobagem. 

– Mas e os repórteres?

– Deixe que eu cuido disso. Vai. 

Obedeci e segui em direção ao local onde velam corpos, ciente das flashes que me seguiam. 

Fiquei do lado de fora, com a parede de entrada bloqueando meu corpo, e me posicionei de um jeito que desse para ouvir a conversa. 

– Vou direto ao ponto. – Rocher começou a dizer com uma voz dura. – A conversa é informal, mas eu quero saber a verdade. Você matou ou não seu pai?

Alguns segundos de silêncio e eu podia sentir a hesitação do Artur. 

– Sim… – Respondeu em uma voz tão baixa, que eu quase não ouvi. 

– O que deu em você para assumir isso publicamente?

– Eu ia me matar, não estava me importando com merda nenhuma. 

– E quais foram suas motivações? – Eu não era perita no assunto, mas aquilo parecia muito com um interrogatório. 

– Eu odiava meu pai. Ele sempre maltratou minha mãe, nunca deu atenção pros filhos, sua preocupação era unicamente em aparecer com um boa imagem, mas de fato, ele não passava de um monte de lixo. – Eu sentia a mágoa na voz do Artur e sabia que, ao menos aquilo, era verdade. 

– Sua mãe tá acusando outra pessoa de ter feito isso. 

– Quem? – Mesmo sem ver, senti a curiosidade do meu irmão. 

– Isso não vem ao caso, mas ela afirma que não foi você e diz que tem como provar. 

– Minha mãe tá blefando. – Meu irmão tinha convicção. 

– Eu não acredito que você tenha matado o Santiago. – A revelação pegou não só a mim, mas também ao meu irmão de surpresa. 

– É o que? – Sua voz era tão baixa quanto antes. 

– Acho que você tá acobertando alguém, o porquê e quem eu ainda não sei, mas vou descobrir. – O Artur ficou calado e o Roger continuou: – É muito estranho você assumir assim, sua família tem dinheiro, você poderia fugir, culpar alguém, sei lá. 

– Você são todos uns imbecis. 

– Acho que o único imbecil aqui é você garoto, ou melhor, – deu uma pausa e continuou – talvez você seja o mais inteligente de todos nós. – Você sabia que a Art’Ferri está envolvida em um esquema de corrupção? – Perguntou, mudando de assunto. 

Aquela informação não me surpreendeu, eu sabia que meu pai não era todo honesto. 

– Nunca tive comprovação, mas já desconfiei. – Meu irmão assumiu, isso não era segredo para ninguém, várias matérias já foram publicadas especulando que Santiago Ferri teria recebido propina para fazer propaganda para políticos. 

– Ele tinha muitos inimigos, e sabia muita coisa sobre várias pessoas influentes. 

– Eu já disse, eu matei ele. – O Artur afirmou mais uma vez, porém sem muita convicção. 

– Onde tá seu avô? – O Roger perguntou, e a mudança de assunto aleatória me deixou super confusa. 

– Avô? Qual? Não tenho mais, minha mãe disse que os pais dela morreram ainda quando éramos pequenos e os do meu pai, acho que antes da Gabriela e eu nascermos. 

– Hum…

– Porque a pergunta?

– Nada, só para conhecer o histórico da sua família mesmo. Vamos? 

O Artur não insistiu, mas com certeza tinha achado aquilo tão estranho quanto eu. Me afastei rápido da sala e andei a passos largos para a multidão. Assim que me viu, minha mãe me interrogou com os olhos e eu apenas assenti. 

Eu não conseguia tirar aquela pergunta da minha cabeça. Porque o Rocher queria saber do meu avô? Será que tinha perguntando referente ao paterno ou materno? O Artur não mentiu. Não tínhamos muita informação sobre nossos avôs ou avós. Minha mãe sempre falou superficialmente sobre os próprios pais e meu pai deixava claro pra todo mundo que odiava os dele, que não passavam de bêbados. 

Um choro alto chamou minha atenção e como tinha muita gente ao redor do caixão, não consegui identificar que era a Silvana, até ela gritar “Minha filha, não!”

Lembrei do aviso de minha mãe e pensei em me aproximar, mas fui impedida quando senti um vento frio percorrer todo o meu corpo, apesar do calor desértico que fazia.

Olhei em volta e desejei que eu tivesse enganada, que ao menos daquela vez, o frio não representasse a presença do Trix. Apesar de ele ser meu amigo, eu não precisava aumentar meu humor já pesado com a negritude que a presença dele trazia. 

Como já era de se esperar, eu não fui atendida e vi meu amigo sorrindo pra mim atrás de uma árvore. 

Ao ver que eu já tinha detectado sua presença, ele se escondeu de novo atrás da árvore e colocou a cabeça pra fora. Ficou fazendo esse jogo, até que me cansei e fui até ele. 

Tremendo da cabeça aos pés e respirando ofegantemente, cheguei perto do Trix. 

– Ninguém pode me ver falando com você, vão achar que eu enlouqueci. – Sussurrei, enquanto ele se sentava e cruzava as pernas, igual quando eu era menor e ele aparecia para me fazer companhia. 

“Senta comigo, só um pouquinho…” Pediu, com a voz infantil irritante, e eu obedeci. Sentei na sua frente, de uma forma que a árvore bloqueava os outros de me verem. 

– O que você quer, Trix? – Não sou mais criança. 

“Quero brincar.” – Choramingou. 

– Mas eu não. Eu cresci, Trix, e não tenho mais paciência para os seus joguinhos. Depois que cresci, passei a odiar essas suas visitas que tinham o intuito de “brincar”. Ele ficava parecendo uma criança mimada birrenta que não tinha amigos (o que devia ser verdade). Nessas horas, nem parecia que ele tinha ideias ruins absurdas. 

O Trix fez uma careta e previ que lágrimas viriam, eu não queria isso, chorando, meu amigo ficava mais feio do que já era. Seu rosto esverdeado ficava mais exagerado e seus dentes pareciam que iam saltar pra fora. 

– Desculpa, eu não quis ser grossa, só estou chateada com tudo o que tá acontecendo. 

“Algumas coisas são culpa minha…” Disse, com um tom animado e dando uma risada alta, mas que não precisei me preocupar, só eu ouvia. 

– Do que você está falando? – Perguntei, confusa. 

“Eu estava entediado, e resolvi me divertir…” 

– O que você fez? – Tentei disfarçar o medo em minha voz, mas o tom trêmulo não deixou.

Ele deu um risada maligna, que não condizia em nada com uma criança da idade dele e mudou de assunto.

“Como está os planos para se vingar da sua família.”

– Ainda não avancei muito. 

“Você quer brincar de caça ao tesouro, Gabriela?”

– Quero, Trix. – Respondi, desanimada.

“Procura no quarto da sua mãe…” 

– Procurar o que?

Mas meu amigo não me respondeu, antes de evaporar, ele me pareceu ficar mais pálido do que já era. 

– Com quem você tá falando? Porque tá sentada ai sozinha encarando uma árvore? – Olhei pra minha posição e vi que de fato estava muito estranha, me levantei depressa e não consegui encontrar uma resposta. 

– Gabriela? Você ta bem? – O Mateus parecia tão confuso quanto eu. – Com quem você estava falando? – Repetiu, e amaldiçoei o Trix. Ele tinha sentindo a presença de alguém, por isso vazou, me deixando em maus lençóis, fazendo parecer que eu tinha enlouquecido. 

– Eu…e…eu ta..tava pensando alto. – Gaguejei, nem uma formiga acreditaria em mim. 

– Você tá pálida, parece que viu fantasma. – Porque eu não conseguia enganar aquele garoto? Eu não tinha saída, não importasse o que eu dissesse, ele ia saber que era mentira. 

– Porque você quer se meter na minha vida? Fica longe de mim! – Eu não queria dizer aquilo de verdade, mas a agressividade era a única forma de fazer ele esquecer a cena. 

– Fala baixo. – Ordenou e eu engoli em seco, não percebi que tinha gritado. – Você tá no enterro da minha prima, sua cunhada, tenha respeito, por favor. – Ele pareceu realmente irritado com minha postura, e claro que eu me arrependi.

– Desculpa. Vamos sair daqui? Eu ainda não falei com seus tios. – Sugeri, desesperada para mudar de assunto. 

– Eles não têm condições de falar com ninguém, mas se quiser, podemos ir pra perto de todo mundo. 

Saímos de lá e fomos em direção a multidão, mas o olhar analisador do Mateus em cima de mim, deixava claro que depois ele ainda iria insistir para saber o que eu fazia sozinha atrás de uma árvore. 

O enterro inteiro se passou como um borrão. Eu ouvia pessoas chorando, gritando, vi minha mãe soluçar e abraçar o Artur. Não me importei com nada daquilo, não por não gostar ou sentir a morte da Manuela, mas por achar tudo uma grande encenação, principalmente depois do comentário do meu irmão sobre o sogro. Sem falar que não saia da minha cabeça a menção do Roger ao meu avô e a dica do Trix. 

A cena toda não demorou muito, uma hora depois saímos de lá. 

– Gabi! – Me virei ao som do meu nome entrecortado e pronta para dá uma resposta pra ele, mas me contive quando vi seus olhos vermelhos. – Podemos conversar?

Minha mãe já estava no carro com o Artur e abriu o vidro para ver o motivo da minha demora. 

– Agora eu não posso. – Respondi, parte de mim querendo muito atender seu pedido. 

– E à noite, podemos marcar na mesma lanchonete… – Sugeriu e confesso que fiquei um pouquinho feliz com a ideia de vê-lo de novo. 

– Beleza! 

– Filha? – Minha mãe chamou com uma voz branda. 

– Preciso ir. 

– Obrigado por ter vindo. – Ele disse, quando eu já entrava no carro e assenti. 

Minha mãe deu a partida, mas pelo retrovisor eu vi o Mateus me observando e senti uma pontada no coração. Mesmo de longe, eu tinha a impressão que ele podia ler todos os meus pensamentos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s