Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 25

– Acho melhor mudarmos de assunto antes que eu levante e vá embora! – Ameacei. 

 

– Levanta, Gabriela. – Seu tom frio me assustou e eu engoli em seco. – Sai daqui e some, mas aí eu quero ver como você vai resolver tudo isso sozinha. Você se acha muito independente, só que precisa das pessoas mais do que imagina. 

 

– Eu não preciso de ninguém, muito menos de você. – Minha voz soou trêmula, para o meu desespero, já que isso mostrava que ele tinha me atingido. 

 

– Você precisa de Deus, mas para chegar até Ele tem que ser pelo intermédio de alguém, não necessariamente pelo meu.

 

– Se você falar desse deus de novo, eu juro que vou embora. 

 

– Vá, eu não estou te obrigando a ficar aqui. – Sua voz era tão gélida e dura que derreteu qualquer chama no meu coração que a presença dele causava. Porque ele estava sendo tão cruel? O Mateus não era meu amigo? – Eu não estou aqui para te bajular como todo mundo, Gabriela, eu quero te ajudar e pra isso preciso te dizer a verdade. 

 

– Qual verdade? A sua? – Questionei, tonta. 

 

– Não, a verdade que pode te salvar. 

 

– Eu não preciso ser salva, Mateus, eu só quero descobrir o que minha família esconde e livrar meu irmão da cadeia, só isso. Por favor, me ajuda, eu só te peço isso. – Supliquei, me sentindo envergonhada. No fundo eu sabia que precisava da ajuda dele, sozinha eu não conseguiria suportar tanta coisa. 

 

Ele respirou fundo e esticou a mão por cima da mesa, tocando a minha. Deixei que se encaixassem e senti, satisfeita, a corrente elétrica que seu toque trouxe pro meu corpo, além da sensação repentina de tranquilidade ao meu coração. 

 

Apesar disso, quando olhei em seus olhos senti raiva dele. Aquelas duas bolas que me encaravam profundamente continham um brilho tão ofuscante que eu tive inveja. Ele me olhava com pena e perspicácia, como se estivesse julgando minha alma. Eu não podia suportar aquilo e puxei minha mão de uma vez. 

 

– Vamos pedir logo a comida, estou morrendo de fome. – Falei com a voz emburrada e vi quando sua expressão ficou confusa rapidamente. 

 

Ele chamou o garçom e fizemos nosso pedido, foi minha vez de exagerar – batata, milk shake e sanduíche duplo –. Eu não tinha comido nada o dia todo. 

 

Enquanto esperávamos, ele sugeriu que ligássemos novamente para o hospital Psiquiátrico Maya, só que dessa vez citando o sobrenome do meu pai. 

 

Discamos o número no celular do Mateus e ele logo colocou a chamada no viva voz. No terceiro toque, a mesma voz doce e arrastada que falou comigo atendeu. 

 

– Alô.

 

– Me chamo Mateus, gostaria de agendar uma visita ao paciente internado no Maya por Santiago Ferri. – Abri a boca diante do ótimo improviso do Mateus, mas logo o desespero bateu quando o silêncio reinou na ligação. – Alô? – Ele insistiu. 

 

– Quem te deu esse telefone, garoto? – Da mesma forma como na ligação anterior, o tom de voz da mulher mudou da água para o vinho. 

 

– Alguém da família Ferri. É caso de vida ou morte, moça, nós precisamos muito ir aí. 

 

– Não sem dizer a senha. – Anunciou a mulher. 

 

Senha? Que maldita senha era essa? Nos entreolhamos confusos, tentei pensar em algo, mas nada útil vinha à minha mente. 

 

– Você não sabe, né? Foi o que imaginei… – O tom passou de duro para irônico. 

 

– Calma, sei sim. – O Mateus fechou os olhos e segundos depois disse: A senha é o seu nome, e eu não posso dizer, porque essa informação não pode ser divulgada. 

 

Meu coração parou até que a mulher voltasse a falar novamente, e isso durou quase um minuto para acontecer. O Mateus continuava de olhos fechados, como se estivesse invocando algum ser sobrenatural para magicamente impedir a mulher de desligar o telefone. 

 

– Que dia e que horas você quer vim? – Foi então que notei que tanto eu quanto ele não estávamos respirando. 

 

– Daqui a uma hora? – Perguntou meio em dúvida, ainda de olhos fechados. 

 

– Quando chegar, você procura por Sofia. – Dito isso, o som do bipe do telefone soou em nossos ouvidos. 

 

Eu queria gritar. 

 

– Não acredito que você conseguiu! Como fez isso? 

 

O Mateus parecia tão extasiado quanto eu e não fazia esforço para esconder o sorriso. 

 

– Pedi ajuda ao Deus que você renega. – Disse, calmamente. Eu estava tão feliz que não engoli seu veneno. 

 

– Precisamos de um plano para quando chegarmos lá. – Mudei de assunto, de repente me sentindo super empolgada com aquilo tudo. 

 

– Primeiro, vamos comer. – Ele disse, assim que o garçom se aproximou com nossa comida. – E sobre o seu avô, o que vamos fazer? – Questionou, quando estávamos sozinhos novamente. 

 

– Segundo o Roger, ele está na Argentina, mas não faço a mínima ideia de como encontrá-lo. 

 

– Me dá o nome completo dele, que eu dou um jeito. – Disse, despreocupado. 

 

– Como? 

 

– Tenho alguns macetes na internet. – Olhei pra ele desconfiada. – Nada ilegal, Gabriela. Só fiz alguns cursos na área de tecnologia avançada, porque quero ser detetive. 

 

Aquela informação me pegou de surpresa e quase me engasguei com o pedaço de carne na boca. 

 

– Você tá usando minha família de cobaia? – Perguntei incrédula, mas não estava chateada de verdade. 

 

– Jamais! – Seus olhos ficaram preocupados de repente e isso me divertiu. – Eu nunca faria isso, quero te ajudar porque… – Ele gaguejou e então meu coração deu um pulo. 

 

– Porque, Mateus… – Incentivei quando ele parou de me encarar e ficou olhando para suas batatas fritas. 

 

– Porque… porque você é legal e precisa de ajuda. – Disse sem me olhar de verdade. 

 

– Achei que você me achasse mimada, não legal. 

 

– Você é mimada e birrenta também, cabeça dura e orgulhosa, mas isso não significa que não tenha qualidades. – Ele parecia envergonhado, o que me deixou na vantagem. Pela primeira vez, eu estava no controle, não ele. Dei um sorriso vitorioso e ele viu. – O que foi?

 

– Nada, só achei que você não fosse conseguir me elogiar nunca. 

 

Ele pareceu confuso com meu comentário e resolveu mudar de assunto. 

 

– Vai me dá ou não o nome do seu avô?

 

Dei um sorriso e respondi, entrando no seu jogo. Dava um pouco de pena vê-lo parecendo tão perdido.

 

– Manoel Sima Cunha. 

 

Ele pegou sua mochila e tirou um computador pequeno de dentro. Enquanto esperava o aparelho ligar, fomos comendo em um silêncio agradável. 

 

– Seu avô pode ter mudado de nome… – Ele observou enquanto digitava e eu mastigava. 

 

– Eu não tinha pensado nisso, se não encontrar nada, coloca o nome da minha avó, de repente alguma notícia da época ajuda. 

 

O Mateus assentiu e voltou a atenção para o computador. Impaciente, resolvi ficar calada para que ele pudesse se concentrar mais, e 5 minutos intermináveis se passaram até que ele voltasse a me olhar. 

 

– Gabi, acho que encontrei alguma coisa… – Seu olhar pesado e angustiado fizeram um arrepio passar por todo o meu corpo. Me levantei devagar e sentei ao seu lado. Quando olhei para o computador, eu quase desmaiei. 

 

Na tela tinha uma foto de um homem completamente sem roupa, com a cabeça raspada, os olhos arrancados, o pênis enfiado na boca e a barriga toda perfurada de bala. 

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