Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 31

Engoli em seco e continuei encarando ela em busca de algum resquício em seus olhos de que aquela revelação não passava de uma alucinação por causa da bebedeira. Porém o drama que ela fez a seguir me fez entender de uma vez por todas que tudo era verdade. 

 

– Você precisa me perdoar, Gabriela! Hoje eu sei que você não tem culpa! – Começou a me abraçar, mas eu me esquivei. 

 

– Não me toca! – Gritei, levantando do sofá e ela se jogou no chão, com os braços em cima da mesa de centro, chorando mais ainda. Nenhuma daquelas lágrimas me comoviam. 

 

Eu era fruto de um estupro, causado pelo meu próprio pai. Minha ficha caiu e eu entendi toda a minha vida. Era por isso que minha mãe me criticava em tudo; era por isso que ela sempre preferia o Artur a mim; era por isso que ela sempre me batia quando tinha oportunidade e jogava na minha cara que eu era a queridinha do papai, mesmo sabendo que ele não dava a mínima pra mim. 

 

Ela me odiava porque eu era fruto de um episódio que tinha amplificado a dor que ela já havia sentido na infância. Desejei do mais profundo da minha alma que ela tivesse tido sucesso quando tentou me abortar. 

 

– Você tem que entender, minha filha, eu estou arrependida de ter te culpado! Eu ficava com raiva porque sempre que olhava pra você lembrava do que seu pai tinha feito! 

 

– Cala a boca, mãe! – Gritei, eu queria bater e chutar ela. Confesso que cheguei a cogitar essa possibilidade quando percebi que ela estava tão vulnerável no chão. 

 

– Ele chegou de uma festa muito drogado – começou a explicar e minhas veias ferveram. – e veio me beijar. Eu senti o cheiro de perfume barato e o rejeitei. – A cada palavra eu sentia mais o ímpeto de avançar nela e estava difícil me controlar. Nenhuma explicação apagava o fato de que eu nunca deveria ter nascido, e mesmo não tendo culpa de nada, minha mãe me odiou. – Ele não aceitou bem a rejeição e me segurou forte no sofá e forçou a penetração… 

 

– Cala a boca! Eu não quero ouvir mais nada! 

 

Sai correndo da sala e fui direto pro meu quarto. Me joguei na cama e comecei a chorar. Uma dor cortante encheu o meu coração e eu sentia minha alma sendo pisoteada por todas as palavras que eu tinha ouvido. Eu era um erro. Um acidente. Uma tragédia. 

 

Com o ódio correndo pelas minhas veias me levantei da cama e comecei a quebrar tudo no meu quarto. Esmurrei a parede e por mais incrível que pareça não senti dor. Eu queria destruir tudo na minha frente, na minha vida e estava determinada a fazer isso começando pelas coisas materiais. 

 

Eu sentia uma força emanando dos meus poros que era potencializada pela minha raiva. Depois de alguns minutos com esse sentimento reinando sobre mim, ele foi se acalmando e dando espaço para a tristeza, angústia e frustração. 

 

Parei de quebrar o que restava, me encostei na parede e fui deslizando pro chão. Me sentindo na lama, destruída e morta por dentro, voltei a chorar e a pensar nas mil maneiras que eu tinha de me matar. Fiz uma anotação mental para conversar sobre isso com o Trix quando ele aparecesse. 

 

Algum tempo depois, meu celular tocou e eu dei um pulo com o barulho. Nem lembrava mais que ele estava no bolso da minha calça. Número desconhecido. Rejeitei a ligação. O número insistiu, e na quarta vez eu resolvi atender. 

 

– Gabriela, sou eu! – Meu irmão disse antes que eu falasse “alô”. – Onde você tá? 

 

– Em casa! E você? Tá maluco? Como você some desse jeito? – Disparei com a voz de choro. 

 

– Me escuta, preciso ser rápido! Eu tenho quase certeza de que estão armando pra mamãe e desconfio de quem seja…

 

– Do que você tá falando, Artur? – Interrompi, mas por curiosidade do que por me importar com Rosemary. 

 

– Você já sabe que não matei o nosso pai… – Finalmente uma confirmação positiva. – Mas preciso descobrir quem foi antes que algo pior aconteça. 

 

– E porque você disse que tinha sido você? 

 

– Estava protegendo uma pessoa. – Disse sem rodeios, e eu chutei o primeiro nome que veio na minha cabeça. 

 

– A Manuela? – Sussurrei e seu silêncio me disse tudo. – Porque, Artur? 

 

– Gabriela, não dá pra conversar agora, tenho que desligar. Eu só te liguei pra dizer que estou bem e pra você tomar cuidado. 

 

– Ei! E o que eu faço quando precisar falar com você? 

 

– Você vai ter que aguentar um pouco, maninha, estou sendo seguido e não posso usar meu celular. Eu te ligo sempre que possível. 

 

– Artur, mas que merda toda é essa?? 

 

– Eu não sei, mas vou descobrir. Não fique sozinha com a mamãe, entendeu? 

 

– Hum rum… – Murmurei, já antecedendo o fim da ligação. – Tem muita coisa acontecendo por aqui também…

 

– Eu sei, Gabriela, mas você precisa ser forte. Eu vou proteger você. 

 

– Como se você tá longe? 

 

– É justamente longe que eu estou te livrando. Preciso ir. 

 

E desligou, me deixando só com minha dor e mais confusa com as informações.

 

 

 

 

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