Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 36

Eu estava morta de curiosidade para abrir o envelope, mas não queria fazer isso na frente do Mateus, por isso me segurei. Saímos do hospital em um silêncio sepulcral e quando chegamos do lado de fora eu sentei no acostamento e peguei o celular para pedir um Uber.

 

– Quem é Trix? – Ele perguntou, me olhando de cima, o que causou um sentimento de inferioridade e eu não gostei. 

 

– Um amigo… – Murmurei sem encará-lo, eu tinha a impressão de que ele detectaria a mentira.

 

– Estranho esse seu amigo dizer que eu não presto sendo que eu nem conheço ele. – Observou, e mesmo de costas eu podia sentir seus olhos cravados em mim. Peguei o celular para vê onde o Uber tava e vi a mensagem do motorista dizendo que tinha ocorrido um acidente em uma estrada próxima dali e estava tudo engarrafado. 

 

– Hein, Gabriela? – Insistiu e eu fiquei confusa. Pensei que meu silêncio tinha dado o assunto por encerrado.

 

– O que foi, garoto? – Perguntei emburrada.

 

– Quem é esse seu amigo?

 

– Não te interessa, Mateus! Não se meta na minha vida particular! 

 

– Acontece que esse seu amigo “particular” está fazendo sua cabeça contra mim, portanto eu tenho todo o direito de saber quem é!

 

– Não é ninguém Importante! – Levantei, extremamente incomodada com a vantagem que ele levava comigo naquela posição.

 

– Não é o que os seus olhos dizem!

 

– Você tá louco? Fica logo internado no hospício, aliás, o que você fazia aqui com essa mulher? – Tive esperança que a mudança de assunto tirasse o foco do meu deslize de ter mencionado o Trix.

 

– Vim fazer o que você não teve o bom senso: oferecer ajuda. Agora me diz: quem é esse seu amigo?

 

– Que interesse no Trix é esse Mateus, você esta com ciu…

 

– Claro que não, garota! – Me interrompeu. – Só acho muito estranho alguém que eu não conheço fazer sua cabeça contra mim! 

 

Tentei pensar rápido em uma resposta convincente, mas não achei nada. 

 

– Você não entende, Mateus, ninguém precisava ter me dito nada, só em te ver naquele quarto eu já sei que tem alguma coisa errada!

 

– Por que você tem que ser tão desconfiada, Gabriela? Porque você não pode acreditar que as pessoas podem ser boas e fazer coisas gentis?

 

– Ninguém é bom e gentil quando se trata de dinheiro! – Devolvi, sentindo que estava perdendo totalmente o controle sobre minhas palavras. 

 

– Nem tudo nessa vida é sobre dinheiro, Gabriela. – Ele não gritava, mas era melhor se fizesse. Seu tom era profundo, cortante e cruel. Como se soubesse que cada palavra que saia da minha boca fosse uma farsa. Como se tivesse certeza que os sentimentos que eu exponho para o mundo são apenas uma fachada para esconder o quanto sou um caos. Isso me dava vontade de chorar, me fazia sentir vulnerável. 

 

Me virei para frente da rua, eu não queria encará-lo. Senti ele se aproximando e podia perceber a mudança em seu corpo. O Mateus não vinha pra perto de mim para brigar, mas para me confortar, e a última coisa que eu queria e precisava era de sua pena. 

 

– O Trix é um amigo da infância, ele é meio imaginário. – Joguei, tentando desesperadamente fazer ele se afastar. 

 

– Como assim imaginário? – Seu tom era de surpresa, devia estar considerando a possibilidade de já me deixar internada. 

 

– Vai dizer que você nunca teve um amigo imaginário? – Vire pra ele com a intenção de acusá-lo, mas fui surpreendida por sua expressão enigmática, tentando analisar se eu estava falando a verdade, e isso me pegou desprevenida. Ele sempre pareceu tão certo sobre mim, seus olhos nunca foram vacilantes daquele jeito. 

 

– Já, mas eu era pequeno, e eles não falavam comigo… 

 

– Mas o meu fala. – Rebati, me sentindo infantil e louca. 

 

– Fala?

 

– Sim, fala, nós conversamos sempre. – Minha voz começava a falhar. Falar pela primeira vez aquilo para outra pessoa me fazia parecer maluca e desequilibrada. 

 

– Você vê esse tal de Trix? – Ele fazia um esforço enorme para não parecer que estava julgando. 

 

– Hanram… 

 

– Gabriela, desde quando isso acontece?

 

– Eu tinha 10 anos quando ele apareceu pela primeira vez. 

 

Um silêncio sepulcral reinou entre nós, e incomodada, resolvi quebrá-lo. 

 

– Eu já sei que sou maluca, agora você acredita quando digo que estou quebrada? 

 

O Mateus abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu, e por sorte, nessa hora o Uber apareceu. Dois, o meu e o dele. 

 

– Vamos em um só. – Não era bem uma pergunta. 

 

– Não posso cancelar a viagem, Mateus, e com certeza não quero ir no mesmo carro que você. – Uma expressão do que parecia vergonha passou em seu rosto, mas logo desapareceu. 

 

– Vamos comigo, eu pago seu cancelamento. – Ele segurou minha mão e o simples toque foi o suficiente para me trazer segurança. Olhei em seus olhos e não consegui dizer nada, ali eu encontrava paz. – Ela vai comigo, quanto é o reembolso? 

 

O motorista reclamou, mas o Mateus contornou a situação, pegou a carteira e tirou duas notas de 20 reais. Entregou o dinheiro sem soltar minha mão uma única vez. 

 

Fomos para o carro que ele tinha chamado e sentamos no banco de trás. Para o desespero de todo o meu corpo, ele soltou levemente minha mão, mas só por alguns instantes, enquanto colocava o cinto. Fiz o mesmo, só pra ter o que fazer e encostei a cabeça no encosto do banco, me inebriando com a sensação de receber a paz que só aquele garoto conseguia me transmitir. 

 

Em um determinado momento da viagem, ele começou a passar o dedo levemente sobre a palma da minha mão. E aquele gesto causou inquietações em todo o meu corpo, correntes elétricas foram descarregadas em todos os meus nervos. 

 

– Você quer ir para algum lugar específico para conversarmos melhor? – Não abri os olhos para responder. 

 

– Tanto faz… – Torci para que ele não dissesse minha casa. Era o último lugar da minha vida que eu queria que ele conhecesse. 

 

Seguimos a viagem em silêncio e eu não abri os olhos em nenhum momento, confesso que parte disso era vergonha por ter me exposto daquela maneira. O que será que o Trix ia pensar disso? Posso apostar que ele não ia gostar nada da minha boca grande. Ele sempre disse que sua existência em nossa vida era o nosso segredinho. 

 

Por mais incrível que pareça, eu consegui cochilar. Dormi um sono tão tranquilo, como há muito tempo não acontecia… Sem Trix. Sem problemas. Sem meus pais. Sem o covarde do meu irmão. Sem amigos. Sem ninguém. Nada perturbou meu sono e quis bater no imbecil que tinha me acordado. 

 

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