Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 19

Já fazia 5 minutos que eu tinha chegado, incrivelmente adiantada, e o embrulho no estômago só aumentava. 

Eu estava dividida entre achar que essa sensação era pela expectativa de ver o Mateus e a ansiedade de compartilhar com alguém o que eu tinha encontrado no quarto da minha mãe. 

– Desculpa o atraso! – Olhei automaticamente no relógio e vi que ele estava na hora. 

– Relaxa, acabei de chegar. – Meu coração bateu levemente mais rápido quando ele sentou na minha frente e eu vi que apesar da expressão cansada, tinha um ar revigorado, de quem tomou um belo banho gelado para conseguir relaxar. Ele ficava mais bonito ainda daquele jeito. 

– Vamos pedir logo? 

Assenti e chamamos o garçom. Ele pediu batata frita, hambúrguer e um creme de morango. Optei pela batata e um suco. Assim que o garçom saiu, abri a boca para ir direto ao assunto, mas ele me interrompeu:

– Seu rosto está melhor? Menos dolorido? – A preocupação repentina me comoveu. – Na loucura de mais cedo, acabei não perguntando. – Justificou. 

– Tá sim, já está clareando mais. E você, como tá? – Acrescentei, só por me dar conta que não tinha feito essa pergunta nenhuma vez, e o cara tinha perdido a prima. 

– Eu tô bem, só fico meio chateado pelo o quê meus tios estão passando, mas tenho pedido a Deus para confortar o coração deles. – Disse, enquanto colocava uma mão na bochecha e apoiava o cotovelo na mesa, evidenciando seu cansaço. 

– Tomara que Deus atenda seu pedido. – Falei sem pensar, e com um tom tão amargo que me surpreendeu. 

– Ele sempre atende os pedidos daqueles que pedem com fé. – O Mateus disse, se endireitando e ficando reto novamente, como se aquele fosse um assunto muito sério. – Você não acha? – A pergunta me pegou de surpresa, eu não parava para pensar em Deus nunca. 

– Não sei. – Respondi, com sinceridade. – Eu não penso muito nessas coisas. – Acrescentei, para minha surpresa, envergonhada. 

– De vez em quando tenta, você vai ver como Deus pode nos surpreender na resposta dos nossos pedidos. 

– Meu avô ta vivo. – Falei, desesperada para mudar a pauta da conversa. Por algum motivo falar de Deus me deixou incomodada. Não era que eu não acreditasse Nele, eu falava com um fantasma, sabia muito bem que coisas espirituais existem, então a existência de Deus não era algo irreal pra mim. Porém era estranho, diferente do Trix, Ele parecia um ser distante, incapaz de penetrar no meu mundo. 

– Minha mãe disse a vida toda pra gente que ele tinha morrido, tanto ele quanto minha avó, mas agora eu sei que está vivo. – Expliquei, diante de sua expressão confusa, com a mudança de assunto. 

– Como você sabe que ela tá mentindo? E porque a Rosemary faria isso? 

Contei sobre a pergunta do Roger para o Artur e disse que isso me fez querer olhar as coisas da minha mãe, ocultando a sugestão do Trix. 

– Procurei nas coisas dela e, claro, como não sabia o que procurava, foi difícil. – Parei alguns segundos para ver se tinha a atenção dele completa, quando encontrei seus olhos me encarando, continuei. – Já estava quase saindo do quarto, quando pensei em olhar no closet. Lá só fica as roupas dela, então como meu pai não mexe, seria um ótimo esconderijo. Foi quando eu achei isso, embaixo dos vestidos de festa. 

Peguei minha mochila e tirei de dentro a caixa que encontrei. Os olhos atentos e brilhantes do Mateus me dava mais vontade de aumentar o suspense, como se a coisa toda não passasse de um filme. 

– Vai logo, Gabriela. – Pediu ele, impaciente, diante da minha tentativa de abrir a caixa devagar.

Abri a caixa e meu coração bateu forte como se fosse a primeira vez. 

– O que é isso? – Pegou o objeto da minha mão e começou a vasculhar. 

A caixa guardava fotos, cartas e cartões postais. Todas enviadas pelo meu avô Manoel para minha mãe. 

– Seu avô tá rodando o mundo…? – Perguntou com cuidado, olhando as imagens de paisagens belíssimas do Caribe, Havaí, Dubai e Suíça. 

– Sim… – Respondi, já temendo o momento em que ele ia encontrar o que talvez fosse o maior segredo da minha mãe. 

– E as cartas? Você leu? – Ele não tirava os olhos dos papéis. 

– Não tive tempo, fiquei com medo da minha mãe aparecer e ver. – Aquilo era meia verdade, o fato era que a covardia venceu a curiosidade. Eu tinha medo do que encontraria ali. 

– Você quer ler? – Ele perguntou, me encarando, deixando claro que só seguiria em frente mexendo naquilo, se tivesse minha permissão. 

– Agora não. – Eu queria que ele visse logo tudo o tinha ali dentro, precisava compartilhar com alguém aquele peso. 

O Mateus assentiu, e continuou vasculhando as fotos, até que…

– Meu Deus! – Colocou a mão na boca e me olhou assustado. Senti as mil perguntas que ele tinha no olhar, mas foram caladas pelo garçom que veio entregar nosso pedido. 

– Gabriela, o que é isso? – Questionou, assim que o garçom saiu. 

– Exatamente o que você tá vendo. Meu avô matou minha avó. 

– Meu Deus… – Ele estava assombrado, assim como eu fiquei quando vi a foto. Mas ainda tinha mais.

– Continua olhando. – Ordenei, cabisbaixa. 

– Ainda tem mais? 

– Mais no fundo tem uma folha de diário. 

Devagar, ele foi retirando os outros cartões postais e deu um suspiro pesado quando encontrou o papel. 

Abriu a folha amarelada e leu. Seu rosto ficou pálido e os olhos arregalados. Assim que terminou, largou o papel na mesa e eu tremi ao relembrar o que tinha escrito ali.  A letra infantil me deu calafrios. 

“Querido diário, 

hoje o papai matou a mamãe. Ela pegou ele fazendo aquelas coisas estranhas comigo e que doem muito. Ele ficou assustado quando ela entrou no quarto e começou a bater muito nela quando ela disse que ele ia pagar o que estava fazendo comigo. 

Ele bateu nela com uma coisa pesada, que não consegui ver o que era porque eu chorava muito. Ela caiu no chão e começou a sangrar. Depois disso, ele voltou pra cima de mim e disse que eu era a culpada, chorei mais ainda. 

Mas isso não o impediu de continuar o que fazia antes, voltou a tocar em mim e só parou quando deu aquele grito agudo e derramou algo estranho nas minhas pernas.”

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