Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 23

Quando sai do quarto, minha mãe já me esperava na sala, pronta pra sair.

 

– Você toma café no caminho, não podemos nos atrasar.

 

– Cadê o Artur? – Perguntei, em tom mecânico, quando fechamos a porta.

 

– Dormiu na casa de um amigo. – A resposta veio hesitante e eu estranhei. Meu irmão não tinha amigos, mas eu não conseguia falar. Estava no automático, desde a ligação.

 

Porque meu pai teria o número de um hospício anotado em uma caixa de teste de gravidez? Se fosse de um bordel seria menos estranho.

 

Eu tinha que ligar novamente, mas com minha mãe do lado era impossível. Resolvi pesquisar no Google hospícios em Goiânia e só encontrei um: Hospital Psiquiátrico Maya.

 

Anotei o telefone fixo e o endereço. Quando já estava vendo a rota no Google maps, chegamos na delegacia e antes de descer do carro, minha mãe segurou meu braço.

 

– Se você falar o que não deve, vai destruir a gente, Gabriela.– Dei uma risada cínica e ela apertou mais ainda meu braço. – Não abra a boca para dizer merda, ou eu vou te deserdar. Entendeu? 

 

– Entendi, mãe. – Murmurei, ainda com o sorriso nos lábios. 

 

A delegacia estava vazia, e imaginei ter sido estratégia da minha mãe para não chamar a atenção da imprensa, porém não teve jeito. Antes de entrar, um jornalista se aproximou aparecendo magicamente e perguntando o que tinha acontecido de tão grave para que eu quisesse morrer. 

 

“Foi o medo do depoimento de hoje, Gabriela?”

 

Senti os olhos arregalados da minha mãe, muito provavelmente ela ainda não tinha visto meu story’s, mas como a boa atriz que é, não perdeu a compostura. 

 

– Não se aproxime da minha filha! 

 

Empurrou o cara e fez sinal para chamar o policial que que estava sentado olhando pro celular na porta da delegacia. 

 

O repórter não se intimidou. 

 

“Sua mãe está te obrigando a esconder alguma coisa?” 

 

Antes que eu pensasse em falar qualquer coisa, ela me empurrou com força e só então o policial pareceu notar nossa presença. Pulamos dentro da delegacia e o jornalista finalmente foi interceptado. 

 

– O que você fez, Gabriela? – Sussurrou entre os dentes. 

 

– Nada demais, só uma pequena enquete no meu instagram. 

 

Seus dedos entraram no meu braço com força e eu puxei de uma vez. As marcas das unhas dela não negavam a raiva que estava sentindo. 

 

– Bom dia, senhora e senhorita. – O Roger saiu de dentro de uma sala, impedindo minha mãe de responder minha provocação. 

 

– Bom dia, delegado. 

 

Ele assentiu e fez sinal com os dedos para que fossemos atrás dele. Quando entramos em uma sala sem janela e tão abafada que mais parecia um calabouço, ele mandou que sentássemos. A mesa era minúscula e só tinha 4 cadeiras. Sentei ao lado da minha mãe e ele na nossa frente. 

 

– O advogado não vai vim? 

 

– Eu sou a advogada da minha filha. – Minha mãe anunciou, em um tom que fazia qualquer questionamento ser silenciado. 

 

– Então, vamos lá. – Esfregou as duas mãos, como se estivesse prestes a começar um jogo importante e me lançou um olhar cortante. Engoli em seco e esperei a bomba. – Como era o seu relacionamento com seu pai? 

 

– Distante. – Decidi que ser objetiva era a melhor estratégia, isso faria ele me fazer mais perguntas e eu poderia ter uma ideia das teorias que estava levantando. 

 

– Defina “distante”.

 

– Quase não nos víamos, ele trabalhava muito. – O Roger rabiscou algumas coisas em seu bloquinho e continuou:

 

– E o dele com sua mãe? Eles se davam bem? – Olhei de canto de olho e vi que minha mãe me encarava, parecia uma leoa pronta para dar o bote a qualquer instante. 

 

Suspirei e tentando controlar o nervosismo que ameaçava se instalar no meu corpo, respondi. 

 

– Eles também quase não se viam. – Minha mãe enrijeceu com minha resposta, mas não me intimidei. A raiva que eu tinha da hipocrisia dela era tão grande que eu estava disposta a enfrentar sua ira depois, mesmo que tivesse que levar outra surra. 

 

– O que você quer dizer com quase? 

 

– Como advogada, eu te proíbo de responder isso, Gabriela. As perguntas têm que ser sobre seu relacionamento com seu pai e não sobre o meu casamento.  

 

– É uma pergunta simples, Rosemary, não tem nenhum problema de sua filha responder. 

 

– Ela não está aqui como minha filha, delegado, mas como cliente, e estou dizendo que ela não irá responder mais nenhuma de suas perguntas. 

 

– Qual o problema mãe? – Ambos olharam pra mim. – O suspeito é o Artur, não você. 

 

– Gabriela, você é uma criança, não tem ideia das mentiras que esses caras podem inventar. 

 

– Você está nos chamando de corruptos, Rosemary? – O Roger se remexeu na cadeira, parecendo ofendido. 

 

– Não foi isso o que eu quis dizer, só estou reivindicando o direito da minha cliente de ficar calada. 

 

– Seus filhos sabem que o avô deles está vivo? – A pergunta deixou um silêncio tão pesado na sala, que parecia ser algo tocável. Minha mãe automaticamente se recostou na cadeira, as costas eretas e os olhos fulminantes encarando o Roger. 

 

– O interrogatório é para minha filha, delegado, não para mim. 

 

– Ok, refaço e redireciono a pergunta. – Disse, sem perder a compostura e olhando pra mim com os olhos profundos. – Gabriela, você e seu irmão sabiam que o avô materno de vocês está vivo? 

 

Minha mãe abriu a boca, mas eu fui mais rápida. 

 

– Não. – Menti.

 

– Você nunca conheceu Manoel Sima? 

 

– Não, nem eu nem meu irmão. 

 

– Porque você acha que sua mãe escondeu de vocês a informação de que o pai dela está vivo e mora na Argentina? 

 

– Gabriela, vamos embora daqui agora! – Como se tivesse surtado, minha mãe levantou da cadeira de uma vez e me pegou pelo braço.

 

– Você não pode sair daqui assim, Rosemary! – O Roger também levantou.

 

– Posso e vou! Você tá fazendo perguntas pra minha filha que nitidamente ela não tem condições de responder! E ainda vou te processar por quebra de informação! 

 

– Seu pai está escondido não é nenhuma informação jurídica para você me processar! 

 

– Você está se metendo assuntos de família em uma investigação! 

 

– Para investigar eu preciso saber tudo de vocês! –  O Roger estava vermelho igual um pimentão e parecia prestes a bater em minha mãe. 

 

– Mas não tem necessidade de envolver meus filhos nisso, delegado! 

 

– Rosemary, acho melhor você se acalmar, senão vou prender você por desacato a autoridade e acho que isso vai cair como uma luva na mídia. 

 

Ele mexeu na ferida, e senti quando Rosemary murchou um pouco. 

 

– Você não tem o direito de revelar segredo dos outros, delegado. 

 

– Eu não sabia que era segredo para os seus filhos o seu pai ser acusado de assassinato e de estupro. Ah, pera, eles também não sabem que você era violentada e gostava, já que ajudou a esconder o corpo da própria mãe?

 

Não foi minha mãe quem perdeu as estribeiras, foi eu. Apesar de odiá-la, eu sabia o que tinha passado por conta do seu diário e senti sua dor ao ler o relato. Não ia permitir que ninguém falasse assim com ela, que a acusasse de ser culpada por ser estuprada. 

 

Não me pergunte como, mas consegui atravessar a mesa. Uma força descomunal tomou conta de mim e eu perdi totalmente o controle. Era como se alguém estivesse guiando os meus braços. 

 

Eu não ouvia nada. Não enxergava nada além do rosto do Roger. Comecei a empurrá-lo, a arranhá-lo e posso jurar que quando vi um risco de sangue em seus lábios, corte causado provavelmente pelas minhas unhas, eu senti prazer. Quis ver mais daquele líquido no corpo dele e não hesitei em chutar as várias mãos e pernas que tentavam me arrancar do pescoço do delegado. 

 

Um barulho de tiro me despertou do surto e aos poucos voltei a me situar das vozes.

 

– Tira essa garota de cima de mim! 

 

– Se você atirar na minha filha, eu te mato! 

 

De repente, fui perdendo a força colossal e conseguiram me segurar. 

 

– Larga minha filha! – Minha mãe me puxou dos braços de alguém e me segurou para que eu não caísse. 

 

– Eu vou prender vocês duas! 

 

– Não, vai não. – Minha mãe começou a dizer, me empurrando para trás dela e indo em direção ao Roger. – Você pode ser um delegado, mas eu sou Rosemary Ferri, esposa de Santiago Ferri. Tenha eu matado ou não meu marido, possuo muitos contatos, e se você não nos deixar sair daqui agora vai se arrepender. Não só você mais sua família também. 

 

A ameaça ficou pairando pelo ar por alguns segundos e quando ninguém disse nada, nós duas saímos da sala, sem sermos seguidas. 

 

 

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