Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 22

Com as mãos trêmulas, peguei a caixa de teste de gravidez, que passava quase imperceptível atrás de algumas loções para barbear. 

 

A caixa estava vazia, exceto por um pedaço de papel que tinha escrito um número de telefone.

 

Joguei todos os cremes do armário no chão, sentindo a raiva atingir proporções assustadoras dentro de mim. Que tipo de brincadeira era aquela? Que merda meu pai tava escondendo? Aquele teste não podia ser da minha mãe… podia? Se fosse, estaria no banheiro dela, não no dele.

 

Quanto mais eu questionava mais a raiva crescia. Comecei a amaldiçoar minha família por todos os segredos e pelo medo que eu sentia do que poderia descobrir.

 

As lágrimas quiseram aparecer, mas eu não permiti. Me levantei, ainda segurando o teste, e deixei tudo bagunçado. Aquilo podia dizer muita coisa, inclusive que alguém estava grávida do Santiago. 

 

Toda a destruição para minha família era pouco. Meus pais não valiam nada, principalmente meu pai.

 

Peguei o celular e resolvi logo piorar tudo de vez. Liguei a câmera do Instagram e fui direto gravar um vídeo no story’s.

 

“Sua vida já está uma merda e aí você descobre que seu pai é mais cafajeste do que você esperava. Faz o que?”

 

Minha voz e cara já deixavam claro o ódio de tudo que eu estava sentindo, mas não satisfeita resolvi polemizar ainda mais e antes de publicar o vídeo, abri uma enquete.

 

“Viver é uma desgraça. Alguém mais quer morrer?”

 

  1. Quero morrer também 🙋🏻‍♀🙋🏻‍♀🙋🏻‍♀
  2. Você é a única 🙇🏻‍♀🙇🏻‍♀

 

Eu sabia o alvoroço que aquela postagem ia causar, mas não hesitei em publicar. Senti um alívio ao fazer isso. Era como se finalmente eu estivesse começando a expor meus pais do jeito que tinha planejado.

 

Totalmente satisfeita, antes de sair do Instagram vi a bolinha vermelha de uma notificação e resolvi clicar, sabendo que uma chuva de marcações, comentários e curtidas me esperava. Porém, para aquilo eu não estava preparada.

 

As pessoas já começam a responder minha enquete e acredite se quiser, de 10, 9 responderam que queriam morrer também.

 

Decidi ir nas respostas dos story’s para ver a repercussão e quando li as mensagens, meus dedos tremeram e o alívio que eu sentia se transformou em angústia.

 

Em meio as mensagens de varias pessoas dizendo que também ansiavam pela morte, tinham aquelas que mandavam que eu tirasse minha própria vida. Algumas, nem seguidores eram, só tinham entrado no meu perfil para ver minha vida.

 

“Burgueses tem que morrer.”; “Tenho certeza que você ajudou seu irmão a tirar a vida do próprio pai.”; “Cobra igual a mãe.”; “se mata, ninguém vai sentir sua falta.”; “O mundo seria um lugar bem melhor sem você.”; “Se quiser, eu mando o nome de um veneno que não falha.” …

 

Parei na do veneno. Aquilo foi demais pra mim. Como que pessoas que me veneravam – claro, tirando uma pequena parte que já soltavam antes de tudo aquilo comentários maldosos no meu perfil – se tornaram tão cruéis do dia pra noite?

 

Ninguém enxergava o quanto aquilo estava sendo difícil pra mim? Ninguém se importou com o tal “assalto”? Ninguém queria saber como eu estava me sentindo por ter um irmão acusado do assassinato do nosso pai e ainda ter perdido a cunhada?

 

Eu sabia que o mundo era frio e cruel, mas não a esse ponto.

 

Com uma tristeza profunda que parecia cortar minha alma, eu saí do Instagram e me virei na cama, com a cara no travesseiro. Eu precisava dormir. Tinha que esquecer aquilo.

 

Depois de ler aquelas mensagens pensamentos de morte começaram de fato a rodear minha mente. De repente, morrer era mesmo a solução pra tudo. E se ninguém sentiria minha falta, que mal teria?

 

No íntimo do meu coração um desejo pelo suicídio começou a ser despertado. Afastei aquela ideia insana. Uma coisa era morrer sem ter escolha, outra era tirar a própria vida. Lembrei do rosto da Manuela e ela não me parecia nada serena.

 

E eu ainda precisava me vingar. Tinha que destruir meus pais por tudo o que eles fizeram comigo e o Artur. Morrer estava fora de cogitação, eu precisava ser forte.

 

Sai do Instagram, mas os sentimentos de angústia, rejeição e tristeza continuaram. Eu sabia que não ia conseguir dormir e aí o Trix apareceria. Apesar dele está me ajudando, eu não queria sua companhia sombria aquela noite. De trevas, já bastava as minhas.

 

Peguei um comprimido da minha mãe para dormir e em menos de 10 minutos eu tinha apagado. Meu sono foi conturbado e passei a noite tendo pesadelo com várias pessoas me empurrando pra um buraco enquanto eu tentava correr. Quando acordei eu estava suada e cheia de terra.

 

Gritei assim que vi o meu corpo com resquícios de areia. Minha mãe veio correndo saber o que tinha acontecido.

 

– Que gritaria é essa, Gabriela?

 

– Tira isso de cima de mim, mãe!!! – Berrei, pulando da cama e saltitando no chão pra derrubar a areia.

 

– Isso o que, menina?? Não tem nada em cima de você!

 

– Tira, mãe!!!!!! – Eu estava em pânico. A areia era exatamente igual a do meu sonho: grossa e escura, como se estivesse suja de lama. 

 

– Filha, olha pra mim! – Minha mãe segurou meus ombros com força e me obrigou a obedecer. – Não tem nada em você, foi só um pesadelo. – Fiquei encarando ela e senti as lágrimas descerem. Se tinha sido só um pesadelo porque aquela terra toda estava no meu corpo? – Vem cá. – Ela me puxou e me surpreendeu com um abraço. Me deixei ser acolhida e aos poucos meu coração foi voltando a bater no ritmo normal.

 

– Eu tava cheia de terra… – Murmurei.

 

– Não tem nada em você, filha, veja. – Ela se afastou e me obrigou a olhar pro meu corpo, que agora sim, estava limpo.

 

– Mas…

 

– Shiu… Tá tudo bem… Foi só um sonho. – Deu um beijo na minha testa e se afastou, aumentando a sensação de vazio no meu peito. – Você precisa se arrumar, temos que ir na delegacia, eles querem falar oficialmente com você.

 

Minha mãe não me deu espaço para perguntas ou reclamações, saiu do quarto, deixando claro que eu não tinha escolha.

 

Mandei uma mensagem pro Mateus, avisando do imprevisto e prometendo avisar quando saísse para nos encontrarmos na empresa, e fui tomar banho.

 

À medida que a água caia no corpo eu tinha a sensação que grãos de areia iam escorrendo. Eu não os via mais, porém sabia que de alguma forma aquele sonho foi mais real do que minha mãe afirmou.

 

“Será que você está ficando maluca, Gabriela?” – Uma voz suave sussurrou no meu ouvido e eu logo aceitei. Aquela era uma possibilidade. Talvez eu tivesse perdido a sanidade de vez. Motivos pra isso não faltavam.

 

Terminei o banho rápido, ansiando pra sair dali e troquei de roupa. Antes de ir encontrar minha mãe, resolvi logo fazer algo que não dava pra ser adiado muito tempo. 

 

Joguei a caixa do teste de gravidez dentro da bolsa, mas antes anotei o número no meu celular e liguei.

 

Meu coração estava a mil, a curiosidade gritando nas minhas veias sobre quem atenderia a ligação. No terceiro toque eu descobri.

 

“Alô…” – Uma voz doce e escorregada murmurou.

 

“Quem tá falando?” – Perguntei, tremendo.

 

O tom da mulher do outro lado da linha mudou.

 

“Com quem você quer falar?”

 

“Com Paula.” – Resolvi improvisar.

 

“Você ligou errado!”

 

“Não liguei não!” – O desespero beirava meu tom! – “A Paula mora aí!”

 

“Minha filha esse número é de um hospício! Você ligou errado!”

 

Nem se eu tivesse palavras, poderia falar, já que ela desligou na minha cara.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s