Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 34

– O que você está fazendo aqui? – Juntei o máximo de força de vontade que tinha para não gritar. Ambos me olharam assustados e eu entendi na hora o que o Trix tinha dito. 

 

– Gabriela… – Ele começou a falar e se aproximou, mas eu dei dois passos para trás. 

 

– O Trix estava certo, você não presta! – Acusei. 

 

– Quem é Trix? – Ele pareceu atordoado. – E eu só estou aqui para ajudar a Fabiana, já que você largou ela daquele jeito ontem. – Fabiana? Desde quando eles eram tão íntimos?

 

– Vocês estão armando contra minha família!

 

– Fala baixo, garota! – A mulher se levantou da cadeira e também veio na minha direção. – Você vai acordar minha filha.

 

– Gabriela, se controla. Você não tá na sua casa. – O Mateus censurou e eu abri a boca para responder, mas olhando para aqueles olhos duros que me diziam milhões de coisas severas, lembrei o que eu tinha ido fazer ali. Brigar só ia me tirar no foco. Olhar pro Mateus ia me tirar do foco. 

 

Desviei os olhos para a Fabiana e respirei fundo. 

 

– Desculpa, Fabiana, eu não vim aqui para gritar com você, mas pra conversar. – Minha voz não saiu tão gentil, mas senti o rosto da mulher vacilar com minha proposta. 

 

– Eu não tenho nada para conversar com você. – Ela disse, mas sem me olhar. – Preciso dá o remédio da Sofia. – Olhei pra menina que dormia alheia a tudo o que acontecia, ainda com os braços amarrados como antes e me perguntei se ela nunca tirava aquilo. 

 

– O que você quer de verdade, Gabriela? – A voz do Mateus era fria, distante e acusatória, como se soubesse que eu não estava ali com as intenções tão puras quanto queria parecer. 

 

– Eu não vim falar com você, por favor, me deixa a sós com sua amiga. – Ele continuou me encarando sem sair do lugar. – Você não ouviu?

 

– Perfeitamente, e não vou sair daqui. Não confio em você o suficiente para te deixar só com pessoas que representam uma ameaça para sua família. – Aquilo doeu. Quem ele pensava que eu era? Uma assassina? 

 

– O que você quiser dizer, diga na frente dele. – A mulher disse, indo em direção a sua filha e alisando a cabeça da garota. 

 

– Desde quando vocês se conhecem? – Não resisti a pergunta. 

 

– Eu nunca tinha visto a Fabiana, até vim aqui com você, Gabriela. – O Mateus não me parecia nem um pouco culpado. Parte de mim questionou se ele não estava realmente sendo sincero, mas então lembrei do conselho do Trix e duvidei. 

 

– Eu queria saber mais sobre o que aconteceu com a Sofia… – Me aproximei da cama e fiquei de pé ao lado de uma Fabiana chorosa e de frente para uma garota inerte. 

 

– Porque? – A mãe me perguntou sem me encarar. 

 

– Meu pai fez isso com ela, não foi? Me sinto na obrigação de fazer algo por vocês… – Finalmente consegui atrair a atenção da mulher, o que aumentou minhas desconfianças sobre ela só querer o nosso dinheiro. 

 

– O que fez você mudar de ideia? – O Mateu se meteu e eu olhei pra ele irritada. 

 

– Eu pensei melhor e vi que uma criança de 10 anos não tem culpa de ter sido violentada. – Me obriguei a olhar pra ele, para transparecer verdade, mas seus olhos pareciam me queimar. – Você não tem culpa do meu pai ser um monstro, Fabiana. – Acrescentei, olhando pra ela.

 

Alguns minutos de silêncio se seguiram e ela parecia analisar algo na minha expressão. Por fim, abriu a boca e colocou tudo pra fora: 

 

– Minha filha tinha apenas 10 anos quando seu pai destruiu a vida dela, Gabriela. Uma menina nessa idade não tem condições de sustentar uma gravidez. – Ela voltou a olhar para a garota que ainda dormia, e comecei a desconfiar que estivesse dopada. – Fizemos um aborto, mas a mente frágil da Sofia já tinha sido atingida. Minha filha enlouqueceu com o estupro e o resultado dele. 

 

Lágrimas caíam de seus olhos e eu consegui ser afetada por sua dor, afinal de contas minha alma tinha sido destruída horas antes, eu podia sim me colocar no lugar daquela criança. Sabia mais ou menos como ela tinha se sentido. 

 

– O que meu pai fez? – Perguntei em um sussurro.

 

– Meu erro foi ir tirar satisfação, atacar o Santiago antes de ir direto na delegacia. Ele me ameaçou, disse que ninguém acreditaria em uma perrapada e no fim acabaria eu em uma vala junto com minha filha. – Ele me olhava com ódio, como se visse a encarnação do meu pai na sua frente. O que era bem provável, já que eu era a cara dele. – Fiquei com medo e me calei. Quando eu descobri a gravidez procurei ele de novo, mas dessa vez para pedir dinheiro, eu não tinha condições de ajudar a Sofia. Ao invés do dinheiro, ele nos prendeu e nos jogou aqui dentro. 

 

Eu não tinha palavras para tamanha crueldade do meu pai. Engoli em seco e esperei que continuasse. 

 

– Ele que pagava tudo para nós ficarmos aqui, e meus próprios pais não falam mais comigo. Eles acham que eu vendi a Sofia por dinheiro. – Ela parou por alguns instantes e olhou pra filha. – Mas o que seria da minha filha sem o tratamento adequado? Se eu fosse pra polícia, o que isso traria de bom pra ela? Seu pai preso? Não, isso não ia acontecer. Então achei melhor aceitar o dinheiro e vim morar aqui com ela. 

 

– E porque…

 

– Porque ela não pode ficar em casa? – Assenti e ela continuou. – A Sofia se tornou agressiva, ela precisa ficar dopada na maior parte do tempo porque quando está acordada quase sempre vê alguém querendo vindo pegá-la. 

 

– Eu sinto muito. – Falei com sinceridade, quando o silêncio de quase dois minutos pareceu pesado demais. 

 

– Você não é a primeira pessoa da família Ferri a dizer isso. – A revelação me pegou de surpresa. 

 

– Quem mais…?

 

– Sua mãe e seu irmão disseram a mesma coisa. – Abri a boca em choque, sem acreditar que eles sabiam daquilo tudo. – Pelo visto vocês são bons em guardar segredos um dos outros. – Acrescentou diante do meu silêncio e da minha expressão atormentada. – Eles já vieram aqui. Sua mãe assim que aconteceu e seu irmão há poucos dias…

 

– O que eles queriam? 

 

– Bom, sua mãe queria se certificar que eu não estava inventando tudo para tirar dinheiro de vocês. – Ela respondeu com a voz magoada. – E seu irmão me pareceu tão confuso quanto você. 

 

– O Artur disse alguma coisa… sei lá, algo importante… – Eu não sabia como perguntar, mas queria saber se meu irmão tinha deixado alguma pista do que sabia ou pra onde ia. 

 

– Disse que eu não me preocupasse, que ele continuaria me ajudando com o tratamento da Sofia. – Ela pareceu emocionada ao dizer isso e meio que aliviada. Como que eu não pensei nisso antes? Com a morte do meu pai, elas perdiam tudo, nós nem mesmo sabíamos da existência delas. 

 

– O Artur sempre foi melhor do que eu… – Comentei mais pra mim do que pra ela. 

 

Ficamos em silêncio novamente e a menina se mexeu na cama, dando indícios de que iria acordar. Fabiana logo se prontificou a segurar a mão amarrada da filha e a conversar baixinho com ela, algo que não consegui ouvir. 

 

Me afastei um pouco para dar privacidade as duas e me aproximei do Mateus. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo inteiro quando cheguei ao seu lado e senti seu olhar avaliador em todo o meu corpo. 

 

– Acho melhor vocês irem, a Sofia fica mais agitada ainda na presença de estranhos. – Comentou, sem tirar os olho da menina. 

 

– Qualquer coisa que vocês precisarem, podem me ligar. – O Mateus avisou e aquilo me incomodou. Porque eu nunca falava aquelas coisas gentis ou ao menos pensava em falar?

 

– Muito obrigada, garoto, você é um anjo. – Anjo? Agora eles trocavam elogios íntimos? – Gabriela? – Ela me chamou antes que eu abrisse a porta. 

 

– Sim… 

 

– Eu já ia esquecendo, seu irmão pediu para te entregar isso caso você aparecesse. Não entreguei ontem por conta de toda a situação… – Ela pegou algo na gaveta do criado mudo e estendeu a mão pra mim. – Não abri, mas imagino que seja importante. 

 

– Obrigada. – Murmurei, com a voz e as mãos trêmulas. Peguei o envelope que era do tamanho de um livro, e me pareceu pesado para ter apenas papéis, mas não comentei nada, só desejei “boa sorte” para a Fabiana e a Sofia. Sai dali, mas desolada do que quando entrei. 

 

 

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