Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 26

– Mas que merda é essa? – Perguntei a um Mateus tão pálido quanto eu deveria está. 

 

– Aqui tá dizendo que “supostamente esse é o Manoel Costa”. É um site de pessoas desaparecidas da deep web. – Explicou.

 

– Meu Deus… – Eu estava sem palavras. A imagem era forte demais para meu estômago e no mesmo instante quis vomitar todo o lanche que já tinha colocado pra dentro. 

 

– Você tá verde, toma uma água. – Obedeci, e indiquei com a cabeça que ele fizesse o mesmo, mas fui ignorada. 

 

– A matéria diz o que?

 

Homem é encontrado morto; alguns suspeitam que seja Manoel Sima, o dono do antigo império de moda “You“. 

 

Na manhã deste domingo (10), um corpo foi encontrado do lado de um lixão, em uma das boates mais caras de Buenos Aires.

 

A polícia não encontrou nenhuma testemunha nem ninguém para confirmar a identidade da vítima, mas alguns investigadores acreditam que seja Manoel Sima Cunha, estilista dono de uma das maiores empresas de moda do mundo.

 

Fim. A matéria era curta e sem muitas informações. O texto datava de 2010, 9 anos atrás.

 

– Mas o último cartão postal que minha mãe recebeu foi do ano passado… – Falei mais pra mim do que para o Mateus. 

 

– Aqui diz que existem suspeitas que sejam seu avô, não confirma nada. Depois continuamos procurando, melhor irmos para não nos atrasarmos no hospital. – Alertou, e eu concordei. 

 

Dividimos a conta – à contra gosto do Mateus que queria pagar tudo sozinho – e em um consentimento silencioso deixamos o resto de nossas comidas pra trás.

 

No Uber, eu tremia por 2 motivos: ansiedade por não saber o que ia encontrar no hospital e por não conseguir esquecer a imagem do homem morto. 

 

Tentei chamar o Trix em meus pensamentos – às vezes conversávamos assim, sem que ele precisasse aparecer. Era assustador saber que ele podia está em meus pensamentos, mas pelo menos eu não via seu aspecto horrível. – para ver se ele tinha alguma pista do que poderia significar aquilo tudo, mas foi em vão. Meu amigo imaginário não respondeu. 

 

Fazia meses que eu não invocava o Trix por vontade própria, mas sempre que eu fazia isso, ele respondia. Estranhei esse sumiço e me senti incomodada. O que poderia ser mais importante do que vim me ajudar? Eu sei que estava pensando como uma maluca, mas o que eu poderia fazer? Imaginário ou não, o Trix por anos foi meu único amigo, e mesmo com todo o seu ar fantasmagórico e com a atmosfera sombria que carregava, ele me fazia companhia, me ouvia e me entendia. 

 

– Tá tudo bem com você, Gabi, você tá com cara de quem vai vomitar a qualquer instante. – O Mateus me tirou dos meus devaneios. 

 

– Não me chama de Gabi, quantas vezes vou ter que pedir isso? E sim, estou bem, só não consigo tirar a imagem da cabeça. – Respondi, mal humorada. Eu não gostava de ser ignorada, mesmo que fosse por um ser que só existe na minha cabeça. 

 

– Talvez se você conversar comigo ao invés de se fechar no seu mundo, consiga esquecer por alguns instantes a cena. 

 

– Você tem uma resposta pra tudo, né garoto? 

 

– E você tem um mal humor cascudo, né garota? – Devolveu, como se fosse uma criança de 5 anos. 

 

– Eu não quero conversar com você, não somos amigos, você só está me ajudando, depois que tudo isso acabar, pode vazar. – Minha raiva estava sendo direcionada para a pessoa errada, eu sabia, mas não podia fazer nada, era o Mateus que estava na minha frente e era ele quem iria ouvir.

 

– Primeiro, não sou gás para vazar, segundo, te ajudar não é um emprego que quando bem entender você pode me demitir. Eu sei que você está acostumada a tratar as pessoas como objeto, mas eu não sou todo mundo, Gabriela, e nunca te tratei com desdém, por isso tenho o direito de exigir o seu respeito. 

 

Dei uma gargalhada alta que só foi controlada porque notei o olhar curioso do motorista. 

 

– Respeito, Mateus? Você entrou na minha vida do nada, aumentou o caos em que eu já vivo e ainda acha que pode me exigir alguma coisa! Era só o que me faltava! – Zombei. 

 

– Engraçado você ter esse ponto de vista, porque se ele for levado em conta quem deveria está aqui do seu lado era sua melhor amiga, que já está na sua vida há anos. 

 

– A Isabel não está aqui porque eu não chamei, ela não faz ideia do que está acontecendo. – Senti um ímpeto de defender minha melhor amiga, que de fato estava às cegas do que andava acontecendo comigo. 

 

– Então porque você não chama ela ao invés do garoto que “invadiu sua vida” e “aumentou a confusão que você já vive”? – Seu tom desdenhoso me incomodou, mas não o suficiente para impedir que eu ouvisse uma voz alertando que era a ajuda dele que eu queria porque só ele conseguia acalmar meu coração perturbado.

 

Pra minha sorte chegamos ao hospital e ele ficou sem resposta, apesar de eu desconfiar que seus olhos avaliadores tinham uma noção do que eu iria responder. 

 

O Maya ficava em um lugar deserto e era rodeado por bosque enorme. Dentro da propriedade, que era enorme, tinha mais árvores e para entrar passávamos por um portão enorme, daqueles que parecem de filmes. 

 

Antes de nossa entrada ser permitida, precisamos tocar a companhia e procurar por Sofia. Uma voz que aparentava ser de uma mulher na casa dos 50, liberou nossa entrada, sem nenhuma dificuldade.

 

Logo que entramos no pátio eu me arrepiei. Uma sensação estranha percorreu meu corpo. Senti um calafrio misturado com um fogo no meu coração, acompanhado de um aperto no peito. O ar ameaçava me faltar, e precisei usar toda minha força de vontade para me controlar. Tive que ordenar umas 10 vezes as minhas pernas que não dessem meia volta. Minha vontade era de correr, mas parte de mim também queria ficar ali. 

 

Eu sei que era estranho, mas era como se todo aquele ar de mistério, morte, loucura… (não sei especificar)  me causasse uma sensação de lar. 

 

– Você está bem?  

 

– Você se interessa demais pelo meu bem estar. 

 

– Pelo visto mais do que você. 

 

Eu não respondi, não queria brigar com ele, precisava guardar minha energia para o que eu poderia encontrar lá dentro. 

 

Quando subimos a escada do casarão uma mulher baixa e rechonchuda – que pela voz me pareceu ser a mesma que nos atendeu no interfone – saiu de dentro e veio ao nosso encontro. 

 

– Ela está esperando vocês. – Ela quem? Sofia? 

 

Seguimos em silêncio e a cada passo que me fazia adentrar mais dentro da casa eu tinha a impressão de que ali eu poderia encontrar, senão paz, sossego. Fiquei assustada com aqueles pensamentos. Eu estava em um hospício, não tinha que me sentir bem ali. 

 

– Aonde ficam os pacientes? – O Mateus questionou. 

 

– Estão todos nos quartos. Ninguém aqui socializa muito. – Respondeu a mulher, que agora, por causa do crachá, eu sabia que se chamava Célia. 

 

Fomos de elevador até o 4 andar e quando chegamos nos deparamos com várias macas no corredor e nenhum paciente. Todas as portas estavam fechadas e se não fosse por alguns poucos enfermeiros andando pra lá e pra cá, eu apostaria que o lugar era de fachada, que aquilo era tudo menos um hospital, muito menos psiquiátrico. 

 

– Ela fica naquele quarto – apontou para o último do corredor – podem ir até lá, preciso voltar, tenho pacientes para medicar. 

 

Célia não esperou nenhum tipo de protesto da nossa parte, foi logo se virando e vazando. Eu e o Mateus seguimos a passos largos pelo corredor solitário e quando chegamos na porta certa eu travei. 

 

– Qual foi, Gabriela? 

 

– Eu não consigo. – Sussurrei. 

 

Ele pareceu surpreso com minha confissão e segurou minha mão. 

 

– Eu estou com você, mas se quiser, podemos voltar. – Sua proposta pareceu tentadora. 

 

– Eu to com medo… – De repente todas as partes do meu corpo quiseram sair daquele lugar correndo. – Não sei o que vamos encontrar e tenho receio de nunca consiga me recuperar. – Assumi, e senti com satisfação quando a mão do Mateus apertou a minha em um gesto carinhoso e seus olhos cravaram nos meus. 

 

– Se for preciso eu te ajudo a juntar pedaço por pedaço, mas prometo que você vai conseguir se reconstruir, independente do que esteja atrás da porta. 

 

Seu olhar profundo e determinado não me deixou duvidar. Ele estaria comigo, mesmo que eu o desdenhasse. E ele ficaria do meu lado não por ser um seguidor puxa saco lunático, mas por ser leal. 

 

Meu coração se aqueceu e eu respirei fundo. Pela primeira vez na vida eu senti esperança, e talvez, só talvez, vingança não fosse o que eu encontrasse com aquilo tudo, afinal, mas um recomeço. 

 

Ele apertou minha mão mais forte, um sinal de que eu tinha que decidir. 

 

Assenti e colando meu corpo no dele, sem soltar sua mão, abri a porta. Em passos lentos eu entrei e quando fiz isso, quase desmaiei. 

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