Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 24

– O que deu em você, Gabriela? – Meu irmão gritava comigo ao telefone.

 

– A mamãe não devia ter te contado nada. – Reclamei. 

 

– Como não? Ela estava extremamente arrasada e preocupada, você passou dos limites dessa vez. 

 

– Onde você tá? – Questionei, para mudar de assunto. 

 

– Em casa, acho bom você vim logo, jajá ela vai saber da maldita enquete e da péssima repercussão que isso deu. 

 

– Ela já sabe. – Meu irmão estava tentando esconder onde tinha passado a noite. – Você dormiu na casa de qual amigo, já que não tem nenhum? – Insistir. 

 

– Você não conhece, eram colegas meus e na Manu. – Desconversou. 

 

– Para de mentir pra mim, Artur. – Falei com raiva. – Você não tem amigos nem colegas, ninguém te suporta. – Um suspiro do outro lado da linha fez eu me perguntar se não tinha exagerado. Meu irmão tinha sim amigos, todos interesseiros? Sim, mas os meus também eram. 

 

– Não te interessa onde eu tava, Gabriela, e que história é essa de que nosso avô está vivo? – Me surpreendi com o fato dele já saber daquilo, achei que minha mãe ia ocultar essa informação. 

 

– Eu já sabia. 

 

Contei a ele sobre o diário e quando terminei meu relato meu irmão cuspia fogo. 

 

– Temos que matar essa cara!!! – Afastei o telefone do ouvido para que o grito não machucasse meu tímpano. 

 

– Acho melhor você não se meter em nada, já tem problemas demais. Dizer que matou o papai foi o fim da picada, Artur. 

 

Um silêncio perturbador se instalou na ligação e eu achei que ele tinha desligado. 

 

– Eu não tive escolha, Gabriela… – Aquela frase me deixou atônita. Meu irmão não teve escolha sobre matar o nosso pai ou sobre mentir que tinha feito isso? 

 

Reproduzi pausadamente a pergunta pra ele, que me respondeu em um tom pesado:

 

– O que você acha? Olha, eu preciso ir, quando você chegar em casa nos vemos, se cuida. 

 

Desligou sem esperar que eu dissesse tchau. 

 

– Você tá pálida, tá tudo bem? – A voz do Mateus me fez dá um pulo. 

 

– Tá doido, aparecer assim do nada? – Perguntei mais alto do que planejei. 

 

– Foi mal, foi mal…. – Disse, mas deu um sorriso cínico que fez vacilar as batidas do meu coração. Ele era sempre tão lindo assim? Aquele todos cuidadosamente desenhado fazia ele parecer um ator contracenando. A gente sempre acha que eles são perfeitos porque a câmera esconde as imperfeições… mas o Mateus… ele estava na minha frente e eu não conseguia achar nada de errado. 

– Olá, Gabi. – Sua voz me arrancou do devaneio que começava a seguir caminhos perigosos em que sua boca encostava na minha. 

 

– Olá, Mateus. – Não consegui não sorrir. Era bom está com ele. Era ótimo sentir sua paz e tranquilidade em meio ao caos. 

 

– Você tá bem? Seu rosto me parece melhor… – Assenti e ele continou. – O que queriam na delegacia? – Perguntou sentando do meu lado, na mesma mesa de sempre e se mostrando atento a cada palavra que saia da minha boca. 

 

Contei tudo o que tinha acontecido desde a hora que nos separamos na noite anterior. Em nenhum momento ele me interrompeu e sua atenção me dava vontade de abrir minha alma inteira. Quando dei por mim, não tinha ocultado nem mesmo a enquete. 

 

– Gabriela, morrer não é a solução. – Avisou com os olhos queimando. 

 

– De tudo o que eu contei, você só prestou atenção nisso, Mateus? – Perguntei incrédula.

 

– Sua vida é mais importante do que tudo o que você contou. – Sua voz era carregada de dor e me perguntei quais motivos ele tinha para se importar tanto. 

 

– Mais de 100 pessoas tinham votado, em menos de 5 minutos, que também queriam morrer. Você me parece ser o único que supervaloriza a vida, ao contrário até mesmo de sua prima, que se matou. – Eu não queria magoar, falei sem pensar, queria apenas desmoralizá-lo, mas pelo visto toquei na ferida. 

 

– Quem quer morrer não tem ideia do preço que custou a sua vida. 

 

– E qual foi o preço, Mateus? Que eu saiba a vida humana não é vendida. – Nosso encontro estava perdendo o foco, eu sabia, mas não podia deixar suas críticas às minhas atitudes ou sentimentos passarem em branco. Eu não levo desaforo pra casa, nem mesmo daquele par de olhos cor de mel e daquele rosto perfeito que faz meu coração para de bater por alguns segundos…

 

– Nossa vida foi comprada, Gabriela. Alguém morreu para que hoje você vivesse. Valorize isso. – Me repreendeu como se fosse ele quem tivesse se sacrificado por mim. 

 

– Pois eu preferia que ninguém tivesse comprado minha vida. Preferia nunca ter nascido. Nunca, Mateus. Se eu soubesse o quanto seria difícil sobreviver, teria me matado na barriga da minha mãe. 

 

– Só Deus tem o poder da vida e da morte, Gabriela. 

 

– Deus, deus, deus… estou pouco me lixando pra esse deus! – Quase gritei e na mesma hora vi que tinha passado dos limites. 

 

Ele arregalou os olhos assustados, mas não perdeu a pose. Engoliu em seco, respirou fundo e acrescentou:

 

– Se você soubesse que Ele é o único que tem poder para mudar sua vida, nunca falaria isso. – Sua voz era tão cheia de certeza que eu quase acreditei. 

 

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