Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 37

– Gabi, acorda, já chegamos. – A voz era tão suave que achei que continuava sonhando. 

 

– Hum…. 

 

– Gabi, o motorista precisa ir embora. – O Mateus sacudiu de leve meu ombro, e muito a contragosto, abri os olhos. 

 

– Que foi…? – Perguntei sonolenta. 

 

– Precisamos descer do carro, vamos! 

 

– Lugar de dormir é em casa, garota. – O motorista resmungou e eu olhei com a cara feia pra ele. 

 

– Vou te dá uma estrela, seu idiota. 

 

– Gabriela, vamos. – O Mateus me puxou pelo braço, mas eu ainda encarei o motorista por alguns segundos. Seu olhar me fuzilava. 

 

– Desce do meu carro, garota mimada, ou você vai se arrepender. 

 

Não tive medo da ameaça, mas achei melhor descer, antes que o Mateus me arrancasse dali a força. 

 

– Você não consegue passar 5 minutos sem brigar com ninguém? – Perguntou, mal humorado, enquanto eu batia forte a porta do carro. 

 

– Esse cara é um desgraçado, Mateus. Precisava falar aquilo comigo? Eu sou a cliente, sou eu quem coloco dinheiro no bolso dele! 

 

– Tecnicamente sou eu o cliente, já que eu paguei. 

 

– Agora você também resolveu brigar comigo? – Entramos lado a lado na lanchonete, que já era o nosso lugar de encontro. 

 

– Não, só acho que você não precisa ser tão grosseira com as pessoas só porque pensa que tem algum poder aquisitivo sobre elas! – Ele estava irritado, e isso me incomodou. 

 

– Mas eu tenho! Se eu pago, eu mando! 

 

Sem precisarmos de nenhuma instrução, seguimos para a “nossa” mesa. 

 

– Pena que você não pode pagar por educação, generosidade e bom senso! 

 

– O que você quer dizer com isso, Mateus? 

 

– Ah, então agora te falta inteligência também? – Zombou. – Vê se tem aqui no cardápio, se tiver, você compra e tenta entender o que eu disse. 

 

Eu não entendia porque ele estava sendo tão grosseiro e isso me chateou. Tive vontade de sair correndo dali, mas não dei o braço a torcer. Respirei fundo e chamei o garçom. Se ele quisesse brigar, que fizesse isso sozinho. 

 

Pedi um milk shake e batatas fritas, enquanto ele optou por um hambúrguer e um suco de morango. 

 

– Não vai abrir o envelope? – Perguntou, assim que o garçom se afastou. 

 

– Só em casa. – Respondi, sem encará-lo. Suas palavras ainda martelavam nos meus ouvidos e faziam meu coração ficar um pouco apertado. Ele me achava mesmo burra, egoísta e mal educada? Isso sem mencionar a falta de bom senso que ele disse que me faltava…

 

– Você acha que eu me uni a Fabiana para tirar dinheiro da sua família, né? – Sim, eu achava. – Você só pode está de brincadeira… – Bufou, quando entendeu meu olhar. 

 

– Porque eu deveria confiar em você, Mateus? Te conheci outro dia, e ainda por cima na festa que meu pai morreu. 

 

– Você tá me acusando de alguma coisa? – Questionou, com a voz ofendida. 

 

– Entenda como quiser, ou, como foi mesmo que você disse…? – Fechei os olhos e bati os dedos na cabeça, como se tivesse me obrigando a lembrar. – Ah! Vê se tem inteligência no cardápio, quem sabe você compra. 

 

– Você é muito mimada, Gabriela! – Explodiu e alguns olhares se voltaram pra gente. Ele recuou e eu coloquei um sorriso irônico no rosto, apesar de está fervilhando de ódio por conta do “mimada”. Eu não suportava que me chamassem assim. Ninguém sabia minhas lutas para achar que tenho tudo fácil. – Qual interesse eu teria na morte do seu pai?

 

– Qual interesse você teria em me ajudar? – Devolvi. 

 

– Nem tudo nessa vida é feito com interesse, Gabriela. 

 

– Mentira, até mesmo esse deus que você acredita é interesseiro, afinal, na própria Bíblia não tem uma passagem que diz “quem dá recebe”? – Joguei na cara dele, lembrando das aulas de religião que tive na escola ainda, na primeira série. 

 

– Deus deu o único filho dele para morrer por nós, pedir a nossa lealdade e crença em troca é o mínimo. 

 

– Ah, então você admite que até mesmo o todo poderoso é interesseiro? 

 

– Ele não é interesseiro, é justo. – Seu tom era mais controlado. Era só falar da sua crença que o Mateus se transformava em uma pessoa equilibrada. Não que ele não fosse em outros momentos, mas agora era diferente. Falar do deus que ele acreditava parecia trazer uma alegria, um deleite para sua alma. Era como se ele atingisse sua totalidade, e eu senti inveja disso. 

 

– Justo? Como um pai que envia o filho pra morte é justo? 

 

– Jesus tá vivo. Ele só morreu por alguns dias. – Afirmou, como se estivesse falando de um amigo íntimo. – Ele enfrentou a cruz para que hoje pudéssemos viver, mas viver de verdade, não apenas sobreviver, como você tem feito. – Seu tom não era carregado de acusação, muito menos pena, e isso era o pior. Ele falava como se tivesse o poder de ler minha alma. 

 

– Você tira muitas conclusões superficiais sobre mim… 

 

– Eu só concluo por aquilo que você me mostra. – Engoli em seco. Aquilo era verdade. O Mateus era a primeira pessoa no mundo que sabia o que eu pensava ou sentia sem que eu dissesse, isso porque prestava atenção em mim, nas minhas atitudes. Senti vontade de chorar, e para impedir que isso acontecesse peguei o celular no meu bolso e desbloqueie a tela, tentada a entrar no Instagram ou Whatsapp. 

 

– Para com isso, não tem necessidade de você fugir de mim. – A mão do Mateus sobre a minha trouxe um arrepio que atingiu até mesmo minha espinha. Eu não consegui reagir. Delicadamente ele tirou o celular da minha mão, enquanto me encarava, e colocou de lado. – Você é mais do que tudo o que posta, Gabi. Sua vida no instagram não é real, mas o que você sente agora é. – Seus olhos estavam carregados de fogo. Meu coração ficou acelerado, ele nunca tinha me olhado daquele jeito. Concentrei minha atenção no movimento da sua boca. Era tão perfeito… Sempre foi assim? 

 

Apertei forte sua mão e ele entendeu como um incentivo para continuar seu sermão, mas eu não prestava mais atenção, só conseguia imaginar como seria ter aquela boca colada na minha…. 

 

– Gabriela, você tá me ouvindo? – O que me trouxe de volta do transe não foi a pergunta, mas o arrepio gelado que senti na nuca. Fiquei em dúvida se o Mateus tinha falado aquilo, já que ele continuava tagarelando. Foi só quando ouvi as palavras novamente que identifiquei o dono da voz.

 

O Trix tava ali, bem atrás de mim. Assenti levemente, para sinalizar que meu amigo tinha minha atenção. 

 

– Beija ele… – 

 

“É o que?” Gritei em pensamento, mas a ideia não me pareceu tão absurda assim…

 

“Você não disse pra eu me afastar dele?”

 

– Mas isso não quer dizer que você não possa se aproveitar da situação. Ele é bonito, não é?

 

– Hanram…

 

– Então, manda ver. Só assim ele vai calar a boca e dizer o que realmente quer de você. 

 

Meu amigo tocou nas minhas costelas e me deu um leve empurrão, me incentivando a levantar da cadeira. Porém ele não precisou se esforçar muito. Quando dei por mim eu estava contornando a mesa e sentando ao lado do Mateus, que me encarava com uma expressão perdida.

 

 

Eu não tirei os olhos dele nenhum minuto, ou melhor, da sua boca. De repente, eu precisava sentir aqueles lábios, eu tinha que saber do que ele era capaz. Não era possível que a única coisa que ele soubesse fazer era falar. 

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