Meu anjo da guarda

Meu anjo da guada – Capítulo 38

De início o Mateus ficou relutante, talvez assustado com a minha proximidade repentina. Eu literalmente calei ele. Porém, não demorou muito para retribuir o beijo. Aos poucos foi abrindo sua boca para receber a minha, e sem delongas colocou a mão direita na minha nuca e a esquerda na cintura, me puxando para perto. 

 

Não fiz por menos, encostei a mão no pescoço dele e o segurei forte, de repente sentindo uma necessidade de não deixar ele se afastar. A boca dele era tão voraz quanto a minha e me causava arrepios da cabeça aos pés. Eu queria mais, por alguns momentos esqueci que estávamos em um lugar público. 

 

Nossas bocas se afastaram por alguns segundos, o que fez meu coração quase parar. Eu precisava daquele beijo. Continuei de olhos fechados e puxei seu rosto para colar no meu novamente. A língua do Mateus encontrou a minha e meu corpo reagiu com sensações novas. 

 

Todos os pelos dos meus braços se eriçaram e em contraponto com meu coração que batia mais acelerado do que um martelo, eu sentia um calafrio passar em todo o meu corpo levemente, como se estivesse com o objetivo de me fazer delirar tamanha a leveza e lentidão que aquela corrente elétrica percorreu meu corpo. 

 

Senti um calor na minha barriga que foi substituído por um vento gelado assim que mais uma vez nossas bocas se afastaram. Tentei trazer o Mateus pra perto novamente, mas para o meu desespero, ele relutou e eu abri os olhos para reclamar. 

 

 

 

– Porque… – Comecei a dizer, mas parei, estava sem ar, precisava respirar. Fechei os olhos e respirei fundo, quando abri de novo, consegui vê com mais clareza. Um Mateus tão ofegante quanto eu olhava pra frente como se estivesse se desculpando. 

 

Vi várias coisas em seu rosto: arrependimento, desejo, susto, fogo. 

 

– Acho melhor vocês se controlarem, aqui é um lugar público. – Alguém disse atrás de mim. 

 

– Desculpe, não vai mais acontecer. – O Mateus respondeu, encarando o garçom que trazia nossas comidas, e logo depois ele virou o rosto pra mim, e naquele instante eu vi apenas uma coisa em seu olhar: raiva. 

 

A resposta não era apenas para o garçom. 

 

– Eu não tenha nada contra, mas sabe como é esse povo recatado. – O garçom disse com um ar de riso, acrescentando uma piscadela. Fiquei vermelha na hora e enfiei o hambúrguer na boca, desesperada para sentir o gosto da comida e esquecer o sabor da língua do Mateus. Tão gelada e tão fria, exatamente como seu rosto agora. 

 

Comemos nossa comida em silêncio e sem nos encararmos. O arrependimento e a raiva começaram a inflar meu peito. O desejo que eu senti por ele amansava, para dar lugar ao ódio e o nojo. 

 

Porque eu tinha feito aquilo? Que merda de incentivo tinha sido aquele, Trix? Tá mais do que claro que o Mateus não queria me beijar, se quisesse ele já teria feito isso há muito tempo. Deve ter ficado animado porque é homem e se deixou levar pelo momento, ou pior… pode ter ficado com pena de mim, achado que eu reagiria mal, caso ele rejeitasse o beijo.

 

Essa ideia me deu vontade de vomitar. Eu tinha sido muito idiota. Carente. Imbecil. Solitária. Porque diabos eu tinha que ter beijado aquele desgraçado? 

 

– Você não vai abrir o envelope? – Seu tom de voz era vacilante e baixo demais, mas mesmo assim me arrancou dos meus pensamentos. Então era só com isso que ele se importava. Queria saber da minha vida, mas não de mim. 

 

Respirei fundo e decidi acabar logo com aquilo. Eu já estava acostumada a ser usada por todos, não era? Que mal tinha eu dá esse gosto pro Mateus também? Não ia me arrancar nenhum pedaço. Ele não era mais importante do que ninguém. 

 

Eu deixava as pessoas me usar e seguia minha vida normalmente, com ele não seria diferente. 

 

Sem dizer uma palavra, deixei minha comida de lado, voltei pro meu lugar – só então percebi que eu estava completamente tensa ao lado dele – e peguei o envelope. Não olhei pra ele enquanto rasgava e nem depois. Eu não podia encarar aquele olhar cheio de pena e arrependimento. Uma coisa era tirar proveito de mim, outra era me tratar como se eu fosse uma boneca que precisasse de pena.

 

Dentro do envelope tinha apenas um papel dobrado. Curvei minha sobrancelha sem entender. Desdobrei e vi um cartão postal com algo escrito atrás. Meu coração deu um salto. 

 

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