Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 32

Eu precisava pensar. Tinha que analisar qual seria meu próximo passo. Depois da conversa com minha mãe, a ideia do suicídio criou vida dentro de mim. Sem rodeios eu pensava em como tirar minha própria vida de um jeito indolor. 

 

Mas aquilo ia ter que esperar. Eu estava destruída, porém não ia ficar nessa sozinha. Eu ia me vingar. Não pedi pra nascer, a culpa não era minha, mas dos meus pais, então antes de dar um fim ao meu sofrimento e acabar com minha existência sem sentido, eu jurei mais uma vez que ia me vingar. Iria destruir minha mãe. 

 

Decidi que ficar chorando e lamentando não ia resolver nada. Depois da ligação do Artur, levantei e tomei um banho para clarear a mente. 

 

Coloquei minha playlist favorita no Spotfy e entrei debaixo do chuveiro. Ao som de Aeronsmith eu deixei a água lavar meu corpo e torci para que ela levasse embora a dor na alma e na cabeça que eu sentia. 

 

Quando já estava quase terminando e vi que não tinha nenhuma ideia do que fazer, pensei em ligar para o Mateus, mas lembrei o quanto estava com raiva dele e jamais daria o braço a torcer, assumindo que ele estava certo. 

 

Fiquei tentada a chamar o Trix, mas eu já tinha escuridão demais ao meu redor, então decidi deixar que ele aparecesse por livre e espontânea vontade. 

 

Quando sai do quarto, minha mãe estava esparramada no sofá, dormindo. Peguei a arma em silêncio – que continuava onde eu tinha jogado – e sai sem rumo. 

 

Mandei uma mensagem para Cristina pedindo para ela ir trabalhar aquele final de semana porque minha mãe não estava bem e quando ela respondeu que “ok”, eu decidi pra onde ia: tomar café na padaria que tinha perto da minha casa. Talvez de barriga cheia eu conseguisse pensar melhor, já que o banho não serviu de nada. 

 

Eu sentia os olhares curiosos das pessoas pro meu rosto inchado. Devia dá para ver a quilômetros de distância que eu tinha chorado horrores. Aquela atenção indesejada começou a me incomodar e resolvi ir gravar storys até chegar na padaria. 

 

Fui conversando com meus seguidores sobre dias ruins, falando que eles vêm para todo mundo e que precisamos ser fortes para passar por eles. Eu sei que estava sendo uma tremenda hipócrita, mas meio que me sentia na obrigação de ajudá-los, eu não queria incitar ninguém a morrer. Minhas decisões eram únicas e pessoais, e confesso que eu estava um pouco arrependida da enquete que tinha feito. Não tive coragem nem de olhar o resultado ou a repercussão no direct. 

 

Quando cheguei na padaria, pedi apenas um pão com manteiga e um café, talvez a cafeína me ajudasse na dor de cabeça. 

 

Tirei uma foto para colocar no meu feed com a legenda “Dias de luta, dias de glórias. Seja entre lágrimas ou sorrisos a gente chega lá. O importante é está de barriga cheia”.

 

Meu celular tocou assim que eu postei a foto. 

 

– Oi amiga. – Atendi, tentando não soar tão desanimada. Por alguns instantes eu achei que pudesse ser o Mateus. 

 

– Onde você tá, pelo amor de Deus? Eu estava louca atrás de você! – Só quando ela disse isso eu lembrei que não tinha entrado no whatssap há uns dois dias. 

 

– Agora to tomando café na padaria…

 

– Que história é essa que o Artur fugiu? – Me interrompeu, curiosa. 

 

– Ainda não sei direito, Isabel, minha mãe ta vendo tudo com a polícia. – Menti. 

 

– E como você tá com tudo isso, amiga? – Só então ela pareceu notar o peso na minha voz. 

 

– Vou ficar bem… 

 

– Quer que eu vá ficar com você? – Se ofereceu, prestativa. 

 

– Não precisa, amiga, depois passo na sua casa para conversarmos. – Menti, de novo. Eu queria muito que ela fosse lá pra casa, mas eu não podia arrastar minha melhor amiga, que já tinha seus próprios conflitos e angústias, para o meu caos. Sem falar que apesar de estarmos de férias, a Isabel estava fazendo um intensivão no curso de francês, e eu sabia que era importante pra ela estudar e se destacar para chamar a atenção do pai. 

 

– Tem certeza?

 

– Sim, tenho. – À noite eu vou aí. 

 

– Gabriela! – Chamou exasperada. – Hoje é minha apresentação da dança, esqueceu? Você prometeu que ia! – Droga! Eu tinha esquecido completamente. – Eu só vou te perdoar por causa de tudo o que você tem passado, mas por favor, vamos, vai ser legal, até pra você se distrair…

 

Eu não tinha um pingo de vontade de ir ver nada, mas eu não podia decepcionar a Isabel. O Eduardo com certeza não iria aparecer, sendo assim, ela não tinha ninguém para torcer por ela, além dos amigos, e naquele momento em que todos estavam viajando, ela só tinha a mim.

 

– Claro que eu vou! – Tentei soar animada. 

 

– Você podia aproveitar e levar o gatinho do Mateus… – Senti uma pontada no peito ao ouvir o nome dele. 

 

– Não começa, Isabel. – mordi a língua para não deixar que ela percebesse que eu tinha brigado com o Mateus, não queria reproduzir toda a confusão. – Eu mal falo com o Roberto, se o Mateus fosse, não iria levar o irmão. 

 

Ouvi o suspiro de decepção do outro lado da linha e resolvi ao menos mentir. 

 

– Vou tentar. 

 

Ela deu um grito de felicidade e eu afastei o telefone do ouvido. Bem naquela hora o garçom chegou com meu pedido. 

 

– Vou comer, amiga, depois nos falamos. 

 

– E eu estudar. Nos encontramos no teatro, depois da apresentação. Não se atrase, começa às oito. 

 

Desligamos e eu fui tomar meu café, tentando ignorar tudo e todos ao meu redor e me concentrar apenas no que eu poderia fazer quando saísse dali.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s