Meu anjo da guarda

Meu anjo da gurda – Capítulo 20

Só percebi que estava chorando quando vi as lágrimas caírem nas minhas batatas, ainda intactas. Fiquei me perguntando se depois de ter matado a esposa, quantas vezes mais o Manoel estuprou a filha. 

Apesar de odiar minha mãe, aquele era um mal que eu não desejo a ninguém. Sem mencionar, o segredo que ela guardava. 

Senti a presença do Mateus do meu lado, como da outra vez, só que ele teve o cuidado de manter uma pequena distância entre nós. Por alguns minutos ficamos calados. Me controlei o máximo que pude para não chamar tanta atenção e quando vi que não ia conseguir peguei o celular. 

– O que você está fazendo? – Sua voz não era tão doce quanto eu gostaria, em um momento como aquele. Senti seu tom de crítica e isso me irritou. 

– Tentando parar meu choro, posso?

– Com o celular, Gabriela?

– Com o instagram, Mateus. – Respondi, com as lágrimas já mais controladas. 

– Você tá de brincadeira, né?

– Qual o problema? É crime?

– Gabriela, você acabou de descobrir uma bomba sobre sua família e vai postar no Instagram? – Ele parecia prestes a explodir. 

– É claro que não vou postar isso, mas quero conversar com as pessoas, assuntos aleatórios, só isso vai me fazer parar de chorar. – Aleguei, fungando incontrolavelmente. 

Senti o olhar fulminante do Mateus, mesmo não o encarando, porém ignorei. Tremendo, acessei o aplicativo e abri o story. 

– Isso é doença, sabia? – O comentário conseguiu minha atenção. 

– Quem é você para dizer isso?

– Gabriela, eu não preciso ser psicólogo para saber que ir postar no insta como refúgio para parar de chorar não é saudável. Isso é reprimir os sentimentos! 

– Eu não me importo, Mateus, e se você não quer aparecer, sai de perto de mim. 

Ele me encarou, e, por alguns segundos, eu sustentei o olhar, até que seus olhos pareceram soltar um fogo capaz de me queimar por dentro, então voltei a atenção pro celular e liguei a câmera. 

Sem olhar, vi quando ele saiu do meu lado e voltou pro seu, mas não deixou de me lançar críticas silenciosas. 

Respirei fundo e apertei gravar. 

“Todo mundo passa por dias ruins, né? Alguns são piores do que outros, mas tudo passa, não passa?”

Abri uma enquete com “Tudo passa” e “Nada passa”, e já me sentia melhor. Com a câmara ligada, as lágrimas foram reprimidas. Aproveitei para postar uma foto da minha comida e marquei a lanchonete.

Saí rápido do aplicativo, ignorando os comentários que eu estava tentada a olhar e comecei a comer, sem encarar o Mateus nem uma única vez. 

– Vai ficar me olhando por quanto tempo? 

Ele não respondeu, apenas desviou o olhar e começou a comer também. Ficamos em um silêncio pesado, até que não aguentei mais e quebrei, sem comentar o ocorrido, claro. 

– Eu preciso descobrir onde meu avô está. 

Diante da falta de resposta, olhei pra ele e vi que me avaliava, como se estivesse decidindo se respondia ou me ignorava. Baixei o olhar envergonhada e esperei. 

– Não dá pra saber pelos cartões postais? – Seu tom era hesitante. 

– Olhei as datas, ele parou de enviar em 2015. 

– Ele pode está morto, já pensou nisso?

– Já sim, mas por algum motivo não consigo acreditar nessa possibilidade. Ainda mais depois da pergunta do Roger. 

– É, tem razão, foi muito estranha. E por falar nisso, – apesar do novo rumo da conversa, eu sabia que ele ainda estava com raiva do que eu tinha feito. – ele também fez algumas perguntas estranhas ao meu tio. Eu vou contar, mas isso tem que ficar entre a gente, Gabriela, entendeu? Eu só estou confiando em você, porque temos um trato. 

– Eu sei, não se preocupe, eu sou a última pessoa que quero que isso se espalhe. 

Ele assentiu e continuou: 

– Hoje, depois do enterro, o Roger pediu que fossemos todos à Delegacia, para uma conversa informal. Alegou que não queria fazer isso no cemitério, por respeito ao local. 

– Mas isso não foi pretexto para ter uma “conversa informal” com o Artur no cemitério. – Interrompi. 

– Pois é. Ele nos reuniu todos em uma mesma sala e começou a fazer perguntas aleatórias sobre a Manuela, inclusive questionou a respeito do namoro dela com seu irmão. 

– Que tipo de perguntas, Mateus? Seja mais claro! – Eu estava queimando de impaciência e curiosidade. 

– Há quanto tempo se conheciam; se todos na família aprovaram o namoro; se o Santiago já tinha sido contra alguma vez e quais motivos a Manu teria para se matar. 

– Ninguém precisa de muitos motivos pra isso. – Observei, lembrando do comentário do Artur. 

– Meus tios não tratavam ela bem. – O Mateus disse tão baixo, que tive a sensação de que aquilo era um segredo super secreto. 

– O Artur chegou a comentar isso, mas só hoje, até então, pensávamos que a Manuela tinha a vida perfeita. 

– Eles só vivem de aparência para quem tá longe, Gabi. – Olhei feio para a menção do apelido, mas ele ignorou. – Quem convive com eles, nem precisa ser da família, sabe que o tio Leonardo fica agressivo quando bebe, e ele faz isso com frequência. 

– Mas ele batia muito nela? – Perguntei, atônita com a revelação. Eu não era próxima da família da minha cunhada, mas eles tinham empresas importantes na área de transporte, então eram relativamente conhecidos. E o Leonardo sempre apareceu na mídia com uma calma invejável, mesmo em momentos de crises. 

– Não só na Manuela. – O Mateus bebeu um pouco do milk shake antes de continuar. – Mas na tia Silvana e no Pedrinho. –  Senti uma pontada no coração. Aquele tempo todo o Artur tinha namorado com a Manuela e guardado aquele segredo. Ele deve ter ficado muito irado por não poder fazer nada. – Minha tia também já tentou se matar. – A revelação pareceu ser muito pra ele, não por ser um segredo, mas por ser algo triste. Baixou um pouco os olhos antes de acrescentar: 

– Mas ninguém sabe porque meu tio mandou ela para um “SPA”.  

– Eu sinto muito. – Falei com sinceridade e coloquei a mão sobre a dele. Ele ficou me encarando com uma expressão surpresa, como se o toque causasse choque. Em mim, o efeito foi esse: uma eletricidade percorreu meu corpo inteiro com a aproximação e eu logo me afastei. 

– Sempre tentamos ajudar, sabe? Mas eles são muito orgulhosos. Não acreditam em fé, em Deus, em nada. – Explicou, cabisbaixo. 

– Mateus, as pessoas têm direito a não acreditarem nas mesmas coisas que você. – A intenção não era criticá-lo, mas mesmo assim saiu como uma crítica. 

– Eu sei, e nem eu nem meus pais tentamos obrigá-los a isso, mas a pessoa que vive sem fé, perde o sentido de viver. – Ele falou aquilo como se fosse uma verdade universal, e me incomodei com essa imposição. – É importante ter esperança.

Ele estava certo. Independente no que, eu sempre acreditei que acreditar em algo melhor, mesmo que em um amanhã, é necessário para conseguirmos levar a vida adiante. Quando a esperança acaba, termina também o sentido da vida. Fiquei triste com esse pensamento. 

Uma voz bem lá no fundo do meu coração disse algo que há muito tempo eu já sabia, mas vinha tentando negar: minha esperança estava se esvaindo e eu me apegava a uma minúscula faísca dela para continuar levantando todas as manhãs e encarando o circo que é a vida.

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